MANUFATURA DIGITAL DE PRÓTESES AURICULARES: UMA REVISÃO DE ESCOPO
DIGITAL MANUFACTURING OF EAR PROSTHESES: A SCOPE REVIEW
FABRICACIÓN DIGITAL DE PRÓTESIS AURICULARES: UNA REVISIÓN DE ALCANCE
Tipo de artigo: Revisão de Escopo
Bárbara Olivetti Artioli
Mestre em Engenharia Biomédica - Universidade Federal do ABC.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0859-3563
Maycon Crispim de Oliveira Carvalho
Mestre em Engenharia Biomédica - Universidade Anhembi Morumbi.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9282-2068
Maria Elizete Kunkel*
Doutora em Biomecânica - Ulm University.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1711-9289
RESUMO
O artigo apresenta uma revisão de escopo das metodologias, tecnologias e resultados associados ao uso da manufatura digital na produção de próteses auriculares, destacando seu impacto transformador na reabilitação auditiva, bem como os desafios atuais e as perspectivas para o desenvolvimento e a disseminação dessa tecnologia. Para isso, foi conduzida uma revisão de escopo com 44 artigos. Os resultados demonstraram a transição para fluxos digitais de trabalho, com o método direto sendo empregado em 55% dos estudos. Essa abordagem tem permitido a criação de próteses mais precisas, eficientes e de baixo custo, resultando em maior satisfação do paciente. A transição para a produção digital de próteses auriculares é um avanço promissor que tem o potencial de superar os desafios da fabricação convencional. A evolução das tecnologias de escaneamento, impressão 3D, softwares de código aberto e o uso de novos materiais tornarão os processos mais acessíveis e eficientes.
DESCRITORES: Prótese Auricular; Manufatura Aditiva; Tecnologias Digitais; Reabilitação.
ABSTRACT
This article presents a review of the scope of methodologies, technologies and results associated with the use of digital manufacturing in the production of ear prostheses, highlighting its transformative impact on auditory rehabilitation, as well as the current challenges and perspectives for the development and dissemination of this technology. For this, a scope review with 44 articles was conducted. The results demonstrated the transition to digital workflows, with the direct method being employed in 55% of the studies. This approach allowed the creation of more precise, efficient and low-cost prostheses, resulting in greater patient satisfaction. The transition to digital ear prosthesis production is a promising breakthrough that has the potential to overcome the challenges of conventional manufacturing. The evolution of scanning and 3D printing, development of open source software and the use of new materials will make processes more accessible and efficient.
DESCRIPTORS: Ear Prosthesis; Additive Manufacturing; Digital Technologies; Rehabilitation.
RESUMEN
Este artículo presenta una revisión del alcance de las metodologías, tecnologías y resultados asociados al uso de la fabricación digital en la producción de prótesis auditivas, destacando su impacto transformador en la rehabilitación auditiva, así como los desafíos actuales y las perspectivas para el desarrollo y la difusión de esta tecnología. Para esto, se llevó a cabo una revisión de alcance con 44 artículos. Los resultados demostraron la transición a flujos de trabajo digitales, con el método directo siendo empleado en el 55% de los estudios. Este enfoque permitió la creación de prótesis más precisas, eficientes y de bajo costo, resultando en una mayor satisfacción del paciente. La transición a la producción digital de prótesis auditivas es un avance prometedor que tiene el potencial para superar los desafíos de la fabricación convencional. La evolución de las tecnologías de escaneo, el desarrollo de software de código abierto y el uso de nuevos materiales harán los procesos más accesibles y eficientes.
