Perfil de Pacientes Submetidos à Exodontia e Acesso Endodôntico em Urgência Odontológica: Estudo Transversal em Salvador – Bahia

RESUMO

Introdução: A assistência à saúde bucal no Brasil evoluiu com a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso a serviços clínicos e especializados. Contudo, barreiras estruturais e determinantes sociais, como baixa escolaridade, renda insuficiente e dificuldade de acesso, ainda limitam o uso adequado dos serviços, especialmente entre indivíduos vulneráveis. Cáries e doenças periodontais não tratadas podem evoluir para quadros agudos, demandando atendimento urgente, frequentemente resultando em exodontia ou tratamentos conservadores, como acesso endodôntico.  Objetivo: Avaliar o perfil dos pacientes atendidos em uma Unidade de Atendimento Odontológico de Urgência (UAO–Dique), em Salvador–BA, considerando características sociodemográficas, condições de saúde bucal, fatores de risco e autopercepção em 2025. Método: Estudo transversal com 210 participantes. Foram coletados dados sociodemográficos, acesso a serviços, morbidade bucal, autopercepção e impacto psicossocial. Aplicaram-se análises descritivas, testes de associação e regressão logística multivariada hierárquica. Resultados: Sexo, escolaridade e renda influenciaram diretamente o tipo de procedimento. Homens e indivíduos com menor escolaridade e renda apresentaram maior prevalência de extrações, enquanto mulheres e pacientes com melhores condições socioeconômicas tiveram mais procedimentos conservadores. Consultas regulares, proximidade da unidade de saúde e procura por tratamento aumentaram a realização de procedimentos preservadores. A autopercepção negativa da saúde bucal elevou a probabilidade de exodontia. Conclusão: Vulnerabilidades sociais, comportamentais e subjetivas determinam desfechos clínicos em urgência odontológica. Estratégias de promoção da saúde bucal, ampliação de tratamentos conservadores e educação continuada são essenciais para reduzir desigualdades, prevenir procedimentos invasivos e promover preservação dentária e qualidade de vida.

Palavras-chave: Urgência odontológica; Determinantes sociais da saúde; Exodontia; Endodontia; Autopercepção de saúde bucal; Acesso a serviços de saúde.

ABSTRACT

Introduction: Oral health care in Brazil has evolved with the consolidation of the Unified Health System (SUS), expanding access to clinical and specialized services. However, structural barriers and social determinants, such as low education, insufficient income, and difficulty of access, still limit the adequate use of services, especially among vulnerable individuals. Untreated caries and periodontal diseases can progress to acute conditions, requiring urgent care, often resulting in tooth extraction or conservative treatments, such as endodontic access.  Objective: To evaluate the profile of patients treated at an Emergency Dental Care Unit (UAO-Dique) in Salvador, Bahia, considering sociodemographic characteristics, oral health conditions, risk factors, and self-perception in 2025. Method: Cross-sectional study with 210 participants. Sociodemographic data, access to services, oral morbidity, self-perception, and psychosocial impact were collected. Descriptive analyses, association tests, and hierarchical multivariate logistic regression were applied. Results: Gender, education, and income directly influenced the type of procedure. Men and individuals with lower education and income had a higher prevalence of extractions, while women and patients with better socioeconomic conditions had more conservative procedures. Regular consultations, proximity to health facilities, and seeking treatment increased the number of preventive procedures performed. Negative self-perception of oral health increased the likelihood of tooth extraction. Conclusion: Social, behavioral, and subjective vulnerabilities determine clinical outcomes in dental emergencies. Strategies to promote oral health, expand conservative treatments, and provide continuing education are essential to reduce inequalities, prevent invasive procedures, and promote tooth preservation and quality of life.

Keywords: Visual acuity; Academic performance; Eye health; Adolescents; Public health.

INTRODUÇÃO

A assistência à saúde bucal nem sempre foi ofertada à população brasileira. No passado, o poder público limitava-se a ações de promoção em saúde por meio de campanhas de vacinação e controle de endemias, enquanto a assistência à saúde era realizada pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e restrita a grupos específicos, como trabalhadores com vínculo formal (Souza, 2002; Schueitzer et al., 2022). Com a inserção do direito à saúde na Constituição e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), políticas públicas passaram a ser implementadas, ampliando o acesso à odontologia clínica e às especialidades, na busca por uma assistência integral (Ministério da Saúde, 2023; Santos et al., 2023).

