APLICABILIDADE DOS CÍRCULOS DE CULTURA NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE LITERATURA
APPLICABILITY OF CULTURE CIRCLES IN HEALTH EDUCATION: AN INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW
APLICABILIDAD DE LOS CÍRCULOS CULTURALES EN LA EDUCACIÓN PARA LA SALUD: UNA REVISIÓN INTEGRATIVA DE LA LITERATURA
Luiz Gustavo Alves Lima1
Patrícia Raquel Ferreira Teles2
Maria Sônia da Silva Aguiar3
Michelle Santos Ribeiro4
Lourdes Edianne Rocha de Miranda5
Lucas Pereira de Oliveira Franco6
Fabiano Pereira da Silva7
Emmanuela Suzy Medeiros8
RESUMO:
Objetivo: analisar as potencialidades e aplicabilidades dos círculos de cultura de Paulo Freire para as práticas de educação em saúde. Metodologia: trata-se de uma revisão integrativa de literatura conduzida a partir de uma busca na BVS, PubMed, Web of Science e Scopus, a partir dos protocolos PRISMA 2020 e ENTREQ. Resultados e Discussões: a partir da análise dos trabalhos se evidenciou em dois eixos temáticos aspectos como as etapas, a instrumentalização e as potencialidades dessa abordagem para a práxis da educação em saúde sendo possível evidenciar aspectos positivos como o vínculo, a horizontalidade, longitudinalidade, interdisciplinaridade e corresponsabilização promovidos por essas práticas, em razão da abertura ao diálogo e ao protagonismo dos educandos que ocorre nesse processo. Considerações finais: identifica-se a importância dos círculos de cultura na promoção da autonomia, reflexão e consciência crítica aos pacientes diante dos processos educativos.
Palavras-chave: Educação em Saúde; Ensino; Integralidade em Saúde; Humanização da Assistência.
INTRODUÇÃO:
Diante dos fenômenos da medicalização e do intervencionismo nas práticas assistenciais e a sua consequente redução no protagonismo do paciente frente ao processo saúde-doença1, identifica-se a importância de ações destinadas à promoção da saúde, a partir da construção de conhecimentos em torno de hábitos e comportamentos saudáveis, voltados desde a prevenção dos agravos à manutenção do bem-estar biopsicossocial2.
No entanto, para que tal finalidade possa ser alcançada, identifica-se a necessidade de se garantir espaços pedagógicos para o fomento e a construção de tais conhecimentos em saúde com a comunidade, o que enseja a importância das práticas educativas capazes de alcançar os usuários a partir de um processo horizontal, humanizado e singular.
É necessário portanto considerar uma metodologia pedagógica que vá além da transposição didática3, incluindo os pacientes de maneira efetiva no processo terapêutico, a partir de uma visão de mundo aberta à superação das concepções bancárias na educação, efetivando, através do diálogo, a horizontalidade entre os participantes e os reconhecendo como sujeitos inacabados e em comunhão pela constante busca do “ser mais” 4, 5.
Diante disso, ressalta-se a relevância da visão de mundo proposta por Paulo Freire, cujas conjecturas defendem uma pedagogia apta a estimular a autonomia e a reflexão crítica dos educandos a respeito da realidade que estes encontram-se inseridos, de modo a se promover um processo de transformação do indivíduo e do seu contexto social a partir da prática educativa dialógica5.
E frente a tal arcabouço teórico, os círculos de cultura, propostos por Freire4, 5, materializam essa visão de mundo, constituindo uma das suas abordagens de maior destaque sobretudo nos âmbitos das ciências humanas e da alfabetização, alcançando, a partir de uma disposição horizontal dos participantes, um fazer pedagógico mediado pelo diálogo e pela integração das realidades no processo educativo6.
