COMPORTAMENTO PREVENTIVO E FATORES ASSOCIADOS À COVID-19 EM ADULTOS TOTALMENTE VACINADOS: ESTUDO TRANSVERSAL

PREVENTIVE BEHAVIOR AND FACTORS ASSOCIATED WITH COVID-19 IN FULLY VACCINATED ADULTS: CROSS-SECTIONAL STUDY

COMPORTAMIENTO PREVENTIVO Y FACTORES ASOCIADOS A COVID-19 EN ADULTOS TOTALMENTE VACUNADOS: ESTUDIO TRANSVERSAL

Tipo de artigo: Artigo de estudo primário

Autores

Lourrany Borges Costa
Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-6334-8624

Antônia Luciana Souza Bekman
Especialista em Saúde Pública, Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Orcid: 
https://orcid.org/0009-0009-6861-183X

Silvana Soares de Souza
Administradora, Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Orcid: 
https://orcid.org/0009-0003-9603-9187

Francisca Kalline de Almeida Barreto
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0001-9767-7154

Ana Carolina Barjud Marques Máximo
Mestre em Gestão em Saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisadora do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará.
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0001-9927-4631

Fernanda Kézia Sousa Silva
Especialista em Hematologia Clínica e Banco de Sangue pelo Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-3485-1079

Magda Moura de Almeida
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-4806-2345

Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti
Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: 
https://orcid.org/0000-0002-3440-1182

Correspondência: Lourrany Borges Costa. E-mail: lourranybc@unifor.br. Telefone: 85999308846

RESUMO

Objetivo: Avaliar fatores associados à adoção de comportamentos preventivos em uma população vacinada contra a covid-19. Método: Estudo transversal realizado em Guaramiranga, Ceará, primeira cidade do estado a vacinar integralmente sua população adulta. Foram entrevistados 2.830 residentes vacinados entre setembro de 2021 e dezembro de 2022. Analisaram-se variáveis sociodemográficas, clínicas e conhecimento sobre prevenção. Resultados: A maioria referiu lavar as mãos (65,3%) e usar máscara fora de casa (63,8%), mesmo após a vacinação (59,7%). Maior adesão ocorreu entre mulheres, adultos jovens e indivíduos com doenças crônicas ou maior conhecimento preventivo (p < 0,05). Baixa escolaridade associou-se a maior isolamento e distanciamento (p < 0,05). Conclusão: Mesmo com alta cobertura vacinal, comportamentos preventivos persistiram. O estudo destaca a importância da percepção de risco, do conhecimento em saúde e dos determinantes sociais na adesão contínua a medidas de proteção em contextos de alta imunização.

DESCRITORES: Covid-19; Comportamento preventivo; Percepção de risco; Educação em saúde; Imunização.

ABSTRACT

Objective: Understanding the factors influencing preventive behavior in vaccinated populations is essential for pandemic preparedness. This study assessed protective behaviors among adults vaccinated against COVID-19 in Guaramiranga, a small municipality in Ceará, Brazil, with approximately 5,073 inhabitants. Guaramiranga became the first municipality in the state to fully vaccinate its registered population, beginning on January 20, 2021. Method: A cross-sectional analytical study using structured digital questionnaires was conducted from September 2021 to December 2022. Outcome variables included self-reported adherence to hand hygiene, mask use, distancing, and isolation, analyzed in relation to sociodemographic characteristics, health conditions, and knowledge about SARS-CoV-2. Result: Among 2,830 participants (53.9% female; median age 39), the most frequent behaviors were handwashing (65.3%), mask use when leaving home (63.8%), and continued use post-vaccination (59.7%). Women and younger adults reported higher adherence (p < 0.05). Lower education was associated with greater isolation and distancing (p < 0.05), underscoring social determinants in health behavior. Individuals with chronic conditions and better knowledge about prevention were significantly more adherent. Conclusion: Despite full vaccination, most participants maintained preventive measures, which may have contributed to low local hospitalization and mortality rates. These findings reinforce the importance of tailored public health messaging and local preparedness efforts, particularly in socially diverse communities.

DESCRIPTORS: COVID-19; Preventive behavior; Risk perception; Health education; Immunization.

RESUMEN

Objetivo: Evaluar los factores asociados a la adopción de comportamientos preventivos en una población vacunada contra la COVID-19. Método: Estudio transversal realizado en Guaramiranga, Ceará, el primer municipio del estado en vacunar completamente a su población adulta. Se encuestaron 2.830 residentes vacunados entre septiembre de 2021 y diciembre de 2022. Se analizaron variables sociodemográficas, clínicas y de conocimiento preventivo. Resultado: La mayoría refirió lavado frecuente de manos (65,3%) y uso de mascarilla fuera del hogar (63,8%), incluso tras la vacunación (59,7%). La adherencia fue mayor entre mujeres, adultos jóvenes y personas con enfermedades crónicas o mayor conocimiento (p < 0,05). Menor escolaridad se asoció a más aislamiento y distanciamiento (p < 0,05). Conclusión: Apesar de la cobertura vacunal completa, se mantuvieron conductas preventivas. El estudio resalta la importancia de la percepción del riesgo, el conocimiento en salud y los determinantes sociales en la continuidad de medidas de protección en comunidades con alta inmunización.

DESCRIPTORES: COVID-19; Conducta preventiva; Percepción de riesgo; Educación en salud; Inmunización.

INTRODUÇÃO

A pandemia de covid-19, provocada pelo SARS-CoV-2, constituiu uma grave emergência sanitária global, revelando fragilidades dos sistemas de saúde e demandando respostas coordenadas. Medidas não farmacológicas, como distanciamento, isolamento, higiene das mãos e uso de máscaras, foram essenciais, sobretudo antes da vacinação em massa(1). No entanto, sua efetividade dependeu da adesão da população, influenciada por fatores sociais, econômicos e comportamentais.