DESCRIPTORES: Prótesis Auditiva; Fabricación Aditiva; Tecnologías Digitales; Rehabilitación
INTRODUÇÃO
A aurícula, ou orelha externa, é um elemento crucial para a estética facial e para a definição da fisionomia de um indivíduo. Sua estrutura anatômica reflete características como a idade e o sexo, sendo um componente importante na composição da face(1,2). A compreensão dos padrões estéticos do formato auricular é, portanto, fundamental para uma análise facial bem-sucedida(3). A orelha externa consiste em uma proeminência de pele e cartilagem, e suas principais estruturas anatômicas são o complexo hélice-anti-hélice, a concha, o lóbulo e o trago(4,5).
A orelha humana, uma estrutura fundamental para a estética facial e o design de próteses, é formada por proporções e dimensões anatômicas específicas (Fig. 1). A combinação dessas informações permite replicar com precisão a morfologia natural, garantindo funcionalidade e estética em dispositivos protéticos e adaptados(6).
Fig. 1. Medidas antropométricas médias da orelha humana. (A) Altura auricular (55 mm - 75 mm). (B) Inclinação posterior da orelha em relação ao plano vertical (15° a 20°). (C) Distância da projeção lateral da orelha (10-15 mm para a parte inferior). (D) Ângulo de afastamento da borda externa da hélice em relação à cabeça (aproximadamente 20°). Fonte: Adaptado de Ladani, 2021(6).
A importância da orelha na estética facial é evidente. Uma orelha com tamanho, forma, localização e posicionamento dentro dos padrões de normalidade tende a não ser notada. Contudo, qualquer alteração em sua estrutura causa uma modificação estética significativa(7). Alterações estéticas na face podem gerar impactos psicossociais negativos, como dificuldades em relacionamentos interpessoais e sociais, comprometendo a qualidade de vida dos pacientes(8). Deformidades auriculares podem ser causadas por diversas patologias, desde condições congênitas, como a microtia, até traumas adquiridos, como os resultantes de acidentes automobilísticos, câncer de pele e queimaduras(9,10). Essas deformidades congênitas ou adquiridas, incluindo a ausência parcial ou completa da orelha (anotia/microtia), podem ser tratadas eficazmente por meio de cirurgia de reconstrução auricular ou reabilitação protética. As abordagens oferecem vantagens e desvantagens distintas, dependendo das necessidades específicas e do quadro clínico de cada paciente(11,12).
A reconstrução cirúrgica permite o uso de tecidos autólogos e resulta em uma estrutura definitiva integrada ao corpo, com menor necessidade de manutenção, porém exige múltiplos procedimentos, envolve maior tempo de recuperação e pode gerar cicatrizes significativas devido a remoção do tecido do próprio paciente. A reabilitação protética proporciona um resultado estético imediato, menos invasivo e com maior possibilidade de ajustes personalizados ao longo do tempo, mas apresenta desafios relevantes(13). Entre eles, as dificuldades técnicas na confecção da prótese por métodos convencionais, que pode demandar várias etapas laboratoriais complexas, alto grau de habilidade do profissional e tempo prolongado até a entrega final da prótese. Além disso, as próteses requerem substituições periódicas devido ao desgaste dos materiais, dependem da adesão do paciente ao uso contínuo e podem gerar limitações funcionais e psicológicas relacionadas à percepção de artificialidade, assim como ao estigma social associado ao uso de dispositivos externos(14).
Nos últimos 25 anos, a reabilitação com próteses auriculares passou por uma transformação significativa impulsionada pela integração de tecnologias digitais, como a aquisição de imagens tridimensionais (3D), o Design Assistido por Computador (Computer Aided Design, CAD) e a manufatura aditiva. A reconstrução 3D de imagens detalhadas da orelha do paciente possibilita a criação de modelos digitais capazes de reproduzir com precisão suas características anatômicas individuais. Softwares de CAD podem ser empregados para o refinamento dos modelos, assegurando ajuste anatômico adequado e harmonização estética. A manufatura aditiva potencializa o processo produtivo pois possibilita converter diretamente modelos digitais em próteses estéticas com elevado nível de precisão e realismo. Essa evolução resulta em uma abordagem mais personalizada e eficiente, com benefícios em termos de escalabilidade, tempo de produção e custo-benefício(14).