Por sua vez, esse panorama se alinha às necessidades das práticas atuais de educação em saúde, dada a constante desumanização e inefetividade que têm assolado tal contexto, perdurando um processo educativo desconexo com as reais necessidades dos indivíduos e ineficiente no que diz respeito à adesão e alcance efetivo desse público7, o que enseja a aplicação de tal abordagem nesse processo, tendo em vista a sua efetividade sobretudo nos âmbitos populares e comunitários.
Isto posto, identificando-se a necessidade de trabalhos que reúnam as evidências disponíveis acerca do uso de tal metodologia nesse âmbito, dessa forma, esse estudo objetivou analisar as potencialidades e aplicabilidades dos círculos de cultura de Paulo Freire para as práticas de educação em saúde.
MÉTODO:
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura8 voltada à síntese de evidências relacionadas às aplicabilidades dos círculos de cultura nas práticas de educação em saúde, a partir de estudos empíricos anteriores.
Para isso, realizou-se uma busca abrangente, a partir do emprego da estratégia de busca descrita no Quadro 1, nos buscadores da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), PubMed, Web of Science e Scopus, onde empregou-se Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) cruzados por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”.
Quadro 1 - Estratégia de busca:
Buscador | Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) |
BVS | ((“Círculo de cultura”)) AND ((“Saúde”) OR (“Letramento em Saúde”) OR (“Educadores em Saúde”) OR (“Sistema de Aprendizagem em Saúde”) OR (“Educação em Saúde”) OR (“Educar para a Saúde”) OR (“Educação para a Saúde”) OR (“Educação para a Saúde Comunitária”) OR (“Educação Sanitária”)) |
PubMed, Web of Science e Scopus | ((“Culture circle”)) AND ((“Health”) OR (“Health Literacy”) OR (“Health Educators”) OR (“Learning Health System”) OR (“Health Education”)) |
Fonte: elaborado pelos autores, 2024.
Estabeleceu-se como critérios de inclusão: todos os estudos publicados nos últimos cinco anos (2020 a 2024), adotando-se como critérios de exclusão: os estudos duplicados e que não relatassem práticas de educação em saúde voltadas para a população a partir do emprego da abordagem dos círculos de cultura de Paulo Freire.
A fim de se garantir um maior rigor metodológico nas buscas, adotou-se uma adaptação do protocolo PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analysis) para a condução dessa revisão, bem como do ENTREQ (Enhancing Transparency in Reporting the Synthesis of Qualitative Research) para a avaliação da qualidade dos trabalhos selecionados e para a metassíntese qualitativa dos estudos, a fim de manter uma confiabilidade e replicabilidade desse processo9. Desse modo, a análise dos trabalhos foi realizada com o uso do software Microsoft Excel®, seguindo o fluxograma de busca descrito na Figura 1.
Figura 1 - Fluxograma de busca:
Fonte: elaborado pelos autores, 2024.
RESULTADOS:
A partir da utilização da estratégia de busca descrita nas plataformas da BVS, PubMed, Web of Science e Scopus, aplicando-se os critérios de inclusão estabelecidos, identificou-se um corpus de 123 registros nacionais e internacionais, desse modo, acrescentou-se quatro registros obtidos em outras fontes, totalizando 127 registros, dos quais 52 foram removidos em razão de duplicidade.
Posteriormente, restaram 75 registros que passaram pela etapa de seleção onde analisou-se o título e o resumo dos trabalhos a fim de manter aqueles que de fato fossem potencialmente elegíveis à síntese, procedendo-se a avaliação da elegibilidade, onde realizou-se a leitura na íntegra de 60 trabalhos, mantendo-se apenas aqueles que respondessem à pergunta de pesquisa, resultado em uma amostra final de 14 trabalhos, descritos no Quadro 2 e incluídos na revisão.