No Brasil, a pandemia evidenciou profundas desigualdades regionais. No Ceará, os primeiros casos ocorreram em março de 2020, e em poucas semanas a rede hospitalar já enfrentava colapso, com elevada ocupação de leitos. Ao final do período pandêmico, o estado somava mais de 1,5 milhão de casos e cerca de 28 mil óbitos(2,3).

Com o avanço da vacinação em 2021, surgiram preocupações quanto à redução na adesão às medidas protetivas. No entanto, a manutenção desses comportamentos continuou sendo crucial frente às incertezas quanto à duração da imunidade e ao surgimento de variantes(4,5).

Guaramiranga, município turístico de pequeno porte no Ceará, foi o primeiro a atingir cobertura completa da primeira dose vacinal em adultos, configurando um cenário oportuno para estudar o comportamento preventivo em uma população vacinada. Embora a literatura tenha explorado a hesitação vacinal e a adesão inicial às medidas protetivas, há escassez de estudos sobre sua persistência após a imunização, especialmente em contextos rurais e turísticos.

Investigar os determinantes sociais e comportamentais que sustentam tais práticas é essencial para orientar estratégias de comunicação em saúde e fortalecer a preparação frente a futuras emergências. Este estudo teve como objetivo descrever os comportamentos preventivos adotados por adultos vacinados em Guaramiranga e analisar sua associação com características sociodemográficas, condições de saúde e conhecimento sobre a covid-19.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, com abordagem analítica, realizado no município de Guaramiranga, localizado na região serrana do estado do Ceará, Brasil, entre setembro de 2021 e dezembro de 2022. O município tem perfil turístico e apresentava população estimada de 5.193 habitantes no período do estudo, sendo 4.002 adultos com 18 anos ou mais(6). No início de 2021, Guaramiranga foi priorizada na distribuição de vacinas contra a covid-19, recebendo 5.187 doses de primeira aplicação: 3.328 da CoronaVac (Sinovac/Instituto Butantan), 1.685 da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz e 174 da Pfizer–BioNTech (Comirnaty). Entre março de 2020 e fevereiro de 2022, o município notificou 4.663 casos suspeitos, com 1.565 casos confirmados e seis óbitos(2).

Foram elegíveis os residentes com 18 anos ou mais que haviam recebido ao menos uma dose da vacina contra a covid-19 (n = 4.002). O recrutamento ocorreu presencialmente após a vacinação, mediante convite por entrevistadores treinados, com explicação dos objetivos e obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A participação foi voluntária e dúvidas foram esclarecidas antes da coleta.

Os dados foram coletados presencialmente entre setembro de 2021 e dezembro de 2022, por meio de questionário estruturado com 66 itens sobre perfil sociodemográfico, condições de saúde (como tabagismo, uso de álcool, atividade física, hipertensão e diabetes) e comportamentos preventivos (higiene das mãos, uso de máscara, isolamento e distanciamento social).

As entrevistas foram realizadas por profissionais de saúde, treinados previamente, em Unidades Básicas, centros comunitários ou domicílios. As respostas foram registradas em tablets, por meio de formulários eletrônicos com verificação automática de consistência, o que reduziu erros e possibilitou validação em tempo real.

As variáveis explicativas foram: sexo, faixa etária, escolaridade, estado civil, trabalho, condições de moradia, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividade física e presença de morbidades clínicas.

As variáveis de desfecho corresponderam à adoção de comportamentos de proteção para minimizar a propagação da covid-19. Considerou-se como comportamento ideal não sair de casa durante os momentos de isolamento, manter distanciamento, usar máscara e lavar as mãos frequentemente. Para tal, foram avaliados: saída do domicílio, incluindo frequência e motivos (resposta para a pergunta “Como foi sua rotina durante o isolamento social?”); distanciamento social (resposta para a pergunta “Você conseguiu fazer distanciamento social?”); utilização de máscaras (respostas para as perguntas “Quando sai de casa utiliza máscara?” e “Depois que tomou vacina continua usando máscara ao sair de casa?”); e higienização das mãos (resposta para a pergunta “Com que frequência lava as mãos com água e sabão durante o dia?”).

Para verificar a associação entre a adoção de comportamentos de proteção contra a covid-19 (não sair de casa, manter distanciamento, lavar as mãos frequentemente e usar máscara, mesmo após ser vacinado) e aspectos sociodemográficos, condições de saúde e conhecimentos sobre fatores de risco para a infecção pelo SARS-CoV-2, as respostas para as seguintes perguntas foram dicotomizadas: “Como foi sua rotina durante o isolamento social?” (“Saiu de casa” e “Não saiu de casa”); “Você conseguiu fazer distanciamento social?” (“Bastante” e “Mais ou menos/pouco”); “Com que frequência lava as mãos com água e sabão durante o dia?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”); “Quando sai de casa utiliza máscara?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”); e “Depois que tomou vacina continua usando máscara ao sair de casa?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”).

As variáveis categóricas foram descritas por frequências absolutas e relativas, e suas associações testadas pelo qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher. A normalidade das variáveis contínuas foi avaliada pelo teste de Shapiro–Wilk e inspeção gráfica. Variáveis com distribuição normal foram expressas como média e desvio padrão; as não normais, por mediana e intervalo interquartil. Diferenças entre grupos com distribuição assimétrica foram analisadas pelo teste de Mann–Whitney. Modelos multivariados de regressão de Poisson com variância robusta estimaram razões de prevalência (RP) e IC95%. Variáveis com p < 0,05 nas análises bivariadas foram incluídas, com seleção retroativa (backward) até permanência de p < 0,10. Utilizou-se o software Stata SE 15.0 (Stata Corp LP, College Station, TX, USA). Dados oficiais de casos e óbitos por covid-19 (março de 2020 a dezembro de 2022) foram consultados para contextualização.

O estudo adotou o Modelo de Crenças em Saúde (Health Belief Model)(7) e a teoria da percepção de risco como referenciais teóricos, considerando percepção de suscetibilidade, gravidade, benefícios, barreiras e estímulos à ação.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética do Centro Universitário Christus (parecer nº 4.997.175). Todos os participantes assinaram termo de consentimento.