No entanto, apesar dos avanços e benefícios evidentes, persistem desafios relacionados à padronização dos protocolos digitais, à acessibilidade dessas tecnologias em contextos clínicos e à escassez de estudos comparativos sistematizados. O presente artigo apresenta uma revisão de escopo sobre as metodologias, tecnologias e resultados associados ao uso da manufatura digital na produção de próteses auriculares, destacando seu impacto transformador na reabilitação auditiva, bem como os desafios atuais e as perspectivas para o desenvolvimento e a disseminação dessa tecnologia. A análise busca identificar os desafios que ainda limitam a adoção dessas abordagens por centros protéticos e propor estratégias para facilitar a sua disseminação e aplicação clínica mais ampla.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão de escopo para analisar criticamente a evolução da manufatura digital aplicada às próteses auriculares nos últimos 25 anos, identificando os desafios que ainda restringem sua adoção em centros protéticos e apontando possíveis estratégias para ampliar sua disseminação e aplicação clínica. O estudo foi conduzido em conformidade com o modelo do Joanna Briggs Institute (JBI), conforme o Manual para Revisão de escopo JBI, e a construção do artigo seguiu o check-list PRISMA-SCR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) (15,16) (Fig. 2.) para identificar, selecionar e analisar a literatura sobre a aplicação de tecnologias digitais na produção de próteses auriculares.
3.1 Estratégia de Busca
A busca por artigos científicos foi realizada nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science limitada ao período de 25 anos, de 2000 a 2025, para abranger as implementações mais relevantes das tecnologias digitais no campo. As palavras-chave foram combinadas utilizando operadores booleanos (AND e OR) para maximizar a sensibilidade da busca. Foi utilizado as seguintes combinações de palavras-chave com operadores booleanos: (“orelha externa” OR “aurícula”) AND (“próteses” OR “prótese”) AND (“impressão 3D” OR “manufatura aditiva” OR “fabricação digital”).
3.2. Critérios de Elegibilidade
Os artigos incluídos abordam a aplicação de manufatura aditiva (impressão 3D), CAD ou CAM na fabricação de próteses auriculares externas, contemplando artigos originais, estudos de caso, ensaios clínicos e revisões, publicados no período de 2000 a 2025. Foram excluídos artigos que não tratassem especificamente da produção de próteses externas, aqueles voltados apenas à reconstrução cirúrgica com materiais autólogos ou aloplásticos, bem como relatórios de conferência, cartas ao editor, editoriais e artigos de opinião sem apresentação de dados originais.
3.3. Seleção e Análise dos Dados
Na primeira etapa de seleção dos estudos, os títulos e resumos dos artigos foram triados para identificar os que atendiam aos critérios de inclusão. Na segunda etapa, os textos completos dos artigos pré-selecionados foram lidos para confirmação da elegibilidade. Para cada artigo incluído, foram extraídos dados sobre autores, ano de publicação, tipo de estudo, tecnologia utilizada, materiais, metodologia de fabricação, resultados e conclusões. A síntese dos dados foi realizada de forma descritiva, e a análise crítica das evidências mapeou os desafios para propor estratégias de disseminação.
Fig. 2. Fluxograma PRISMA da seleção de artigos. Fonte: Elaborado pelo autor.
RESULTADOS
A análise da literatura resultou na compilação de 44 artigos únicos, que foram minuciosamente examinados para identificar as metodologias e os processos de fabricação protética auricular utilizando tecnologias de manufatura digital (Tabela 1).
