PROGRAMA CICLO SAÚDE: SUSTENTABILIDADE E IMPACTOS
NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE (2014 – 2019)
Cibele Rodrigues Paes Leme[1]
Kátia Maria Braga Edmundo[2]
Resumo
Objetivo: Avaliar a sustentabilidade do Programa Ciclo Saúde, iniciativa de fortalecimento da atenção básica em municípios brasileiros. Método: Estudo de métodos mistos com análise documental (2014-2019) e questionários semiestruturados aplicados a 126 profissionais de saúde de quatro estados. Utilizou-se matriz de avaliação com quatro níveis de sustentabilidade. Resultados: Identificou-se sustentabilidade avançada (>74%), com 98% de incorporação de práticas nas equipes. A institucionalização, engajamento profissional e tecnologias inovadoras foram determinantes para a continuidade.
Conclusão: O programa demonstrou impacto positivo na formação profissional e práticas da Atenção Básica, oferecendo modelo replicável com estratégias participativas e intersetoriais.
Descritores: Avaliação de Programas e Projetos de Saúde; ; Atenção Primária à Saúde; Promoção da Saúde; Política de Saúde; Educação Continuada.
CYCLE HEALTH PROGRAM: SUSTAINABILITY AND IMPACTS ON PRIMARY HEALTH CARE (2014–2019)
Abstract
Objective: To evaluate the sustainability of Ciclo Saúde Program, a primary healthcare strengthening initiative in Brazilian municipalities. Method: Mixed-methods study with document analysis (2014-2019) and semi-structured questionnaires administered to 126 health professionals from four states. An evaluation matrix with four sustainability levels was applied. Results: Advanced sustainability (>74%) was identified, with 98% practice adoption by teams. Institutionalization, professional engagement and innovative technologies were key continuity factors. Conclusion: The program positively impacted professional training and primary care practices, offering a replicable model with participatory and intersectoral strategies.
DESCRIPTORS: Program Evaluation; Primary Health Care; Health Promotion; Health Policy; Education, Continuing.
PROGRAMA CICLO SAÚDE: SOSTENIBILIDAD E IMPACTOS EN LA ATENCIÓN PRIMARIA DE SALUD (2014–2019)
Resumen
Objetivo: Evaluar la sostenibilidad del Programa Ciclo Saúde, iniciativa de fortalecimiento de atención primaria en municipios brasileños. Método: Estudio de métodos mixtos con análisis documental (2014-2019) y cuestionarios semiestructurados aplicados a 126 profesionales de salud de cuatro estados. Se utilizó matriz de evaluación con cuatro niveles de sostenibilidad. Resultados: Se identificó sostenibilidad avanzada (>74%), con 98% de incorporación de prácticas. La institucionalización, participación activa y tecnologías innovadoras fueron determinantes. Conclusión: El programa impactó positivamente en la formación profesional y prácticas de atención primaria, ofreciendo modelo replicable con estrategias participativas e intersectoriales.
DESCRIPTORES: Evaluación de Programas; Atención Primaria de Salud; Promoción de la Salud; Política de Salud; Educación Continua.
Introdução
O Programa Ciclo Saúde, implementado em 2014 e institucionalizado em 2018, visa transformar realidades locais por meio de formação participativa, capacitação e tecnologias de promoção da saúde, repensando práticas e processos de trabalho¹. A sustentabilidade de programas sociais em saúde é essencial, considerando as desigualdades e desafios estruturais do setor, definindo-se pela continuidade de resultados positivos após o término de financiamento2.
Há uma lacuna científica nas metodologias para avaliar programas que envolvem capacitação profissional na promoção da saúde. Analisar a sustentabilidade do Ciclo Saúde é fundamental para compreender como iniciativas sociais perduram em contextos de recursos limitados. Este estudo oferece uma abordagem teórico-metodológica replicável, integrando Ciências Sociais, Humanas e Saúde Coletiva3 para avaliar contextos, processos sociais e culturais que impactam a continuidade de programas.