RESULTADOS

Características dos participantes

Participaram do estudo 2.830 indivíduos vacinados. A maioria era do sexo feminino (53,9%), autodeclarada parda (94,1%), com ensino médio completo (42,1%), solteira (56,2%) e sem plano de saúde privado (98%). A mediana de idade foi de 39 anos (intervalo interquartil – IIQ: 24), com 51,3% entre 18 e 39 anos, 33,5% entre 40 e 59 anos e 15,2% com 60 anos ou mais (Tabela 1).

Tabela 1. Características sociodemográficas e impacto da pandemia na renda e no trabalho dos participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022.

Variáveis

N

%

Sexo

Feminino

1.502

53,9

Masculino

1.286

46,1

Cor

Branca

96

3,4

Parda

2.646

94,1

Preta

49

1,7

Outros

21

0,7

Escolaridade (anos de estudo)

≤8

1.323

46,8

9-11

1.190

42,1

≥12

314

11,1

Estado civil

Casado/ União estável

1.066

37,8

Divorciado

67

2,4

Solteiro

1.585

56,2

Viúvo

103

3,7

Possui plano saúde

Não

2.723

98,0

Sim

55

2,0

Principal situação de trabalho antes do início da pandemia

 Dono de empresa

9

0,3

 Empregado com carteira de trabalho

527

18,8

 Empregado sem carteira de trabalho

611

21,8

 Não trabalhava por ser aposentado/ dona de casa/ estudante

885

31,6

 Procurou, mas não encontrou trabalho

45

1,6

 Servidor público

304

10,8

 Trabalhava por conta própria/ Trabalhava sem remuneração

427

15,2

Como a pandemia afetou a renda da família

 Aumentou

375

13.3

 Diminuiu muito

134

4.7

 Diminuiu um pouco

264

9.3

 Ficou sem rendimento

23

0.8

 Foi mantida igual

2.030

71.8

Como a pandemia afetou o trabalho

 Continuou trabalhando

1.158

41,6

 Continuou trabalhando, mas em casa (home office)

131

4,7

 Não trabalhava antes e continuou sem trabalhar

1.091

39,1

 Ficou sem trabalhar

305

10,9

 Perdeu o emprego

33

1,2

 Teve férias remuneradas

3

0,1

 Começou a trabalhar após a pandemia

66

2,4

Alguém do domicílio recebeu algum benefício financeiro do governo relacionado à pandemia

 Não

1.442

51,3

 Sim (Governo estadual)

16

0,6

 Sim (Governo federal)

1.351

48,1

Foi afastado de atividades presenciais durante a pandemia

 Não

1.687

62,0

 Sim

1.036

38,0

Condições de trabalho e renda

A renda familiar permaneceu inalterada para 71,8% dos participantes. Quase metade (48,7%) relatou que alguém no domicílio recebia benefício financeiro governamental. A maior parte dos entrevistados (62%) manteve o trabalho presencial, e 85,4% não referiram alteração trabalhista durante a pandemia (Tabela 1).

Condições de moradia e saúde

A mediana de moradores por domicílio foi 3 pessoas (IIQ: 1), variando entre 1 e 14 indivíduos. A maioria residia em casas (98,4%), com coleta regular de lixo (96,5%), fornecimento de água encanada (93,5%), acesso à internet (89,3%) e esgotamento sanitário (67,9%). A mediana de cômodos por residência foi 5 (IIQ: 2), variando entre 1 e 18 (Tabela 2). O consumo de bebidas alcoólicas foi referido por 21,5%, 18,8% declararam fazer alguma atividade física regular e 7,2% eram fumantes. As principais condições crônicas relatadas foram hipertensão (25,8%), diabetes (14,1%), cardiopatia (4,5%), câncer (3,8%), asma ou bronquite (3,6%), depressão (3,5%) e doença renal crônica (2,6%).  

Tabela 2. Comportamentos preventivos adotados durante a pandemia de COVID-19 e percepções relacionadas à saúde entre os participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022.

Variáveis

N

%

Frequência que lavava as mãos com água e sabão durante o dia (n = 2.799)

Às vezes

888

31,7

Frequentemente

1.846

66,0

Nunca

65

2,3

Usa máscara ao sair de casa (n = 2.794)

Às vezes

904

32,3

Frequentemente

1.803

64,5

Nunca

87

3,1

Continuou usando máscara ao sair de casa depois de vacinado (n = 2.795)

Às vezes

1.005

36

Frequentemente

1.690

60,5

Nunca

100

3,6

Acha que a pandemia provocou mudança no estado de saúde (n = 2.695)

Ficou igual

2.368

87,9

Melhorou

79

2,9

Piorou muito

32

1,2

Piorou um pouco

216

8,0

Como foi a rotina durante o isolamento social (n = 2.704)

Ficou em casa o tempo todo

743

27,5

Não respondeu

3

0,1

Não sabe

4

0,1

Saiu apenas para coisas essenciais como comprar comida e farmácia

1.392

51,5

Saiu de vez em quando para comprar comida e esticar as pernas

115

4,3

Saiu todos os dias o dia todo para trabalhar ou outra atividade regular

405

15,0

Saiu todos os dias para alguma atividade

42

1,6

Quem tem entrado na casa (n = 2.685)

Alguns parentes próximos

925

34,5

Amigos parentes distantes ou outros

53

2,0

Não respondeu

7

0,3

Não sabe

31

1,2

Só quem mora na casa e mais ninguém

1.669

62,2

Quantas vezes por semana essas pessoas têm entrado na casa (n = 2.024)

Não respondeu

158

7,8

Não sabe

109

5,4

Visitam 1 a 2 vezes por semana

1.546

76,4

Visitam quase todos os dias

211

10,4

Fez distanciamento social (n = 2.706)

Bastante

1.340

49,5

Mais ou menos

1.106

40,9

Muito pouco

156

5,8

Não sabe

2

0,1

Pouco

69

2,5

Praticamente isolado do mundo

33

1,2

Frequência que se sentiu isolado dos seus familiares ou amigos (n = 2.707)