Tabela 1. Metodologias e processos de fabricação protética auricular utilizando manufatura digital.
n° | Autores | Ano | Método | Aquisição da Imagem | Processo* |
1 | Chee Kai, et al.(17) | 2000 | Direto | Scanner 3D (Laser) | SLA / SLS / FFF / LOM |
2 | Gebhardt(18) | 2000 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
3 | Sykes, et al. (19) | 2004 | Indireto | Scanner 3D (Óptico) | MJT |
4 | Jiao, et al. (20) | 2004 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | LOM |
5 | Ciocca e Scotti(21) | 2004 | Indireto | Scanner 3D (Laser) | - |
6 | Chandra, et al. (22) | 2005 | Direto | Scanner 3D (Laser) | MJT |
7 | Mardini et al. (23) | 2005 | Indireto | Scanner 3D (Laser) | SLA |
8 | Bibb, et al. (24) | 2006 | Direto | Scanner 3D (Laser) | MJT |
9 | Subburaj, et al. (25) | 2007 | Indireto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
10 | Karayazgan-Saracoglu et al. (26) | 2009 | Indireto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
11 | Turgut, et al.(27) | 2009 | Indireto | Imagens DICOM (RM e TC) e Reconstrução 3D | SLS |
12 | Karatas, et al.(28) | 2011 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | MJT / SLA |
13 | Liacouras, et al.(29) | 2011 | Direto | Scanner 3D (Laser) | - |
14 | De Crescenzio, et al.(30) | 2011 | Direto | - | - |
15 | Bai, et al.(31) | 2014 | Direto | Scanner 3D (Luz) / Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | SLS |
16 | He et al.(32) | 2014 | Direto | - | FFF |
17 | Watson e Hatamleh.(33) | 2014 | Direto | Scanner 3D (Laser) | - |
18 | Artioli et al.(34) | 2014 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | FFF / SLS |
19 | Nuseir, et al.(35) | 2015 | Indireto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
20 | Moretto, et al.(36) | 2016 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | FFF |
21 | Mohammed, et al.(37) | 2017 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | PJ |
22 | Yadav et al.(38) | 2017 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | SLS |
23 | Jamayet et al.(39) | 2018 | Indireto | Scanner 3D (Laser) | PJ |
24 | Mohammed et al.(40) | 2018 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | PJ |
25 | Sarkar et al.(41) | 2019 | Indireto | Scanner 3D (Luz) | FFF |
26 | Unkovskiy et al.(42) | 2019 | Direto | Scanner 3D (Luz) | SLS / SLA / FFF |
27 | Unsal e Turkyilmaz.(43) | 2019 | Indireto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
28 | Cevik e Kocacikli.(44) | 2020 | Direto | Scanner 3D (Luz Azul) | FFF |
29 | Cruz et al.(45) | 2020 | Direto | Scanner 3D (Luz) | FFF |
30 | Manju et al.(46) | 2021 | Indireto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D) | PJ |
31 | Bi et al.(47) | 2022 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | - |
32 | Singh e Bhandari(48) | 2022 | Indireto | Scanner 3D (Luz azul) | SLA |
33 | Netshilindi et al.(49) | 2023 | Indireto | Scanner 3D (scanner intraoral digital) | SLA |
34 | Sharma et al.(50) | 2023 | Indireto | Scanner 3D (Luz) | FFF / SLA |
35 | Hatamleh et al.(51) | 2024 | Direto | TC, Tomografia de feixe cônico (CBCT) do Scanner de mesa | |
36 | Kasahara et al.(52) | 2024 | Indireto | Scanner (Artec Spider) e (Trios3) | |
37 | Kim et al.(53) | 2024 | Direto | Imagens DICOM (TC) e Reconstrução 3D | FFF |
38 | Capotorto et al.(54) | 2025 | Direto | Scanner 3D (Laser) | FFF |
39 | İnal et al.(55) | 2025 | Indireto | Scanner 3D (Intraoral) | FFF |
40 | İnal et al.(56) | 2025 | Indireto | Aplicativo Smartphone (Polycam) | SLA |
41 | Kaul et al.(57) | 2025 | Indireto | Aplicativo Smartphone (EM3D e Scanner 3D. | - |
42 | Gadallah et al.(58) | 2025 | Indireto | Scanners Intraorais | - |
44 | Nightingale et al.(59) | 2025 | Indireto | Fotogrametria iPhone e Android, e scanner 3D | - |
* FFF: Fabricação com Filamento Fundido; LOM: Fabricação de Objetos Laminados; MJT: Modelagem MultiJet; PJ: Polyjet. RM: Ressonância Magnética; Tomografia Computadorizada; SLA: Estereolitografia; SLS: Sinterização Seletiva a Laser.