Quadro 2: Caracterização dos estudos selecionados
Nº | Título: | Autor e ano: | Objetivo: | Resultados: |
1 | Adapting Paulo Freire’s Participatory Education to Develop Self-Management Education Programs for Seniors With Diabetes | Camargo-Plazas et al., 202110. | Recomendar a integração dos círculos de cultura de Paulo Freire no desenvolvimento de programas de educação em autogerenciamento do diabetes (DSME) para idosos. | O círculo cultural de Freire contribui exclusivamente para a educação de empoderamento por meio de sua ênfase na educação de proposição de problemas e colaboração mútua entre idosos e provedores de saúde, de maneiras que transformam indivíduos em professores emergentes e atores sociais e líderes em suas comunidades. |
2 | Ações educativas com adolescentes sobre a prevenção da COVID-19: relato de experiência | Bubadué et al., 202211. | descrever a experiência acadêmica na realização de ações educativas, com adolescentes sobre a prevenção da COVID-19. | As ações educativas tiveram como referencial os círculos de cultura de Paulo Freire e a problematização, a fim de que os adolescentes pudessem transitar da consciência ingênua para a consciência crítica, sobre prevenção e cuidado a respeito da COVID-19. |
3 | Câncer em tempos de COVID-19: repercussões na vida de mulheres em tratamento oncológico | Souza et al., 202012. | compreender a vivência do enfrentamento e repercussões da COVID-19, na percepção de mulheres em tratamento oncológico. | No Círculo de Cultura virtual discutiram dois temas: desafios no enfrentamento do câncer e da COVID-19; aprendizados gerados nessa vivência, considerando um renascimento das próprias cinzas. |
4 | Borges et al., 202213. | descrever o processo de aproximação dos profissionais de uma US com um grupo específico de moradores do território com pouco acesso e baixo vínculo com o serviço de saúde, por meio da utilização do Círculo de Cultura de Paulo Freire e com abordagem interdisciplinar. | Este estudo apresenta o uso do Círculo de Cultura, proposto por Paulo Freire, como ferramenta para a aproximação entre profissionais de saúde e um agrupamento de famílias em situação de vulnerabilidade no contexto do território de uma unidade de saúde periférica situada em uma capital na região Sul. | |
5 | Concepções de jovens educandos sobre sistema e serviços de saúde públicos | Mendieta et al., 202214. | descrever as concepções de jovens educandos sobre o sistema e serviços de saúde públicos, a partir da pesquisa participante. | Os educandos associam serviços de saúde com doenças e questões biológicas, e sabem que os serviços prestados pelo Sistema Único de saúde são financiados com dinheiro público. A visão dos educandos sobre a Unidade Básica de Saúde foi preocupante pelo desconhecimento sobre o que é este serviço, apesar da proximidade física com a escola e, além disso, referem não frequentar a unidade. |
6 | Pinto et al., 201915. | Relatar a intervenção educativa com jovens usuários de crack visando à prevenção do HIV/Aids, utilizando a metodologia de Círculo de Cultura. | Nos resultados, foi possível perceber que na sua maioria dos casos, os jovens não associaram o uso de drogas à contaminação pelo HIV, enfocando que apenas o preservativo deve ser utilizado para a prevenção da doença, demonstrando pouco conhecimento em relação à temática. | |
7 | Rodrigues et al., 201916. | Analisar as percepções sobre sexualidade e os respectivos desvelamentos críticos apreendidos nos Círculos de Cultura desenvolvidos com mulheres idosas. | Os seguintes desvelamentos críticos foram apreendidos: compreensão biopsicossocial da sexualidade; compreensão das diferenças sociais e psicológicas da sexualidade; e compreensão da sexualidade enquanto vivência na terceira idade. | |
8 | Educação em saúde como estratégia de qualificação da assistência às gestantes no interior do Ceará | Brandão et al., 202017. | Relatar a experiência de ações de educação em saúde com grupo de gestantes. | Foram desenvolvidos dez encontros de intervenção observando as necessidades das gestantes, com apoio da enfermeira e Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, com troca de saberes, experiências, esclarecimento de dúvidas entre acadêmica, equipe de saúde da família e gestantes, com vistas à promoção da saúde. |