Nesse contexto, a regionalização da saúde fortaleceu a proximidade do poder público com a população, possibilitando avanços não apenas na oferta de serviços odontológicos e especialidades, mas também na ampliação da rede de atenção à saúde (Brasil, 2004a). Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Saúde da Família (USF), Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) compõem esse conjunto articulado que caracteriza o SUS. No município de Salvador-BA, destaca-se ainda a presença da Unidade de Atendimento Odontológico (UAO), especializada em atendimentos de urgência odontológica.

Apesar dos avanços, a efetividade do SUS no cumprimento de seus princípios ainda enfrenta desafios, sobretudo devido às limitações financeiras dos cofres públicos, à elevada demanda por atendimentos e às desigualdades sociais, que comprometem a universalidade do acesso (Tofani et al., 2021). Além das barreiras estruturais do sistema, determinantes sociais como baixa renda, escolaridade insuficiente e dificuldade de acesso a bens e serviços essenciais também contribuem para a restrição ao cuidado em saúde. Nessas condições, indivíduos em situação de vulnerabilidade acabam privados de alternativas no setor privado, dependendo exclusivamente da oferta pública (Da Silva et al., 2023; Pezzini & Rizzotto, 2023).

A limitação da assistência à saúde bucal compromete o pilar da promoção em saúde e favorece a cronificação das doenças bucais, muitas vezes evoluindo para quadros de destruição tecidual e agudização. Cárie dentária e doença periodontal, de alta prevalência na população brasileira, quando não tratadas adequadamente, tendem a evoluir para comprometimentos severos das estruturas dentárias e periodontais (Frichembruder, Melo & Neves, 2020).

Diante do acesso limitado aos serviços de saúde bucal,, é comum que cárie e doença periodontal evoluam para quadros agudos, como abscessos dentários e gengivais, pulpites, periodontites e pericementites, que exigem atendimento célere e específico. Contudo, diante da dificuldade de acesso e das limitações socioeconômicas, muitos indivíduos recorrem à exodontia como forma definitiva de tratamento e alívio da dor (Silva Junior et al., 2017). Embora seja uma opção terapêutica, a exodontia pode assumir caráter mutilador, acarretando repercussões funcionais, estéticas, psicológicas e sociais, como problemas articulares, comprometimento da fonação, mastigação e autoestima (Dos Santos et al., 2021).

Alternativamente, o acesso endodôntico também é utilizado no manejo da dor de origem dentária, consistindo na abertura da unidade dentária e remoção do tecido pulpar inflamado ou necrótico, seguido da necessidade de tratamento endodôntico (canal), responsável por manter a unidade dentária em boca em condições compatíveis com a saúde bucal (Silva, 2020). Entretanto, a oferta desses procedimentos ainda é limitada no serviço público, seja por ausência de referência para especialidades, escassez de determinados tratamentos, como prótese fixa, desconhecimento das opções disponíveis ou restrições econômicas para busca do serviço privado, fatores que muitas vezes reforçam a escolha pela exodontia no atendimento de urgência (Da Silva, 2018).

Diante desse cenário e considerando a relevância de estudos que utilizam dados representativos, este trabalho tem como objetivo avaliar o perfil dos pacientes atendidos em uma unidade de urgência odontológica em Salvador, contemplando características sociodemográficas, condições de saúde, fatores de risco no ano de 2025.

MÉTODO

           Trata-se de um estudo epidemiológico transversal de abordagem quantitativa, realizado na Unidade de Atendimento Odontológico de Urgência (UAO–Dique), em Salvador – Bahia. A unidade foi escolhida por ser exclusiva para urgências odontológicas, com funcionamento 24 horas, localizada em região central e de fácil acesso.

Participaram 214 pacientes com idade entre 17 e 65 anos, selecionados por amostragem aleatória simples e que aceitaram voluntariamente participar mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram incluídos apenas pacientes submetidos a atendimento de urgência odontológica; excluíram-se indivíduos com deficiência auditiva, transtornos mentais ou incapacidade de responder ao questionário.