A literatura sobre a reabilitação protética auricular por meio da manufatura aditiva pode ser categorizada em dois fluxos de trabalho: O método indireto que utiliza a manufatura aditiva para produzir um modelo físico do molde que será usado na fabricação convencional da prótese, e o método direto que emprega a tecnologia para fabricar a prótese final ou um componente dela, eliminando as etapas de moldagem e escultura manual. O método indireto foi empregado em 20 dos 44 estudos (45%), com foco na redução de etapas manuais, otimização de tempo e busca por soluções mais acessíveis e eficientes para a aquisição da imagem da orelha. O método direto, abordagem dominante, foi explorado em 24 dos 44 artigos (55%) (Tabela 2).
Tabela 2. Aplicação dos métodos direto e indireto de manufatura aditiva para próteses auriculares, detalhando a geração digital da anatomia contralateral sem o uso de moldagem física.
Método Indireto | ||
Ano | Autores | Principais descobertas |
2004 | Sykes, et al.(19) | Comparações estatísticas entre um molde produzido convencionalmente e um por manufatura aditiva. |
Ciocca e Scotti(21) | A aplicação do método indireto só é viável se os sistemas de escaneamento e CAD forem de baixo custo. | |
2005 | Mardini et al. (23) | O método indireto não exigiu submeter o paciente ao scanner, reduzindo erros de aquisição e visitas ao consultório. |
2007 | Subburaj, et al. (25) | Viabilidade de uma metodologia semi automatizada usando CAD e manufatura aditiva para desenvolver uma prótese auricular. |
2009 | Karayazgan-Saracoglu et al. (26) | Viabilidade de uma abordagem semi automatizada empregando CAD e manufatura aditiva. |
Turgut, et al.(27) | Reprodutibilidade em 10 casos de ausência unilateral de orelha. | |
2015 | Nuseir, et al.(35) | O emprego de modelagem 3D e manufatura aditiva simplificou a produção, reduzindo o tempo e aprimorando a textura e estrutura dos resultados. |
2018 | Jamayet et al.(39) | Nova metodologia indireta, eliminando exames de tomografia computadorizada, o que reduziu tempo, custo e melhorou a precisão. |
2019 | Sarkar et al.(41) | Método indireto com tecnologia Polyjet; destacou desafios econômicos, mas reconheceu o potencial de redução de custos. |
Unsal e Turkyilmaz.(43) | Análise da satisfação do paciente em um caso clínico de prótese auricular produzida por manufatura aditiva, relatando satisfação com o resultado. | |
2021 | Manju et al.(46) | O processo garantiu realismo excepcional e adaptação precisa, exigindo três vezes menos horas em comparação ao método convencional. |
2022 | Singh e Bhandari(48) | O método indireto simplificou o processo de produção de próteses auriculares, eliminando etapas demoradas. |
2023 | Netshilindi et al.(49) | O primeiro relato do uso de scanner intraoral 3D em método indireto resultou em maior precisão, eficiência aprimorada e uma abordagem menos invasiva. |
Sharma et al. Sharma et al.(50) | Confirmou que, apesar dos custos iniciais, a abordagem do método indireto reduziu significativamente a necessidade de consultas com os pacientes e o tempo de permanência na cadeira. | |
2024 | Kasahara et al.(52) | Comparou scanners ópticos com a moldagem convencional, concluindo que os métodos digitais causaram menos deformação e são clinicamente aceitáveis. |
2025 | İnal et al.(55) | Apresentou um fluxo de trabalho semidigital para a substituição de próteses retidas por implantes, utilizando um scanner intraoral e impressão 3D para otimizar o processo. |