9 | Corsi et al., 202318. | Conscientizar adolescentes em idade escolar sobre o método de doação e transplante de órgãos e tecidos. | Os temas identificados foram os seguintes: esclarecimentos sobre o histórico legislativo da doação e transplantes; diagnóstico de morte encefálica e circulatória; aspectos bioéticos dos transplantes; reflexões sobre luto, morte e morrer; manutenção e notificação do potencial doador; tipos de órgãos e tecidos viáveis para doação; e o processo da captação ao transplante, entre outros. A análise comparativa mostrou diferenças estatísticas entre as intervenções pré e pós. | |
10 | Estratégias para potencialização das ações de promoção da saúde com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. | Selau et al., 202119. | Refletir sobre estratégias para potencialização da promoção da saúde para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade em uma organização da sociedade civil. | Foram elaboradas quatro propostas no Círculo de Cultura, que incluem a participação democrática das crianças na escolha e no cuidado do ambiente físico, a criação de espaços de convivência e interação e a participação da comunidade. As reflexões assumiram um caráter político e educativo de formação de cidadãos democráticos, de respeito às diferenças, de desenvolvimento da autonomia, caminhando em direção à promoção da saúde. |
11 | Flores e espinhos na gestação: experiências durante a pandemia de COVID-19 | Rossetto et al., 202120. | Compreender as repercussões da COVID- 19 no caminho da gestação. | No círculo de cultura virtual, as gestantes dialogaram e refletiram criticamente sobre dois temas geradores flores e espinhos no caminhar da gestação. Significaram a vivência no círculo de cultura virtual como espaços para compartilhar experiências, acolhimento e aprendizado, dentre outros. |
12 | Luzardo et al., 202121. | compreender a percepção de idosos sobre o enfrentamento da COVID-19. | Temas Geradores 1) Repercussões amargas da COVID-19, destacando-se medos, insegurança, ansiedade, falta do convívio com pessoas e do cotidiano antes do isolamento; 2) Doces repercussões da COVID-19, desvelando-se esperança, fé, reinvenção da vida, aprendizados, sentir-se amado, cuidado e apoiado mesmo à distância. | |
13 | Borges et al., 202122. | Analisar a relação entre o planejamento didático e as etapas do Círculo de Cultura realizado com idosos hipertensos de uma Estratégia de Saúde da Família. | Os resultados demonstraram o planejamento didático na metodologia do Círculo de Cultura, cujo diagnóstico situacional é feito na etapa de investigação temática, o planejamento é realizado durante a tematização, e problematização corresponde à execução e a avaliação é uma etapa presente nos dois métodos. Obteve-se ao fim da investigação a melhora na adesão ao tratamento e consistentes mudanças no estilo de vida dos idosos por meio das intervenções educativas realizadas. | |
14 | Reflexões sobre o enfrentamento do coronavírus disease 2019: diálogos virtuais com gestantes | Souza et al., 202023. | Relatar a vivência de um Círculo de Cultura virtual, com reflexões sobre o enfrentamento da Covid-19 e as repercussões para a saúde das gestantes. | Os diálogos e reflexões emergentes possibilitaram que as gestantes aliviassem suas angústias e medos e ressignificassem suas atitudes, motivando-se mutuamente em prol da saúde, diante das adversidades geradas pela pandemia. |
Fonte: elaborado pelos autores, 2024.
Desse modo, a síntese das evidências identificadas nos artigos resultou em dois eixos temáticos que descreveram, em um primeiro momento, as etapas e o funcionamento dos círculos de cultura e posteriormente as potencialidades desse processo para a educação em saúde a partir das práticas analisadas.
DISCUSSÕES:
Eixo 1 - Contextualização e etapas dos círculos de cultura:
Observando inicialmente os indivíduos que compunham a massa popular trabalhadora, sobretudo aqueles que não possuíam acesso à educação formal, Paulo Freire fundamentou os círculos de cultura como espaços onde os indivíduos pudessem assumir a sua dignidade e a posse de seus valores históricos e culturais, figurando um processo de educação orientado sobretudo pela autonomia, dialogicidade e o respeito ao educando6.