Muitas vezes

290

10,7

Nunca

1.345

49,7

Poucas vezes

1.018

37,6

Sempre

54

2,0

Frequência que se sentiu triste ou deprimido (n = 2.722)

Muitas vezes

236

8,7

Nunca

1.368

50,3

Poucas vezes

1.084

39,8

Sempre

34

1,2

Frequência que se sentiu ansioso ou nervoso (n = 2.717)

Muitas vezes

263

9,7

Nunca

1.282

47,2

Poucas vezes

1.128

41,5

Sempre

44

1,6

Comportamentos durante a pandemia e conhecimentos sobre medidas preventivas

A lavagem frequente das mãos com água e sabão foi relatada por 65,3% dos participantes. Entre os que saíam de casa, 63,8% afirmaram utilizar máscaras, e 59,7% mantiveram esse hábito mesmo após a vacinação. Durante os períodos de isolamento social, 27,5% relataram permanecer em casa, 51,5% saíam apenas para atividades essenciais e 15,0% continuaram com a rotina habitual (Tabela 2).

As medidas preventivas mais frequentemente citadas foram: lavar as mãos (86,0%), uso de máscara ao sair de casa (67,8%), evitar tocar olhos, nariz e boca (63,3%) e uso de álcool em gel (62,4%).

Quanto às medidas consideradas ineficazes, 99,6% dos participantes rejeitaram o uso de hidroxicloroquina; 64,8% não consideraram o distanciamento social eficaz; e 60,9% não reconheceram o isolamento como essencial.

Análise dos fatores associados

Sexo, faixa etária, escolaridade e estado civil apresentaram associação estatisticamente significativa com os comportamentos preventivos. As mulheres mostraram maior adesão ao isolamento (65,1%), ao distanciamento (63,1%) e ao uso de máscaras (54,2%). Indivíduos de 18 a 39 anos referiram maior adesão a todas as práticas, incluindo permanecer em casa (43,9%) e manter o distanciamento (45,6%).

A escolaridade influenciou comportamentos específicos: indivíduos com até 8 anos de estudo aderiram mais ao isolamento (43,9%) e ao distanciamento (40,6%), enquanto aqueles com 9 a 11 anos relataram maior frequência de lavagem das mãos (41,5%) e uso de máscara (41,4%).

Pessoas solteiras demonstraram maior adesão ao isolamento (54,3%) e ao distanciamento social (52,3%) (p < 0,001). Participantes com hipertensão e diabetes apresentaram maior adesão aos comportamentos preventivos (p < 0,005) (Tabela 3).

Condições como câncer, depressão e pior autopercepção de saúde também se associaram a maiores taxas de isolamento e distanciamento (p < 0,01) (Tabela 4). Não foram observadas associações significativas entre condições crônicas e o uso contínuo de máscara após a vacinação.

O conhecimento sobre transmissão e prevenção da covid-19, incluindo lavagem das mãos, uso de álcool em gel, evitar tocar o rosto, uso de máscara, distanciamento e isolamento, esteve positivamente associado à adoção de comportamentos protetivos (Tabela 5)

Nos modelos multivariados de regressão de Poisson com variância robusta, observaram-se padrões distintos de associação entre variáveis sociodemográficas, clínicas e os desfechos relacionados aos comportamentos preventivos. Contudo, os padrões não foram inteiramente consistentes entre os diferentes comportamentos, e nenhum modelo explicativo único prevaleceu. Isso reflete a complexidade da adesão comportamental em contextos reais, onde múltiplos fatores inter-relacionados influenciam as decisões individuais.

Tabela 3. Associação entre fatores sociodemográficos e adesão a medidas preventivas contra a covid-19. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022.

Rotina durante o isolamento social (N=2.697)

Fez distanciamento social (N=2.704)

Frequência que lavava as mãos (N=2.799)

Usou máscara ao sair de casa (N=2.794)

Uma vez vacinado, usou máscara ao sair de casa (N=2.795)

 

Não saiu de casa (n=743)

Saiu de casa (n=1.954)

p

Bastante (n=1.373)

Mais ou menos‎/pouco (n=1.331)

p

Frequentemente/ às vezes (n=2.734)

Nunca (n=65)

p

Frequentemente/às vezes‎ (n=2.707)

Nunca (n=87)

p

Frequentemente/às vezes (n=2.695)

Nunca (n=100)

p

Sexo

*

*

0,262

0,010

0,116

Feminino

473 (65,1)

952 (49,4)

847 (63,1)

583 (44,1)

1.454 (54)

29 (46,8)

1.446 (54,2)

34 (40)

1.433 (54)

45 (45,9)

Masculino

254 (34,9)

977 (50,6)

495 (36,9)

739 (55,9)

1.241 (46)

33 (53,2)

1.221 (45,8)

51 (60)

1.222 (46)

53 (54,1)

Faixa etária (anos)

*

*

*

0,007

0,001

18-39

326 (43,9)

1043 (53,4)

626 (45,6)

745 (56)

1.382 (50,5)

47 (72,3)

1.372 (50,7)

56 (64,4)

1.358 (50,4)

68 (68)

40-59

210 (28,3)

697 (35,7)

464 (33,8)

447 (33,6)

925 (33,8)

18 (27,7)

914 (33,8)

27 (31)

916 (34)

27 (27)

≥60

207 (27,9)

214 (11)

283 (20,6)

139 (10,4)

427 (15,6)

0 (0)

421 (15,6)

4 (4,6)

421 (15,6)

5 (5)

Etnia

0,112

0,001

0,575

0,259

0,219

Branca

27 (3,7)

60 (3,1)

63 (4,6)

25 (1,9)

91 (3,3)

3 (4,6)

91 (3,4)

0 (0)

92 (3,4)

0 (0)

Parda

696 (94,4)

1.828 (94,1)

1.262 (92,5)

1267 (95,8)

2.556 (94,1)

62 (95,4)