İnal et al.(56) | Validou uma técnica de baixo custo para aquisição da imagem da orelha usando um aplicativo de smartphone, comprovando que é uma alternativa acessível e confortável. | |
Kaul et al.(57) | Aplicativos de celular são uma alternativa viável aos scanners 3D, com boa acurácia e desempenho superior em tempo e custo. | |
Gadallah et al.(58) | Avaliou diferentes scanners intraorais, demonstrando que a acurácia para a digitalização da orelha variou significativamente entre os modelos. | |
Nightingale et al.(59) | Validou um método de fotogrametria com smartphones que é preciso e repetível, independentemente do modelo do celular, reforçando a flexibilidade e o potencial de democratização da tecnologia. | |
Método Direto | ||
Ano | Autores | Principais descobertas |
2000 | Chee Kai, et al.(17) | Primeiro relatório do método direto, demonstrou a produção de próteses auriculares com quatro tecnologias de Manufatura Aditiva (SLA, SLS, FFF e LOM). |
Gebhardt(18) | Explorou as implicações clínicas do procedimento de fabricação, confirmando sua aplicabilidade. | |
2004 | Jiao, et al. (20) | A integração de Manufatura Aditiva e Design Assistido por Computador (CAD) simplificou o processo de produção, aumentando a eficiência. |
2005 | Chandra, et al. (22) | Demonstrou a transição da fabricação artesanal para a baseada em engenharia, usando scanners a laser de baixo custo e recebendo feedback positivo de médicos e pacientes. |
2006 | Bibb, et al. (24) | Validou a eficiência do método direto para próteses com retenção magnética. |
2011 | Karatas, et al.(28) | Afirmou a capacidade da abordagem de gerar próteses com maior realismo e simetria facial, com tempo de processamento reduzido. |
Liacouras, et al.(29) | Viabilidade do método direto para diminuir etapas iniciais no processo de fabricação convencional. | |
De Crescenzio, et al.(30) | Forneceu resultados que concluíram que o método direto reduziu tempo e custos ao eliminar três etapas de fabricação em comparação ao processo convencional. | |
2014 | Bai, et al.(31) | O método direto aumentou a precisão e a exatidão das próteses auriculares, otimizando os esforços manuais e minimizando o tempo de produção. |
He et al.(32) | Validou uma abordagem econômica e de fácil utilização para a produção de próteses auriculares de silicone. | |
Watson e Hatamleh.(33) | Melhorou a prótese final usando um espectrômetro de cores que reproduziu com precisão os tons de pele digitais e físicos. | |
Artioli et al.(34) | Destacou a capacidade da tecnologia SLS de produzir um molde de qualidade superior para próteses, mas reconheceu disparidades econômicas. | |
2016 | Nuseir, et al.(35) | Software de código aberto para otimizar a reconstrução 3D a partir de imagens de TC da orelha, facilitando a modelagem digital de moldes. |
2017 | Moretto, et al.(36) | O design 3D e a impressão multimaterial demonstraram ter o potencial de criar modelos de próteses auriculares realistas, tornando-os adequados para aplicações clínicas. |
Mohammed, et al.(37) | Ilustrou que a tecnologia de manufatura aditiva por CAD/CAM e Sinterização Seletiva a Laser replicou próteses auriculares precisas, reduzindo o tempo de tratamento. | |
2018 | Mohammed et al.(40) | A modelagem e impressão 3D produziram resultados superiores de reprodução anatômica, reduzindo o tempo de produção e os custos em 30-35% em comparação aos métodos tradicionais. |
2019 | Unkovskiy et al.(42) | A investigação revelou que todos os três métodos de fabricação aditiva (FFF, SLS e SLA) alcançaram alta precisão dimensional na produção de próteses auriculares. |