A coleta de dados foi realizada por entrevistadores treinados, aplicando individualmente um formulário adaptado do Plano Nacional de Saúde Bucal – Brasil Sorridente (2020), contemplando dados sociodemográficos, acesso aos serviços de saúde, morbidade bucal, autopercepção em saúde bucal e impacto da saúde bucal na qualidade de vida. Quando necessário, o questionário foi conduzido na forma de entrevista.

Com base na literatura, foi elaborado um modelo teórico-conceitual estruturado em três níveis hierárquicos (distal, intermediário e proximal). As variáveis dependentes corresponderam ao tipo de procedimento odontológico realizado (exodontia ou acesso endodôntico). No nível distal, foram consideradas variáveis relacionadas às características sociodemográficas e ao acesso aos serviços de saúde; no nível intermediário, foram incluídas as variáveis referentes à morbidade bucal; e, no nível proximal, aquelas relacionadas à autopercepção em saúde bucal.

Os dados foram codificados, revisados e inseridos em banco de dados para análise no ambiente computacional R Development Core Team versão R 4.5.0, utilizando análises descritivas, testes de associação qui-quadrado de Pearson ou Fisher e regressão logística multivariada hierárquica, considerando nível de significância de 5%.

Todas as etapas desta pesquisa seguiram as recomendações das Resoluções CNS 466/2012 e 510/2016, contando com a anuência da coordenação da UAO–Dique e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa -CEP/UEFS (CAAE: 87057525.4.0000.0053).

RESULTADOS

Neste estudo, foram analisados 213 pacientes com idade média de 39 anos atendidos em urgência odontológica no ano de 2025.  Na Tabela 1 observou-se associação significativa entre o tipo de procedimento e as variáveis sexo, escolaridade e renda. Homens e indivíduos com menor escolaridade ou sem rendimento apresentaram maior prevalência de extrações, enquanto mulheres e pacientes com melhores condições socioeconômicas tiveram maior frequência de procedimentos conservadores (acesso endodôntico). A presença de unidade de saúde próxima à residência também esteve associada a maior realização de tratamentos preservadores. Por outro lado, raça/cor, número de pessoas no domicílio e recebimento de benefícios sociais não mostraram associação significativa. Esses achados reforçam que fatores socioeconômicos e de acesso aos serviços de saúde influenciam diretamente os desfechos clínicos em situações de urgência odontológica.

Tabela 1: Associação entre procedimentos de urgência odontológica com as características sociodemográficas e acesso ao serviço de saúde dos pacientes atendidos na UAO no ano 2025.

 

Acesso endodôntico

Extração dentária

P-valor

Variáveis

n

%

n

%

Sexo

 

 

 

 

 

Masculino(n=91)

55

60,4%

36

39,6%

0,020*

Feminino (n=122)

91

74,6%

31

25,4%

Raça

 

 

 

 

 

Branca (n=13)

7

53,8%

6

46,2%

0,511

Preta (n=113)

80

70,8%

33

29,2%

Parda (n=81)

54

66,7%

27

33,3%

Indígena/Amarela (n=6)

5

83,3%

1

16,7%

Número de pessoas

 

 

 

 

 

Até 4 pessoas (n=192)

131

68,2%

61

31,8%

0,246

5 ou mais pessoas (=19)

15

78,9%

4

21,1%

Escolaridade

 

 

 

 

 

Ensino fundamental completo (n=32)

15

46,9%

17

53,1%

0,016*

Ensino médio (n=149)

107

71,8%

42

28,2%

Ensino superior (n=32)

24

75,0%

8

25,0%

Renda

 

 

 

 

 

Sem rendimento (n=17)

7

41,2%

10

58,8%

0,031*

Até 1 SM (n=95)

65

68,4%

30

31,6%

Mais que 1 SM (n=101)

74

73,3%

27

26,7%

Benefício

 

 

 

 

 

Sim (n=77)

51

66,2%

26

33,8%

0,532

Não (n=135)

95

70,4%

40

29,6%

Unidade de saúde

 

 

 

 

 

Sim (n=195)

137

70,3%

58

29,7%

0,048*

Não (n=17)

8

47,1%

9

52,9%

 

Utiliza Frequentemente

 

 

 

 

 

Sim (n=97)

67

69,1%

30

30,9%

0,469

Não (n=102)