O programa adapta práticas aos territórios, valorizando participação comunitária como eixo para equidade4. Supera modelos biomédicos tradicionais ao envolver ativamente profissionais e comunidades no processo de construção coletiva da saúde5. Sua perspectiva intersetorial fortalece o SUS, promovendo políticas públicas integradas6.
A avaliação da sustentabilidade não se limita a indicadores quantitativos, mas abrange conhecimento, práticas e organização dos serviços. Este artigo descreve o percurso metodológico para avaliar a sustentabilidade do programa, com três objetivos: Identificar critérios de sustentabilidade aplicados; Explorar a percepção dos profissionais; Analisar desafios e propor soluções para avaliações futuras.
O estudo contribui para políticas públicas alinhadas ao SUS e às necessidades reais de comunidades e profissionais de saúde.
Método
Utilizamos uma abordagem de métodos mistos, quantitativos e qualitativos, para realizar a avaliação participativa da sustentabilidade do Programa Ciclo Saúde nas dimensões propostas. Empregamos múltiplas fontes de dados, longitudinalidade e engajamento ativo dos profissionais nas diferentes fases da avaliação, desde o Estudo de Avaliabilidade—que validou as questões avaliativas com o desenvolvimento da Matriz de Avaliação e Julgamento (MAJ)—até a participação em um instrumento semiestruturado como fonte de dados durante a própria avaliação. Essa abordagem alinhou-se ao objetivo de compreender a sustentabilidade do programa ao longo do tempo, considerando as dimensões de conhecimento, práticas, processos de trabalho e organização dos serviços7.
A metodologia foi estruturada em duas etapas principais: o Estudo de Avaliabilidade (EA) e a construção da Matriz de Análise e Julgamento (MAJ). O primeiro permitiu uma avaliação sistemática e robusta do programa, enquanto a MAJ forneceu uma estrutura para a análise integrada dos dados qualitativos7. A escolha metodológica foi motivada pela necessidade de uma compreensão abrangente e integradora, incluindo perspectivas diversas dos participantes, análise de documentos oficiais e acompanhamento da evolução do programa entre 2014 e 2019.
O estudo longitudinal sobre a sustentabilidade do programa foi conduzido por meio da análise de documentos oficiais dos anos de 2014 a 20198. Tais documentos abrangiam: Relatórios de oficinas (básicas e temáticas); Registros de treinamentos de profissionais, atividades de capacitação e ação; Depoimentos e avaliações dos participantes; Revistas do programa: publicações que reúnem depoimentos, relatos de experiências e reflexões de profissionais que atuam em municípios dos estados do Pará, Minas Gerais, Maranhão e Espírito Santo; Termos de cooperação: acordos formais estabelecidos entre entidades municipais e instituições executoras do programa, definindo diretrizes e responsabilidades; Relatórios de monitoramento: documentos que informam sobre o acompanhamento das atividades e resultados do programa durante o período.
A seleção das fontes baseou-se em sua abrangência e representatividade, permitindo uma análise longitudinal e multidimensional da sustentabilidade do programa. Documentos oficiais e entrevistas semiestruturadas forneceram dados robustos sobre implementação, desafios e resultados, além de capturar as percepções dos profissionais. Foram estudados municípios de quatro estados brasileiros, selecionando um município por estado para garantir diversidade socioeconômica e de gestão. As UBS incluídas refletiam realidades distintas, enriquecendo a análise9.
O estudo utilizou um delineamento de casos múltiplos10, por se tratar de uma intervenção complexa, fortalecendo as evidências, ampliando a validade externa e permitindo a generalização dos resultados para contextos similares 9,10. A seleção de casos seguiu a replicação literal, requerendo conhecimento prévio de alguns resultados para identificar padrões exemplares. A seleção foi estratégica e guiada por três características principais: Representatividade geográfica e diversidade socioeconômica; Inserção no programa desde sua implantação; Acesso a evidências documentais e profissionais que participaram do programa.