2020 | Cevik e Kocacikli.(44) | A Manufatura Aditiva tem o potencial de substituir procedimentos convencionais, como moldagem em frascos e escultura em cera. |
Cruz et al.(45) | A manufatura aditiva oferece uma solução econômica e de alta precisão para a produção de próteses auriculares. | |
2022 | Bi et al.(47) | A manufatura aditiva e o planejamento CAD otimizam a produção de próteses auriculares, eliminando etapas demoradas. |
2024 | Hatamleh et al.(51) | Fluxo de trabalho digital para reconstrução auricular bilateral, validando o fluxo digital para obter maior simetria e precisão na localização de implantes. |
Kim et al.(53) | Ensaio clínico que comprovou a segurança e a durabilidade de implantes de PCL impressos, com resultados de alta satisfação do paciente após um ano. | |
2025 | Capotorto et al.(54) | Criou um andaime (scaffold) com dois materiais (PCL e TPU) via FFF que mimetiza as propriedades mecânicas da cartilagem e do tecido adiposo, mostrando superioridade em relação a outros materiais. |
DISCUSSÃO
A presente revisão de escopo demonstrou que a transição para a reabilitação auricular por meio de fluxos de trabalho digitais é uma tendência consolidada na literatura, com uma evolução notável do foco em viabilidade técnica para a validação clínica e a democratização do acesso. A análise dos dados principais, apresentados nas Tabelas 1 e 2, permitiu identificar padrões e lacunas que moldam o futuro da anaplastologia digital.
Evolução dos Métodos e Tecnologias de Aquisição
A análise cronológica da literatura revela um movimento significativo na aquisição de dados. Inicialmente, o método direto predominou, utilizando scanners a laser ou a reconstrução de imagens de tomografia computadorizada (TC)(18,20,22). Embora essa abordagem oferecesse alta precisão, dependia de equipamentos de grande porte e, no caso da TC, expunha o paciente à radiação, o que limitava sua aplicabilidade clínica e econômica. O método indireto, por sua vez, foi validado com scanners ópticos(19) com a premissa de que sua viabilidade dependia de sistemas de baixo custo(21).
Observou-se uma mudança paradigmática na aquisição de dados devido a eliminação progressiva de exames de alta complexidade, como a TC, em favor de soluções menos invasivas e mais eficientes(39,49). O uso de scanners intraorais(39, 55) e, mais recentemente, de fotogrametria com smartphones(56,57,59), validam a democratização da tecnologia de aquisição. Essa tendência sugere que a principal barreira de entrada, o custo do scanner, está sendo progressivamente mitigada por dispositivos acessíveis, com desempenho de precisão aceitável para aplicações clínicas. No entanto, é crucial notar que a acurácia pode variar significativamente entre os diferentes scanners ressaltando a necessidade de padronização e validação de protocolos(58).
A Manufatura Aditiva como Padrão de Produção
Paralelamente à evolução na aquisição, os dados indicam uma consolidação da manufatura aditiva como o principal meio de produção. As tecnologias de estereolitografia (SLA), Fabricação com Filamento Fundido (FFF), e sinterização seletiva a laser (SLS) foram as mais exploradas ao longo dos anos para a produção de moldes(23,27) ou da prótese final(32,44). A tecnologia Polyjet (PJ) se destacou por sua capacidade de produzir modelos com alta fidelidade de detalhes e realismo(37,39,46). A variedade de tecnologias de impressão, no entanto, expõe um desafio: a escolha do método de manufatura impacta diretamente o custo e as propriedades mecânicas da prótese, o que exige um conhecimento técnico aprofundado do profissional.