72

70,6%

30

29,4%

 

*p<0,05

A análise da Tabela 2 evidencia que a presença de dor de dente, sua intensidade, dor na face/bochecha e a percepção da qualidade do tratamento não apresentaram associação estatisticamente significativa com o tipo de procedimento odontológico realizado. Entretanto, a variável tempo desde a última consulta odontológica apresentou associação significativa (p=0,032), indicando que pacientes que consultaram o dentista no último ano foram mais frequentemente submetidos a procedimentos conservadores (77,8%), enquanto aqueles que buscaram atendimento após períodos mais longos apresentaram maior prevalência de extrações dentárias.

Outro achado relevante refere-se ao motivo da procura pelo atendimento, que mostrou associação altamente significativa (p=0,001). Pacientes que buscaram a UAO por dor ou necessidade de continuidade de tratamento tiveram maior proporção de procedimentos preservadores (72,6% e 80,2%, respectivamente). Em contrapartida, entre os que relataram a extração como motivo principal da procura, observou-se predomínio de extrações dentárias (59,5%).

Tabela 2: Associação entre procedimentos de urgência odontológica e morbidade bucal dos pacientes atendidos na UAO no ano 2025.

 

Acesso endodôntico

Extração dentária

P-valor

Variáveis

N

%

n

%

Dor de dente

 

 

 

 

 

Não (n=64)

41

64,1%

23

35,9%

0,231

Sim (n=148)

104

70,3%

44

29,7%

 

Intensidade

 

 

 

 

 

1-3 (Leve) (n=9)

5

55,6%

4

44,4%

0,202

4-6 (Moderada) (n=13)

7

53,8%

6

46,2%

7-10 (Alta) (n=124)

91

73,4%

33

26,6%

Consulta ao dentista

 

 

 

 

 

Até 1 ano (n=108)

84

77,8%

24

22,2%

0,032*

De 1 a 2 anos (n=32)

18

56,3%

14

43,8%

De 2 a 3 anos (n=22)

15

68,2%

7

31,8%

Mais de 3 anos (n=32)

18

56,3%

14

43,8%

Motivo

 

 

 

 

 

Dor (n=73)

53

72,6%

20

27,4%

0,000*

Extração (n=42)

17

40,5%

25

59,5%

Tratamento (n=81)

65

80,2%

16

19,8%

Qualidade do tratamento

 

 

 

 

 

Muito bom (n=167)

117

70,1%

50

29,9%

0,803

Regular (n=22)

14

63,6%

8

36,4%

Ruim (n=4)

3

75,0%

1

25,0%

Dor na Face ou Bochecha

 

 

 

 

 

Não (n=122)

82

67,2%

40

32,8%

0,618

Sim (n=88)

62

70,5%

26

29,5%

Intensidade da dor

 

 

 

 

 

4-6 (Moderada) (n=13)

8

61,5%

5

38,5%

0,323

7-10 (Alta) (n=75)

54

72,0%

21

28,0%

*p<0,05

Na associação entre autopercepção em saúde bucal e os procedimentos de urgência (Tabela 3), verificou-se que pacientes que avaliaram sua saúde bucal como muito ruim apresentaram maior prevalência de extrações dentárias (53,8%), enquanto aqueles com avaliação boa tiveram predominância de acesso endodôntico (78,4%) (p=0,045). Além disso, sentir vergonha da condição bucal esteve associado a maior frequência de extrações (39,2%; p=0,019), e relatar dormir mal associou-se a maior realização de procedimentos conservadores (74,7%; p=0,001). As demais variáveis de autopercepção não apresentaram associação significativa.

Tabela 3: Associação entre procedimentos de urgência odontológica e autopercepção em saúde bucal dos pacientes atendidos na UAO no ano 2025.