Freire (1987)4 propôs que nesses contextos se efetivasse um âmbito problematizador da realidade, a partir de uma concepção do processo educativo como uma atividade social e política, onde educador e educando possam contribuir para a construção do conhecimento, por meio de um diálogo genuíno, revestido de humildade, amor, fé e esperança, com vistas sobretudo à transformação da realidade social4, 5.
Para tanto, além de pressupor uma abertura às contribuições do educando à práxis educativa, a metodologia dos círculos de cultura demanda para a sua realização, três etapas específicas, ilustradas no Quadro 3, de modo que se garanta uma participação efetiva dos atores na construção do conhecimento.
Quadro 3: Etapas da efetivação dos círculos de cultura:
1ª Etapa - Leitura de Mundo (Investigação) | 2ª Etapa - Leitura da Palavra (Tematização) | 3ª Etapa - Ação/Transformação (Problematização) |
a) Compartilhamento das experiências, percepções e concepções de mundo dos educandos; b) Definição dos temas-geradores; | a) Codificação e decodificação da realidade (por ilustrações, palavras, fotografias), através dos temas-geradores; b) Compreensão de uma situação ou contexto concreto a partir do seu afastamento ou abstração; | a) Superação de uma visão ingênua para uma perspectiva crítica. b) Ação-reflexão-ação; c) Transformação do contexto vivido. |
Fonte: elaborado pelos autores, conforme Freire4, 2024.
Inicialmente, a fim de se definir um ponto de partida para a práxis dos círculos de cultura, propõe-se que haja um processo inicial de abertura aos educandos, de modo que estes possam compartilhar suas experiências e percepções para que seja possível investigar o seu universo vocabular e as situações-limite em torno de suas realidades, isto é, as necessidades e desafios que estão postos em seus contextos de vida 4, 5.
A esse processo, Freire4 deu o nome de leitura de mundo, constituindo uma etapa onde os educandos irão refletir e apontar tais aspectos de seus contextos a fim de se estabelecer os temas-geradores do diálogo, que irão orientar a prática educativa e a condução dos círculos de cultura6.
Conforme descrito na literatura, esta etapa constitui uma oportunidade para que o profissional de saúde, revestido de sua função educativa, possa conhecer e adentrar nos contextos de sua atuação, de modo que as suas práticas dialoguem com os saberes dos indivíduos e sejam efetivas diante das situações-limite, encontrando uma maior receptividade, adesão e eficácia em suas contribuições.
Nessa linha, Borges et al., (2021)22 e Camargo-Plazas et al. (2021)10, ao conduzirem círculos de cultura com idosos hipertensos e diabéticos, evidenciaram a importância da interpretação das necessidades de saúde dos seus públicos, de modo que as práticas voltadas à promoção da saúde se realizem a partir da identificação das realidades específicas de saúde desses grupos, que por sua vez, devem surgir dos educandos e não dos educadores.
Tais aspectos promovem uma capilaridade e sensibilidade aguçadas ao reconhecimento dos contextos e das necessidades de saúde apresentadas pelos indivíduos, a exemplo do identificado nas experiências analisadas, que ao conduzirem círculos de cultura com gestantes23, 20, idosos21 e adolescentes11 na pandemia de Covid-19, puderam promover práticas de educação em saúde mais efetivas a partir da aferição de aspectos relacionados à adaptação e às necessidades específicas desses públicos no contexto pandêmico.
Na segunda etapa, denominada leitura da palavra, faz-se necessário que os temas-geradores passem por um processo de codificação e decodificação, de modo que se utilize do conhecimento que já está presente nos educandos para a reflexão crítica do que se deseja aprender e se discuta tais símbolos a partir dos significados socioculturais e econômicos atribuídos pelos participantes6, 10.