O uso de impressão 3D em ambos os métodos (direto e indireto) demonstra a sua versatilidade. No método indireto, a impressão de um molde ou modelo físico(19) permite a aplicação das técnicas de anaplastologia tradicional com um fluxo de trabalho digital. Já no método direto, a manufatura aditiva permite a impressão de suportes, guias cirúrgicas e até mesmo a prótese final(53), eliminando etapas manuais e garantindo maior precisão dimensional.
Benefícios da transição digital para a reabilitação estética
A análise dos achados (Tabela 2) evidencia que os ganhos da transição digital vão além da técnica. A redução de consultas e do tempo em cadeira(23,50), a eliminação de exames invasivos como a TC(39), e a simplificação de etapas demoradas(48) demonstram um impacto direto na prática clínica e na experiência do paciente. O aumento da satisfação reforça o benefício da previsibilidade estética e da otimização do processo(43). A democratização tecnológica com dispositivos de baixo custo sugere que esses benefícios podem se tornar acessíveis a um número maior de pacientes, ampliando o acesso à reabilitação estética de alta qualidade.
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar dos avanços, a revisão de escopo identificou lacunas importantes. A principal barreira para a adoção em larga escala continua sendo o alto custo inicial de equipamentos e a necessidade de capacitação técnica, uma limitação que persiste desde os estudos iniciais(21) até os mais recentes(41,50). As perspectivas futuras, no entanto, são promissoras e já estão sendo exploradas na literatura. O desenvolvimento de novos materiais, como o andaime híbrido de PCL e TPU(54), indica uma direção de pesquisa que busca mimetizar não apenas a estética, mas também as propriedades mecânicas e funcionais dos tecidos. Além disso, a validação de fluxos digitais para próteses bilaterais(51) e o uso de aplicativos de smartphone(57) abrem caminho para a pesquisa focada na simplificação e escalabilidade do processo.
Em suma, a literatura demonstra uma evolução consistente e convergente dos métodos, com a manufatura aditiva e o escaneamento 3D se consolidando como a espinha dorsal da reabilitação auricular moderna. O desafio agora reside em superar as barreiras econômicas e de qualificação, garantindo que a tecnologia, que já provou sua eficácia clínica, possa ser democratizada e amplamente adotada, transformando o cuidado protético em uma prática mais acessível e centrada no paciente.
CONCLUSÃO
Esta revisão de escopo demonstrou que a manufatura aditiva se consolidou como um dos pilares tecnológicos na reabilitação protética auricular moderna, transformando um processo tradicionalmente manual em um fluxo de trabalho digital e previsível. Os achados confirmam a evolução de dois métodos primários, o direto e o indireto, que se estabelecem como alternativas viáveis e eficientes às técnicas convencionais. Esses fluxos de trabalho não apenas otimizam a produção, reduzindo tempo e custos, mas também elevam a qualidade e o realismo das próteses, impactando diretamente na satisfação e no bem-estar do paciente. Apesar de barreiras persistentes, como o alto custo de equipamentos e a necessidade de treinamento especializado, a tendência crescente de democratização tecnológica impulsiona a adoção em larga escala. A validação de soluções de baixo custo, como a fotogrametria por smartphones e o desenvolvimento de softwares de código aberto, sinaliza um futuro em que a tecnologia de ponta será mais acessível, expandindo o alcance e o impacto da reabilitação auricular digital. Em suma, a transição para a manufatura digital representa mais do que uma mera mudança de técnica; ela é um movimento em direção à democratização do acesso a próteses de alta qualidade. O futuro da anaplastologia digital reside em superar as lacunas econômicas e de treinamento, ao mesmo tempo em que explora o potencial de novos biomateriais e personalização avançada, solidificando a reabilitação protética como uma disciplina de engenharia, arte e cuidado humano.
REFERÊNCIAS
AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:
Agradecimento à FINEP, Rede INOVATA Finep (Projeto 2174/22), CNPq (Projeto 443769/2023-0) e (projeto 312022/2025-5).