 

Acesso endodôntico

Extração dentária

P-valor

Variáveis

N

%

n

%

Avaliação

 

 

 

 

 

Boa (n=37)

29

78,4%

8

21,6%

0,045*

Regular(n=94)

67

71,3%

27

28,7%

Ruim(n=55)

37

67,3%

18

32,7%

Muito Ruim(n=26)

12

46,2%

14

53,8%

Tratamento atual

 

 

 

 

 

Sim(n=209)

143

68,4%

66

31,6%

0,682

Não(n=3)

2

66,7%

1

33,3%

 

Dificuldade de comer

 

 

 

 

 

Não(n=51)

35

68,6%

16

31,4%

0,567

Sim(n=162)

111

68,5%

51

31,5%

Dificuldade de falar

 

 

 

 

 

Não(n=148)

100

67,6%

48

32,4%

0,384

Sim(n=65)

46

70,8%

19

29,2%

Incomoda ao Escovar

 

 

 

 

 

Não(n=108)

75

69,4%

33

30,6%

0,426

Sim(n=104)

70

67,3%

34

32,7%

Deixou de sair

 

 

 

 

 

Não(n=118)

81

68,6%

37

31,4%

0,544

Sim(n=95)

65

68,4%

30

31,6%

Vergonha

 

 

 

 

 

Não

87

75,0%

29

25,0%

0,019*

Sim

59

60,8%

38

39,2%

Atrapalha

 

 

 

 

 

Não

105

67,7%

50

32,3%

0,406

Sim

41

70,7%

17

29,3%

Dorme mau

 

 

 

 

 

Não

16

41,0%

23

59,0%

0,000*

Sim

130

74,7%

44

25,3%

*p<0,05

Na análise de regressão logística multivariada (Tabela 4), observou-se que sexo e renda permaneceram significativamente associados ao tipo de procedimento odontológico de urgência em todos os modelos. Homens apresentaram maior chance de realizar extração dentária em comparação às mulheres (OR=2,32; IC: 1,22–4,37 no Modelo I; OR=3,51; IC: 1,75–7,03 no Modelo II; OR=2,83; IC: 1,47–5,43 no Modelo III). Em relação à renda, indivíduos com menor poder aquisitivo tiveram maior probabilidade de extração, configurando efeito protetor da renda mais elevada para procedimentos conservadores (OR=0,70; IC: 0,51–0,96 no Modelo I; OR=0,64; IC: 0,45–0,88 no Modelo II; OR=0,63; IC: 0,46–0,85 no Modelo III).

No Modelo intermediário, o tempo desde a última consulta odontológica mostrou-se associado ao desfecho (p=0,046), sugerindo que a ausência de acompanhamento regular aumenta a chance de procedimentos mutiladores. Por fim, no Modelo proximal, a autopercepção em saúde bucal apresentou associação significativa: pacientes que avaliaram negativamente sua condição tiveram maior probabilidade de extração dentária (OR=1,62; IC: 1,15–2,29).

Esses achados reforçam que fatores sociodemográficos e a autopercepção em saúde bucal exercem influência direta sobre o tipo de procedimento realizado em contexto de urgência odontológica, destacando vulnerabilidades sociais e subjetivas que podem direcionar para intervenções mutiladoras.

Tabela 4: Regressão logística multivariada, tendo como variável desfecho os procedimentos de urgência odontológica (acesso endodôntico e extração dentária) dos pacientes atendidos na UAO no ano 2025.

Modelos

Modelo I

Modelo II

Modelo III

p-valor

OR

IC 95%

p-valor

OR

IC 95%

p-valor

OR

IC 95%

Modelo distal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sexo

0,010*

2,32

1,22;4,37

0,000*

3,51

1,75;7,03

0,002*

2,83

1,47;5,43

Renda

0,029*

0,70

0,51;0,96

0,007*

0,64

0,45;0,88

0,003*

0,63

0,46;0,85

Escolaridade

0,091

0,59

0,32;1,09

 

 

 

 

 

 

Unidade de saúde

0,084

0,39

0,13;1,13

 

 

 

 

 

 

Modelo Intermediário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Consulta ao dentista

 

 

 

0,046*

1,33

1,01;1,77

 

 

 

Motivo

 

 

 

0,360

0,84

0,56;1,23

 

 

 

Modelo Proximal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Avaliação

 

 

 

 

 

 

0,006*

1,62

1,15;2,29

Atrapalha

 

 

 

 

 

 

0,201

0,62

0,30;1,28

*p<0,05

Discussão

Os resultados deste estudo demonstram que fatores sociodemográficos, comportamentais e subjetivos influenciam o tipo de procedimento odontológico em contexto de urgência. Homens, indivíduos com baixa escolaridade e menor renda apresentaram maior prevalência de extrações dentárias, enquanto mulheres e pacientes com maior escolaridade e renda tiveram mais acesso a procedimentos conservadores, como tratamento endodôntico. Esses achados reforçam o papel dos determinantes sociais na saúde bucal e na necessidade de intervenções mutiladoras (Peres et al., 2019; Lima et al., 2021; Antunes & Narvai, 2010; Barbato et al., 2018).