2.529 (94)

86 (98,9)

2.519 (94,1)

98 (98)

Preta

13 (1,8)

35 (1,8)

27 (2)

22 (1,7)

49 (1,8)

0 (0)

48 (1,8)

1 (1,1)

46 (1,7)

2 (2)

Outros

1 (0,1)

20 (1)

13 (1)

8 (0,6)

21 (0,8)

0 (0)

21 (0,8)

0 (0)

21 (0,8)

0 (0)

Escolaridade (anos de estudo)

*

*

0,033

0,014

0,021

≤8

413 (55,8)

862 (44,2)

682 (49,8)

595 (44,8)

1.290 (47,2)

23 (35,4)

1.281 (47,3)

29 (33,3)

1.274 (47,3)

39 (39)

9-11

265 (35,8)

847 (43,4)

523 (38,1)

594 (44,7)

1.132 (41,5)

39 (60)

1.118 (41,3)

52 (59,8)

1.114 (41,4)

56 (56)

≥12

63 (8,5)

244 (12,5)

166 (12,1)

141 (10,6)

309 (11,3)

3 (4,6)

305 (11,3)

6 (6,9)

304 (11,3)

5 (5)

Estado civil

*

*

0,14

0,741

0,656

Casado‎/União estável

258 (35)

751 (38,5)

537 (39,3)

476 (35,9)

0 (0)

0 (0)

1.019 (37,8)

28 (32,2)

1.012 (37,7)

35 (35,4)

Divorciado

22 (3)

41 (2,1)

37 (2,7)

26 (2,0)

66 (3,9)

0 (0)

64 (2,4)

2 (2,3)

66 (2,5)

1 (1,0)

Viúvo

57 (7,7)

45 (2,3)

79 (5,8)

23 (1,7)

102 (6)

0 (0)

99 (3,7)

3 (3,4)

98 (3,6)

3 (3,0)

Solteiro

401 (54,3)

1.113 (57,1)

715 (52,3)

802 (60,4)

1.536 (90,1)

36 (100)

1.516 (56,2)

54 (62,1)

1.511 (56,2)

60 (60,6)

Impacto da pandemia no trabalho

A

368 (41,6)

477 (53,9)

*

566 (64)

281 (31,8)

*

864 (97,6)

10 (1,1)

*

858 (96,9)

16 (1,8)

*

848 (95,8)

25 (2,8)

0,007

B

24 (3,4)

102 (5,2)

0,045

70 (5,2)

56 (4,2)

0,23

129 (4,8)

0 (0)

0,073

129 (4,8)

2 (2,4)

0,436

129 (4,9)

0 (0)

0,014

C

69 (9,7)

223 (11,5)

0,198

185 (13,8)

106 (8)

*

301 (11,2)

2 (3,1)

0,042

295 (11,1)

8 (9,4)

0,632

295 (11,1)

9 (9,2)

0,549

D

438 (61,6)

599 (30,8)

*

654 (48,8)

386 (29,2)

*

1.060 (39,4)

19 (29,7)

0,117

1.052 (39,5)

24 (28,2)

0,037

1.046 (39,4)

31 (31,6)

0,121

Legenda: *p-valor <0,001; A. Não trabalhava por ser aposentado/ dona de casa/ estudante; B. Continuou trabalhando em casa; C. Ficou sem trabalhar; D. Não trabalhava antes e continuou sem trabalhar.

Tabela 4. Associação entre condições clínicas e adoção de comportamentos preventivos contra a covid-19. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022.

 

Como foi sua rotina durante o isolamento social

(N=2.697)

Fez distanciamento social

(N=2.704)

Com que frequência lava as mãos (N=2.799)

Usa máscara ao sair de casa

(N=2.794)

 

Não saiu (n=743)

Saiu (n=1954)

p

Bastante isolado (n=1373)

Mais ou menos‎/pouco isolado (n=1331)

p

As vezes‎/frequentemente (n=2734)

Nunca (n=65)

p

Frequentemente/às vezes (n=2707)

Nunca (n=87)

p

Uso de álcool

89 (12,5)

481 (24,8)

*

221 (16,5)

350 (26,6)

*

572 (21,8)

5 (8,2)

0,01

563 (21,7)

15 (17,6)

0,368

Já fumou

105 (14,7)

281 (14,6)

0,947

203 (15,3)

186 (14,1)

0,407

399 (15)

1 (1,6)

0,003

388 (14,7)

10 (11,5)

0,398

Pratica atividade física

121 (16,9)

376 (19,4)

0,136

279 (20,8)

220 (16,7)

0,007

505 (19,1)

3 (4,7)

0,003

501 (19,2)

10 (11,6)

0,079

Diabetes

0,003

*

0,184

*

Não

597 (80,6)

1657 (85,4)

1109 (81,2)

1153 (87,2)

2213 (83,9)

58 (92,1)

2191 (83,9)

78 (89,7)

Sim

132 (17,8)

247 (12,7)

233 (17,1)

144 (10,9)

374 (14,2)

5 (7,9)

371 (14,2)

8 (9,2)

Não sabe

12 (1,6)

36 (1,9)

23 (1,7)

26 (2)

50 (1,9)

0 (0)

48 (1,8)

1 (1,1)

Hipertensão

*

*

0,016

0,019

Não

474 (64)

1496 (76,6)

918 (67)

1056 (79,5)

1928 (72,8)

56 (88,9)

1909 (72,8)

75 (86,2)

Sim

259 (35)

437 (22,4)

440 (32,1)

259 (19,5)

694 (26,2)

7 (11,1)

687 (26,2)

12 (13,8)

Não sabe

8 (1,1)

19 (1)

13 (0,9)

14 (1,1)

27 (1)

0 (0)

26 (1)

0 (0)

Câncer

0,005

0,016

0,634

0,163

Não

690 (92,9)

1863 (95,6)

1284 (93,7)

1276 (96,1)

2507 (94,9)

61 (96,8)

2478 (94,7)

86 (98,9)

Sim

43 (5,8)