Essa etapa é onde as técnicas de sensibilização ocorrem com mais ênfase, utilizando-se de elementos criativos, a exemplo de objetos, dramatizações22, sites18, jogos, paródias15, escrita de frases 12, 23, 21, ilustrações, cartazes ou a própria conversação13, 22, que são constantemente citados nas experiências evidenciadas.
Dessa maneira, à medida que se possibilita um afastamento e abstração da realidade que esses sujeitos encontram-se inseridos, permite-se a ida ao encontro da consciência possível, isto é, das soluções, que antes, no cerne da consciência real, não eram percebidas, o que Freire descreveu como os inéditos-viáveis4.
Exemplo disso, é o desenvolvido por Pinto et al. (2019)15, onde em um círculo de cultura sobre a prevenção do HIV/Aids com jovens usuários de crack utilizou-se de tarjetas de cartolina a fim de que os educandos construíssem um quadro com as formas de transmissão e prevenção conhecidas, o que proporcionou a compreensão desses aspectos a partir do surgimento de questionamentos e a discussão em grupo.
Bem como o evidenciado por Rodrigues et al., (2019)16 que puderam discutir com um grupo de mulheres idosas sobre situações-limite acerca da sexualidade, identificando aspectos como as compreensões biopsicossociais e a vivência desse conceito na terceira idade, a partir de discussões e da apresentação de um documentário.
Sendo assim, na terceira etapa dos círculos de cultura se propõe que a partir da identificação das situações-limite e da sua codificação e decodificação, por meio da análise dos temas-geradores, se problematize a realidade a partir da sua interpretação, de modo que se construa explicações em conjunto onde a percepção ingênua da realidade possa se transformar em uma visão crítica, apta a identificar caminhos para transformá-la6, 4.
Nesse momento decisivo se propõe uma discussão dos problemas surgidos durante a reflexão, através da ação/transformação, o que constitui o cerne do processo educativo, significando o momento da troca de saberes entre profissionais e pacientes para a construção do conhecimento, a partir do desenvolvimento do vínculo, da corresponsabilização, interdisciplinaridade 13, 22, 14, 11, 17.
Eixo 2 - Potencialidades dos círculos de cultura nas práxis da educação em saúde:
A partir da análise, destaca-se as potencialidades da educação em saúde a partir dos círculos de cultura em três âmbitos temáticos representados na figura: as relações entre profissionais e pacientes, a compreensão crítica e biopsicossocial do conceito saúde-doença e de seus determinantes e condicionantes, bem como a atuação dos educandos diante das situações-limite, a partir do autocuidado, da modificação de hábitos, costumes e modos de vida, capazes de promover a integralidade da saúde.
Os círculos de cultura são apontados pelos estudos como uma tecnologia leve, de fácil implantação e de pouco custo para os serviços de saúde13,. No que diz respeito à relação desenvolvida entre os participantes dos círculos de cultura, o diálogo é o aspecto mais citado, haja vista que essa competência figura não só como um pressuposto para o funcionamento dessa metodologia, mas também como um resultado de tal prática, sendo retroalimentado positivamente por ela.
E tal aspecto, por sua vez, constitui um elevado potencial ao itinerário terapêutico, dada a necessidade crescente do diálogo e da abertura às contribuições do paciente nesse processo e a importância desses elementos no cuidado, um aspecto notadamente reconhecido na literatura24, 2 e que é capaz de permitir uma aproximação entre os atores do cuidado, construindo e fortalecendo o vínculo, por meio do compartilhamento de pensamentos, dúvidas e experiências, bem como da busca conjunta por soluções13, 16, 22, 21.
Além disso, destaca-se a interdisciplinaridade que pode ser promovida nesse contexto, dada a possibilidade de aproximação entre os profissionais de saúde, que diante dos círculos de cultura podem se posicionar de maneira mais horizontal, contribuindo com os seus conhecimentos e especialidades no processo educativo13.