Estudos internacionais corroboram esses achados. Em países de baixa e média renda, como Nigéria e Índia, a extração é a conduta predominante em serviços de urgência, especialmente entre populações com acesso limitado à atenção primária em saúde bucal (Ajayi et al., 2017; Singh et al., 2020). Em contraste, em países de alta renda, como Canadá e Reino Unido, a prevalência de extrações é menor, refletindo sistemas de atenção primária fortalecidos e políticas que priorizam tratamentos preventivos e restauradores (Marmot et al., 2020).

O tempo desde a última consulta odontológica foi significativamente associado ao tipo de procedimento, indicando que consultas regulares aumentam a probabilidade de tratamentos conservadores, enquanto longos intervalos entre consultas elevam o risco de extrações (Peres et al., 2019; Petersen & Ogawa, 2012; Quiñonez et al., 2013).

A autopercepção negativa da saúde bucal também se mostrou relevante, com pacientes avaliando sua condição como ruim apresentando maior probabilidade de extração. Esse achado evidencia que percepções subjetivas influenciam a procura por atendimento e o tipo de intervenção realizada, em consonância com estudos anteriores (Santos, 2016; Silva et al., 2001; Petersen & Kwan, 2011). Distúrbios do sono, frequentemente associados a dores dentárias crônicas, também influenciam a busca por tratamentos conservadores, motivando atendimento odontológico para alívio (Lei et al., 2024).

A análise multivariada confirmou a influência combinada de fatores sociodemográficos, comportamentais e perceptivos sobre o tipo de procedimento, destacando que vulnerabilidades sociais e subjetivas aumentam a probabilidade de intervenções mutiladoras. Políticas públicas e estratégias de promoção da saúde bucal devem priorizar o acesso regular a consultas, educação em saúde e incentivo a tratamentos conservadores, reduzindo desigualdades e promovendo preservação dentária (Kassebaum et al., 2017; Watt & Sheiham, 2012).

CONCLUSÃO

Os resultados desta pesquisa indicam que fatores socioeconômicos, especialmente escolaridade e renda, exercem influência direta sobre o desfecho clínico em situações de urgência odontológica. Indivíduos em maior vulnerabilidade social apresentaram maior propensão a procedimentos mutiladores, como extração dentária, enquanto aqueles com melhores condições sociais tiveram maior acesso a procedimentos conservadores, como o acesso endodôntico.

A regularidade na utilização dos serviços odontológicos e o motivo da procura também se mostraram determinantes importantes. Pacientes que mantêm acompanhamento odontológico regular e buscam atendimento por motivos de tratamento têm maior probabilidade de receber intervenções conservadoras, enquanto aqueles que recorrem aos serviços apenas diante da necessidade de extração tendem a apresentar desfechos mais invasivos. Estes achados reforçam a importância da educação em saúde bucal e do acesso contínuo a consultas odontológicas como estratégias para reduzir a necessidade de procedimentos mutiladores, promovendo preservação dentária e melhor qualidade de vida.

Além disso, a autopercepção da saúde bucal mostrou-se relevante como determinante do desfecho clínico. Pacientes que avaliam negativamente sua condição bucal e percebem maior impacto psicossocial estão mais expostos a procedimentos invasivos, como a extração dentária.

Em síntese, os achados corroboram a hipótese de que desigualdades sociais influenciam o padrão de procedimentos realizados em unidades de urgência odontológica. O predomínio de extrações entre indivíduos em situação de maior vulnerabilidade reflete não apenas a gravidade das condições bucais no momento da procura, mas também limitações estruturais no acesso à atenção básica e à continuidade do cuidado em saúde bucal. Estes resultados reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem a oferta de tratamentos conservadores e implementem estratégias de promoção e prevenção em saúde bucal, com foco prioritário em grupos mais vulneráveis.

REFERÊNCIAS

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