60 (3,1)

66 (4,8)

37 (2,8)

102 (3,9)

2 (3,2)

104 (4)

0 (0)

Não sabe

10 (1,3)

25 (1,3)

20 (1,5)

15 (1,1)

34 (1,3)

0 (0)

34 (1,3)

1 (1,1)

Depressão

0,001

*

0,181

0,416

Não

694 (93,5)

1862 (95,5)

1277 (93,1)

1286 (97)

2507 (94,9)

63 (100)

2482 (94,9)

83 (95,4)

Sim

26 (3,5)

68 (3,5)

65 (4,7)

29 (2,2)

94 (3,6)

0 (0)

90 (3,4)

4 (4,6)

Não sabe

22 (3)

19 (1)

30 (2,2)

11 (0,8)

42 (1,6)

0 (0)

43 (1,6)

0 (0)

Como você avalia sua saúde

*

*

0,111

0,813

Péssima

5 (0,7)

5 (0,3)

7 (0,5)

3 (0,2)

10 (0,4)

0 (0)

9 (0,3)

0 (0)

Ruim

15 (2)

11 (0,6)

21 (1,5)

5 (0,4)

26 (1)

0 (0)

25 (1)

1 (1,2)

Moderada

141 (19)

251 (12,9)

267 (19,5)

126 (9,5)

391 (14,8)

2 (3,3)

385 (14,7)

9 (10,5)

Boa

537 (72,5)

1516 (77,8)

949 (69,3)

1109 (83,5)

2005 (75,9)

53 (86,9)

1985 (76)

69 (80,2)

Excelente

43 (5,8)

166 (8,5)

125 (9,1)

85 (6,4)

208 (7,9)

6 (9,8)

208 (8)

7 (8,1)

Acha que a pandemia provocou mudança no estado de saúde

0,006

*

0,036

0,16

Piorou muito

10 (1,4)

19 (1)

24 (1,8)

6 (0,5)

32 (1,2)

0 (0)

31 (1,2)

0 (0)

Piorou pouco

79 (10,7)

136 (7)

151 (11,1)

63 (4,8)

216 (8,2)

0 (0)

214 (8,3)

2 (2,3)

Ficou igual

632 (85,8)

1719 (88,7)

1139 (83,8)

1219 (92,2)

2295 (87,5)

60 (100)

2273 (87,7)

81 (94,2)

Melhorou

16 (2,2)

63 (3,3)

 

45 (3,3)

34 (2,6)

 

79 (3)

0 (0)

 

75 (2,9)

3 (3,5)

 

Legenda: *p-valor <0,001.

Tabela 5. Associação de conhecimentos sobre covid-19 e comportamentos de prevenção contra a covid-19 entre participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022.

 

Como foi sua rotina durante o isolamento social (N=2.697)

Fez distanciamento social (N=2.704)

Com que frequência lava as mãos (N=2.799)

Usa máscara ao sair de casa (N=2.794)

Uma vez vacinado, usa máscara ao sair de casa (N=2.795)

 

Não saiu (n=743)

Saiu (n=1954)

p

Bastante (n=1373)

Mais ou menos‎/

pouco (n=1331)

p

Frequentemente/

às vezes (n=2734)

Nunca (n=65)

p

Frequentemente/

às vezes (n=2707)

Nunca (n=87)

p

Frequentemente/

às vezes (n=2695)

Nunca (n=100)

p

O que você acha que pode proteger contra a covid-19?

A

644 (86,7)

1781 (91,1)

0,001

1195 (87)

1234 (92,7)

*

2368 (86,6)

53 (81,5)

0,237

2338 (86,4)

80 (92)

0,133

2331 (86,5)

93 (93)

0,06

B

453 (61)

1339 (68,5)

*

866 (63,1)

930 (69,9)

*

1787 (65,4)

8 (12,3)

*

1766 (65,2)

23 (26,4)

*

1761 (65,3)

33 (33)

*

C

549 (73,9)

1362 (69,7)

0,033

1107 (80,6)

807 (60,6)

*

1854 (67,8)

52 (80)

0,037

1832 (67,7)

77 (88,5)

*

1826 (67,8)

83 (83)

0,001

D

331 (44,5)

770 (39,4)

0,015

712 (51,9)

390 (29,3)

*

1098 (40,2)

3 (4,6)

*

1078 (39,8)

22 (25,3)

0,006

1073 (39,8)

29 (29)

0,03

E

2 (0,3)

10 (0,5)

0,53

6 (0,4)

7 (0,5)

0,738

13 (0,5)

0 (0)

1

10 (0,4)

3 (3,4)

0,007

11 (0,4)

2 (2)

0,076

F

517 (69,6)

1241 (63,5)

0,003

1069 (77,9)

693 (52,1)

*

1707 (62,4)

48 (73,8)

0,06

1681 (62,1)

73 (83,9)

*

1675 (62,2)

83 (83)

*

G

300 (40,4)

692 (35,4)

0,017

676 (49,2)

318 (23,9)

*

990 (36,2)

2 (3,1)

*

970 (35,8)

19 (21,8)

0,007

968 (35,9)

24 (24)

0,014

H

2 (0,3)

9 (0,5)

0,738

3 (0,2)

8 (0,6)

0,118

11 (0,4)

0 (0)

1

10 (0,4)

1 (1,1)

0,294

10 (0,4)

1 (1)

0,331

Legenda: * p-valor <0,001. A. Lavar as mãos; B. Não colocar as mãos na boca nariz ou olhos; C. Usar máscara sempre que sair de casa; D. Ficar em casa e evitar contato com outras pessoas; E. Ser jovem; F. Limpar as mãos com álcool gel; G. Quando tiver fora de casa não ficar perto de outras pessoas; H. Tomar cloroquina.