Desse modo, diante de uma realidade cada vez mais medicalizada, onde as práticas educativas em saúde reservam-se unicamente à transmissão vertical de conhecimentos, como depósitos bancários1, 7, 25, a abordagem a partir dos círculos de cultura torna-se essencial para a inclusão do paciente no contexto terapêutico e sobretudo para a efetividade desse processo, obtendo-se adesão, credibilidade e mudança nos fatores que condicionam e determinam a saúde dos indivíduos19.
Exemplo disso é o descrito por Corsi et al., 202318, que ao realizarem círculos de cultura sobre doação de órgãos com 936 estudantes de uma escola brasileira, obtiveram um aumento considerável na compreensão dos discentes sobre esse processo, inclusive no que diz respeito à intenção dos participantes e de seus familiares de serem doadores.
Outrossim, é notado nos relatos a implicação dessa abordagem na mudança das percepções de saúde por parte dos educandos, que passam a reconhecer esse conceito não mais como a ausência de doenças, e nem os seus motivadores, os determinantes e condicionantes, como determinismos históricos, passando a serem observados como fatores amplamente passíveis de modificações13, 22, 18.
Esse processo, à medida que possibilita uma compreensão do protagonismo do paciente diante da integralidade da saúde, o devolve a capacidade de intervir em sua realidade, por meio da instrumentalização da reflexão-ação-reflexão como uma ferramenta de promoção do empoderamento e autonomia para o autocuidado e a mudança dos hábitos, comportamentos e modos de vida22, 17, 21, 19, permitindo a esses indivíduos o pensamento criticamente das concepções do binômio saúde-doença e a libertação das situações-limites que percalçam as suas realidades11, 13, 16, 14.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A partir de uma revisão abrangente, esse estudo demonstrou a instrumentalização e as potencialidades em torno do uso do itinerário dos círculos de cultura de Paulo Freire, a partir de práticas empíricas de educação em saúde, identificando-se a sua capacidade de garantir humanização e integralidade a partir de uma prática dialógica, responsável por proporcionar autonomia, reflexão e consciência crítica aos pacientes diante dos processos educativos.
A partir dessa análise se reúne os modos com os quais as experiências empíricas da literatura conduziram os círculos de cultura, sendo possível evidenciar aspectos positivos como o vínculo, a horizontalidade, longitudinalidade, interdisciplinaridade e corresponsabilização promovidos por essas práticas, em razão da abertura ao diálogo e ao protagonismo dos educandos que ocorre nesse processo, constatando-se a aplicabilidade e a eficácia dessas práticas sobretudo nos contextos comunitários e de populações vulneráveis.
Dessa maneira, conclui-se que diante de práticas educativas muitas vezes medicalizadas, assistencialistas e bancárias na educação em saúde, os círculos de cultura têm um potencial efetivo de alcançar os educandos promovendo mudanças efetivas nas relações, entre profissionais e pacientes, na compreensão ampliada do processo saúde-doença e na atuação diante das situações-limite.
Outrossim, indica-se como limitação desse estudo o número insuficiente de trabalhos que avaliem de maneira quantitativa e mais sistemática o impacto da abordagem dos círculos de cultura em diferentes contextos de educação em saúde.
REFERÊNCIAS:
1. BARROS JA. Pensando o processo saúde doença: a que responde o modelo biomédico? Saúde Soc. 2002;11(1):67–84.
2. BORGES DC, et al. Círculo de Cultura como estratégia de promoção da saúde: encontros entre educação popular e interdisciplinaridade. Saúde Debate. 2022;46(spe6):228–38.
3. BORGES FM, et al. Relação entre planejamento didático e círculo de cultura: experiência com grupo de idosos hipertensos. Saúde Redes. 2021;7(3):115–127.
4. BRANDÃO MGSA, et al. Educação em saúde como estratégia de qualificação da assistência às gestantes no interior do Ceará. Rev Enferm Atenção Saúde. 2020;9(1):127–135.
5. BUBADUÉ RM, et al. Ações educativas com adolescentes sobre a prevenção da COVID-19: relato de experiência. Rev Enferm UFSM. 2022;12:e27.