A coleta de dados foi realizada em duas etapas: análise documental e aplicação de questionário. A análise documental envolveu a revisão de relatórios, registros de capacitação e avaliações internas do Programa Ciclo Saúde, que forneceram uma visão histórica e contextual sobre a implementação do programa. Um instrumento semiestruturado, com perguntas fechadas e abertas, foi distribuído via Google Forms. A análise descritiva foi realizada nas questões fechadas, e as questões abertas foram submetidas à técnica de análise de conteúdo, que compreende a pré-análise e exploração do material11.
A seleção dos participantes foi intencional9 , considerando a rede de contatos do Programa Ciclo Saúde, bem como a consulta aos profissionais ativos no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES)12 . No total, 344 profissionais destes municípios utilizaram o programa desde o início. Dos 168 registros ativos no CNES, 126 confirmaram participação via contato telefônico (WhatsApp), representando 75% de adesão. A distribuição por município foi: Canaã (65), São Luís (40), Resplendor (10) e Fundão (11). A análise dos dados foi realizada em diversas etapas: a análise separada de cada caso e a análise conjunta dos quatro estados, documental e de dados primários para cada município, identificando particularidades locais e desafios.
Posteriormente, os dados foram agregados segundo parâmetros de avaliação do grau de sustentabilidade, baseados nos modelos de Ng & de Colombani (2015) e Silva et al. (2005), adaptados para mensurar a manutenção dos efeitos programáticos ao longo do tempo. A classificação do grau de sustentabilidade envolveu quatro níveis: Grau Baixo (1–24%); Grau Intermediário (25–49%); Alto Grau (50–74%); Grau Avançado (>74%).
A pontuação obtida em cada critério foi comparada com o total de pontos máximos, e a média aritmética simples foi calculada para determinar o grau de sustentabilidade do Programa Ciclo Saúde13,14.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estácio de Sá (UNESA/RJ), sob o Parecer Consentido nº 5.202.958 e CAAE: 52639121.7.0000.5284.
Resultados e Discussão do Programa Ciclo Saúde (2014-2019)
A análise documental do Programa Ciclo Saúde revelou impactos significativos em quatro dimensões principais ao longo de cinco anos de implementação. Na dimensão do Conhecimento, os resultados mostraram variações estaduais importantes: Minas Gerais alcançou 85% de nova compreensão do SUS, o Pará registrou 93% de aprendizagem significativa, o Maranhão apresentou 90% de reconhecimento da Atenção Básica, enquanto o Espírito Santo obteve 100% de clareza nas práticas. Os depoimentos dos profissionais foram elucidativos, como o de MG que afirmou "Me mostrou a evolução do SUS" ou o do ES que destacou "Revitalizou nosso grupo". Esses resultados demonstram ganhos concretos em autonomia profissional e uma visão ampliada do território de atuação15.
No âmbito das Práticas Profissionais, observou-se que 90% das equipes relataram transformações significativas em seus modos de atuação, com impressionantes 100% de implementação de novas tecnologias de cuidado. Relatos como "Entendi a importância dos Agentes Comunitários de Saúde" em MG ou a adoção sistemática de rodas de conversa no ES evidenciaram processos consistentes de humanização do cuidado e fortalecimento de vínculos profissionais-comunitários16,17. Quanto aos Processos de Trabalho, a totalidade das Unidades Básicas de Saúde realizou capacitações, com depoimentos marcantes como "Equipamentos agilizaram processos" no PA, resultando em maior resolutividade das ações e elevada satisfação profissional18.
A Organização dos Serviços apresentou dados igualmente relevantes, com 88% de ações intersetoriais implementadas. Projetos inovadores como o "Mulher Maravilha" no ES e as hortas comunitárias em MG ilustram abordagens integrais que promoveram efetiva participação comunitária18. A análise longitudinal dos casos múltiplos em 2023 permitiu classificar a sustentabilidade do programa como Avançada em todos os componentes avaliados.