DISCUSSÃO

Este estudo analisou a manutenção de comportamentos preventivos relacionados à covid-19 entre adultos totalmente vacinados no município de Guaramiranga, localizado na região serrana do estado do Ceará. Esse foi o primeiro município totalmente vacinado a partir de uma decisão local de tê-lo como piloto no Ceará. Os dados transversais fornecem evidências relevantes sobre a persistência de práticas protetivas, como higienização das mãos, uso de máscaras e distanciamento social, mesmo após a ampla cobertura vacinal. A adoção dessas práticas esteve associada a características sociodemográficas, condições de saúde e conhecimento sobre transmissão da doença, reforçando a influência da percepção de risco e da alfabetização em saúde sobre o comportamento individual.

Mulheres e adultos mais jovens demonstraram maior engajamento com os comportamentos preventivos, o que está em consonância com achados de alguns estudos nacionais e internacionais(4,5,7). A menor adesão entre os homens reforça a literatura sobre diferenças de percepção de risco e comportamento de saúde com base em gênero. Embora os idosos apresentem maior risco de evolução grave da covid-19, dinâmicas sociais e familiares podem dificultar seu isolamento completo, como observado neste estudo, em que domicílios com pessoas idosas frequentemente recebiam visitas.

A escolaridade apresentou padrão duplo de associação: indivíduos com menor nível educacional relataram mais isolamento e distanciamento, possivelmente devido a restrições ocupacionais, enquanto aqueles com maior escolaridade demonstraram maior adesão ao uso de máscaras e à higiene das mãos, um padrão também observado em outras populações(8–10).

Condições de moradia e situação ocupacional não se mostraram determinantes relevantes no presente estudo, possivelmente devido às particularidades de Guaramiranga, município de pequeno porte, com relativa estabilidade socioeconômica e beneficiado por auxílios financeiros governamentais durante a pandemia. Esse resultado difere do observado em grandes centros urbanos, onde a precariedade habitacional, o trabalho informal e a insegurança financeira foram associados à menor adesão às medidas de proteção(8,11). Por outro lado, estudo conduzido com idosos em Belo Horizonte revelou maior adesão a comportamentos preventivos entre indivíduos com menor renda, sugerindo que, em determinados contextos, a percepção de vulnerabilidade pode impulsionar práticas de autoproteção, mesmo diante de limitações socioeconômicas(12).

No presente estudo, condições como hipertensão arterial, diabetes mellitus e multimorbidade foram associadas a maior adesão às práticas preventivas, em consonância com achados no Brasil(13,14) e em outros países(10,15,16). Apesar dos amplos relatos de sofrimento psíquico durante a pandemia(17,18), poucos participantes referiram problemas de saúde mental, possivelmente devido a fatores protetores como coesão social e aspectos do modo de vida rural, uma hipótese que merece investigação futura.

A prática de atividade física não se associou aos comportamentos preventivos, o que pode refletir uma percepção reduzida de vulnerabilidade entre indivíduos fisicamente ativos(19). Embora Syukkur e Sipollo (2022) não tenham avaliado diretamente a atividade física, seus achados corroboram que a percepção de risco e o estado de saúde são mais preditivos dos comportamentos protetivos do que variáveis sociodemográficas(16).

O conhecimento sobre a covid-19 e a percepção de risco foram centrais para a manutenção dos comportamentos preventivos. Indivíduos com maior compreensão sobre medidas eficazes relataram mais adesão. No entanto, a subvalorização do distanciamento e do isolamento por parte de alguns participantes levanta preocupações sobre possíveis lacunas na comunicação pública e disseminação de informações equivocadas, o que também foi relatado em outras regiões do Brasil(20).

O Modelo de Crenças em Saúde oferece um referencial teórico adequado para interpretar esses achados7). Participantes que se percebiam como suscetíveis, seja por idade, sexo ou comorbidades, demonstraram maior adesão. A percepção de benefícios pessoais e coletivos também favoreceu comportamentos protetivos, enquanto barreiras como desinformação e redução da percepção de risco após a vacinação funcionaram como obstáculos.

Comparações internacionais reforçam essas interpretações. Na Tailândia, Piboon et al.(21) observaram que adultos mais velhos mantiveram medidas preventivas devido à percepção de risco e à comunicação eficaz. Curiosamente, no presente estudo, participantes com baixa escolaridade relataram mais isolamento e distanciamento, o que pode estar mais relacionado a contextos ocupacionais ou restrições sociais do que à maior percepção de risco, diferindo dos achados de Papageorge et al.(9), que atribuíram menor adesão a limitações estruturais. Isso indica que estratégias educativas adaptadas ao contexto local podem mitigar desvantagens estruturais e promover maior equidade em saúde.

A adesão ao uso de máscaras em Guaramiranga (63,8%) foi inferior à observada em outros contextos brasileiros, onde estudos identificaram alta frequência de uso (95,5 a 97,1%), sobretudo entre mulheres e pessoas mais velhas. Esses achados reforçam o papel das características sociodemográficas e da percepção de risco na adoção de comportamentos preventivos, mesmo em fases anteriores à vacinação em massa(22,23). Resultados semelhantes foram encontrados em áreas rurais fora do Brasil, como em Uganda, onde 70,8% dos residentes relataram uso contínuo de máscaras durante a pandemia(24). Tais evidências sugerem que fatores como o tamanho populacional reduzido, a coesão comunitária e o acesso local à informação em saúde contribuem para a sustentabilidade das medidas de proteção.

A confiança social também parece exercer papel relevante. Estudo nos EUA identificou a percepção de risco pessoal como principal preditor de comportamentos preventivos(25). Em Guaramiranga, vínculos comunitários e fontes locais confiáveis de informação podem ter mitigado a fadiga comportamental e sustentado as práticas protetivas.

Embora estudos semelhantes tenham sido realizados em países de alta renda no início da pandemia, este trabalho traz contribuições originais ao evidenciar a persistência de comportamentos preventivos após a vacinação em um município pequeno, rural e turístico. Essa evidência contextualizada é valiosa para estratégias de saúde pública em países de baixa e média renda, onde fatores estruturais e culturais influenciam a resiliência comportamental. Os achados sustentam que práticas preventivas podem se manter em comunidades coesas e bem informadas, mesmo sem imposição, destacando o papel da confiança e do capital social nas políticas de longo prazo.