6. CAMARGO-PLAZAS P, et al. Adapting Paulo Freire’s participatory education to develop self-management education programs for seniors with diabetes. Can J Diabetes. 2021;45(6):575–578.
7. CANCIO I, SOARES J. Critérios e estratégias de qualidade e rigor na pesquisa qualitativa. Cienc Enferm. 2020;26:28.
8. CAPRA F. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 1982.
9.CARMES BA, et al. Contribuições de Paulo Freire para a melhoria da relação médico-paciente. Saúde Debate. 2024;48(142):e8790.
10. CHEVALLARD Y, JOHUA MA. La transposition didactique: du savoir savant au savoir enseigné. La Pensée Sauvage, 1985.
11. CORSI CAC, et al. Educational actions to raise student awareness about the donation and transplantation of human organs and tissues. Transplant Proc. 2023;55(6):1329–1336.
12. DANTAS VL, LINHARES AMB. Círculos de Cultura: problematização da realidade e protagonismo popular. Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. II Caderno de educação popular em saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014.
13. FREIRE P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
14. FREIRE P. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
15. LIMA AFA, MACHADO FIS. Médico como arquiteto da escolha: paternalismo e respeito à autonomia. Rev Bioética. 2021;29(1):44–54.
16. LUZARDO AR, et al. Percepções de idosos sobre o enfrentamento da COVID-19. Cogitare Enferm. 2021;26:e78852.
17. MENDIETA MC, et al. Concepções de jovens educandos sobre sistema e serviços de saúde públicos. Ciênc Cuid Saúde. 2022;210.
18. PINTO ACS, et al. Conversando sobre a prevenção do HIV/AIDS com homens jovens usuários de crack. Rev Enferm Atual In Derme. 2019;82(20).
19. RODRIGUES DMMR, et al. Desvelamento Crítico em Sexualidade Desenvolvido com Idosas como Dispositivo de Avaliação Educativa Dialógica. Rev Baiana Enferm. 2019;33.
20. ROSSETTO M, et al. Flores e espinhos na gestação: experiências durante a pandemia de COVID-19. Rev Gaúcha Enferm. 2021;42:e20200468.
21. SELAU BL, et al. Estratégias para potencialização das ações de promoção da saúde com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Interface. 2021;25:e210235.
22. SIMONSMEIER B, et al. What sixty years of research says about the effectiveness of patient education on health: a second order meta-analysis. Health Psychol Rev. 2021;16:450–74.
23. SOUZA JB, et al. Câncer em tempos de COVID-19: repercussões na vida de mulheres em tratamento oncológico. Rev Enferm UERJ. 2020;28:e51821.
24. SOUZA JB, et al. Reflexões sobre o enfrentamento do coronavírus disease 2019: diálogos virtuais com gestantes. R Enferm Cent O Min. 2020;10.
25. SOUSA LMM, et al. A metodologia de revisão integrativa da literatura em enfermagem. Rev Invest Enferm. 2017;21(2):17–26.
1Discente do curso de graduação em enfermagem da Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0007-8580-5463,
2Pós-graduanda em Orientação Profissional e Psicóloga pela Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0008-5825-0041.
3Discente do curso de graduação em Enfermagem da Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0004-6797-2418.
4Discente do curso de graduação em enfermagem da Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0006-8353-3153.
5Psicóloga pela Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0006-3377-4653.
6Discente do curso de graduação em Enfermagem da Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, lucasfrankly009@gmail.com, (88) 98126-1748, https://orcid.org/0009-0003-9494-4968.
7Bacharel em Direito, Pós graduando em docência do ensino superior pelo Centro Universitário Leão Sampaio, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0004-9734-6565.
8Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade do Norte do Paraná, Mestre em Educação pela Universidade São Marcos, docente no Centro Universitário Paraíso do Ceará, Juazeiro do Norte, Ceará - Brasil, https://orcid.org/0009-0006-7030-9486.