No eixo do Conhecimento, 95% dos profissionais relataram ampliação substantiva de saberes, com destaque para MG (100%) e ES (82%). As Práticas Profissionais mostraram mudanças em 100% dos casos, sendo as rodas de conversa (MA/ES) e vídeo-debates (MG/PA) as tecnologias mais utilizadas e valorizadas16. Quanto à Organização dos Serviços, a intersetorialidade manteve índices entre 77% e 91%, com efeitos permanentes variando de 70% a 91% nas diferentes localidades, confirmando a robustez e sustentabilidade do modelo implementado pelo Programa Ciclo Saúde.
Conclusão
O estudo demonstrou a sustentabilidade avançada do Programa Ciclo Saúde, alcançando seus três objetivos principais: identificação de critérios de sustentabilidade, análise da percepção profissional e proposição de soluções para avaliações futuras. A abordagem mista, combinando análise documental longitudinal (2014-2019) e dados primários de 126 profissionais, revelou impactos consistentes nas dimensões de conhecimento (até 100% de apropriação conceitual), práticas (90-100% de transformações), processos de trabalho (100% de capacitação) e organização dos serviços (88% de intersetorialidade). Os resultados qualitativos e quantitativos convergiram para confirmar a efetividade do modelo participativo, com destaque para o fortalecimento do SUS por meio de tecnologias inovadoras (rodas de conversa, vídeo-debates) e projetos territoriais ("Mulher Maravilha"-ES). A classificação como "Grau Avançado" (>74%) em todas as dimensões atesta a capacidade do programa em manter efeitos duradouros, oferecendo um modelo replicável para avaliação de políticas públicas em saúde.
Referências
AGRADECIMENTOS
Expressamos nossos sinceros agradecimentos aos 126 profissionais de saúde dos estados do Pará, Minas Gerais, Maranhão e Espírito Santo, cuja participação dedicada foi fundamental para o êxito desta pesquisa. Seus conhecimentos e experiências enriqueceram significativamente a compreensão da sustentabilidade do Programa Ciclo Saúde.
Um agradecimento especial à Fundação Vale pela iniciativa visionária do Ciclo Saúde, que desde 2014 tem transformado práticas na Atenção Primária à Saúde em diversos municípios brasileiros.
Reconhecemos com profunda gratidão a Prof.ª Dra. Marly Marques da Cruz (ENSP/Fiocruz) por suas valiosas contribuições como coorientadora da tese de doutorado que originou este artigo, particularmente pelas reflexões metodológicas e teóricas que fortaleceram esta análise.
Agradecemos ainda às equipes gestoras locais e aos Comitês de Ética em Pesquisa pelo apoio institucional durante o desenvolvimento deste trabalho.
Apoio financeiro: Não houve
Conflito de interesse:
Os autores declaram não haver conflitos. A autora Cibele Rodrigues Paes Leme atuou como consultora do CEDAPS durante a fase de implementação do programa (2014-2016). A coautora Katia Maria Braga Edmundo exerce atualmente o cargo de Diretora Executiva do CEDAPS. Ressaltamos que todas as etapas da pesquisa - coleta, análise e interpretação dos dados - foram conduzidas com independência acadêmica, garantida por: (1) utilização de métodos validados cientificamente; (2) triangulação de fontes de dados; e (3) disponibilidade dos dados brutos para auditoria.
[1] Pesquisadora/consultora do Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS). Doutora em saúde da família pela Universidade Estácio de Sá. Mestrado em Saúde da Família pela UNESA /graduada em enfermagem. ORCID https://orcid.org/0000-0003-2666-9418
[2] Universidade Estácio de Sá Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS). Doutora em Psicossociologia de Comunidade e Ecologia Social pela Universidade Gama Filho e Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro . Graduação em Psicologia pela Universidade Gama Filho . ORCID https://orcid.org/0000-0001-5726-1998