Entre as limitações, destaca-se o delineamento transversal, que impede inferências causais, e o uso de dados autorreferidos, sujeitos a viés de memória e desejabilidade social. A generalização também pode ser restrita pelas particularidades locais, como alta cobertura vacinal e mobilização comunitária. Por outro lado, o estudo apresenta pontos fortes: ampla amostra representativa, coleta durante a pandemia e interpretação baseada em modelo teórico estruturado. Apesar das limitações, fornece subsídios relevantes sobre a adesão sustentada a comportamentos protetivos após a vacinação, sugerindo que informação qualificada, coesão social e confiança institucional são determinantes para sua continuidade. Pesquisas futuras devem investigar a evolução longitudinal desses comportamentos e o impacto de estratégias comunicacionais em contextos semelhantes.

CONCLUSÃO

Este estudo investigou a adesão a comportamentos preventivos frente à covid-19 entre adultos vacinados em Guaramiranga, Brasil, e identificou associações relevantes com idade, sexo, escolaridade, comorbidades e percepção de risco. Apesar da alta cobertura vacinal, a maioria dos participantes continuou adotando a higienização das mãos e o uso de máscaras, enquanto o distanciamento e o isolamento foram praticados de forma menos consistente.

Esses achados ressaltam o papel do letramento em saúde e do contexto sociocultural local na sustentação de comportamentos protetivos, mesmo após a vacinação. Os resultados podem subsidiar futuras estratégias de saúde pública voltadas à melhoria da adesão às medidas preventivas, especialmente em municípios de pequeno porte com vocação turística. Adicionalmente, este estudo enfatiza o valor da vigilância comportamental nas fases pós-vacinação e a importância de dados localizados para orientar intervenções direcionadas e fortalecer a resiliência comunitária diante de futuras emergências sanitárias.

REFERÊNCIAS

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  3. Lemos DRQ, D’Angelo SM, Farias LABG, Almeida MM, Gomes RG, Pinto GAC, et al. Health system collapse 45 days after the detection of COVID-19 in Ceará, Northeast Brazil: a preliminary analysis. Rev Soc Bras Med Trop. 2020;53:e20200354. https://doi.org/10.1590/0037-8682-0354-2020
  4. Lima DLF, Dias AA, Rabelo RS, Cruz IDR, Costa SC, Nigri FMN, et al. COVID-19 no Estado do Ceará, Brasil: comportamentos e crenças na chegada da pandemia. Cien Saude Colet. 2020;25:1575–86. https://doi.org/10.1590/1413-81232020255.07192020
  5. Ferreira LB, Lasmar MF, Ramos DF. Mudanças comportamentais da população da cidade de Rio Grande (RS) frente à pandemia. Rev Soc Desenv. 2021;10:e29010212413. https://doi.org/10.33448/rsd-v10i2.12413
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AGRADECIMENTOS

Gostaríamos de agradecer às profissionais Debora Bezerra Silva e Roberto Wagner Júnior Freire de Freitas pelo apoio durante a investigação dos casos e validação dos dados, e a Sharmênia de Araújo Soares Nuto pela colaboração na elaboração dos questionários e revisão dos dados.

APOIO FINANCEIRO

A presente pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), concedida a Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti (Processo 310579/2022-8 e Processo 405119/2023-2). Os financiadores não influenciaram na publicação do manuscrito.

DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES

Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.

Lourrany Borges Costa
Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).
Endereço: Rua Prof. Costa Mendes, 1608 – Rodolfo Teófilo, Fortaleza-CE – CEP: 60430-140
E-mail: lourranybc@unifor.br
Telefone: +55 (85) 99930-8846
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6334-8624

Antônia Luciana Souza Bekman
Especialista em Saúde Pública. Atua na Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Endereço: Rua Joaquim Alves Nogueira, 409 – Centro, Guaramiranga-CE – CEP: 62766-000
E-mail: luciana.saude@yahoo.com.br

Telefone: +55 85 99714-1374
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6861-183X

Silvana Soares de Souza
Administradora. Atua na Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Endereço: Rua Joaquim Alves Nogueira, 409 – Centro, Guaramiranga-CE – CEP: 62766-000
E-mail: silvanacarminha@yahoo.com.br

Telefone: +55 85 98527‑9990‬
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9603-9187‬‬‬‬

Francisca Kalline de Almeida Barreto
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Endereço: Rua João Adolfo Gurgel, 133 – Cocó, Fortaleza-CE – CEP: 60192-330
E-mail: pesquisamedicina02@unichristus.edu.br

Telefone: +55 88 99656-9324
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9767-7154

Ana Carolina Barjud Marques Máximo
Mestre em Gestão em Saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisadora do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará (LACEN).
Endereço: Av. Barão de Studart, 2405 – Dionísio Torres, Fortaleza-CE – CEP: 60120-002
E-mail: acbarjud@gmail.com

Telefone: +55 (85) 3101-1491
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9927-4631

Fernanda Kézia Sousa Silva
Especialista em Hematologia Clínica e Banco de Sangue pelo Centro Universitário Christus (Unichristus).
Endereço: Rua João Adolfo Gurgel, 133 – Cocó, Fortaleza-CE – CEP: 60192-330
E-mail: fernanda.kezia15@gmail.com

Telefone: +55 85 99955‑2245‬
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3485-1079‬‬‬‬

Magda Moura de Almeida
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Endereço: Rua Prof. Costa Mendes, 1608 – Rodolfo Teófilo, Fortaleza-CE – CEP: 60430-140
E-mail: magda.almeida@ufc.br

Telefone: +55 85 98193-3254
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4806-2345

Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti
Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Endereço: Rua Prof. Costa Mendes, 1608 – Rodolfo Teófilo, Fortaleza-CE – CEP: 60430-140
E-mail: luciano.pamplona@esp.ce.gov.br

Telefone: +55 85 99987-8969
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3440-1182