O artigo analisa a situação vacinal da população em situação de rua acompanhada pelo Consultório na Rua (CnaR) de Foz do Iguaçu-PR em 2025, destacando o papel da enfermagem na promoção da equidade em saúde. A pesquisa, de caráter descritivo e quantitativo, baseou-se em registros de 261 pessoas entre 18 e 61 anos. Foram avaliadas as vacinas dT, Hepatite B, Tríplice Viral, Febre Amarela, Covid-19 e Influenza, conforme critérios do Programa Nacional de Imunizações. Os resultados indicaram que as maiores coberturas ocorreram para dT (55,2%) e Hepatite B (51,3%), seguidas por Febre Amarela (49,4%), Influenza (42,1%), Tríplice Viral (41,8%) e Covid-19 (26,8%). O estudo evidencia a importância das ações extramuros e do vínculo contínuo promovido pelas equipes de enfermagem, que ampliam o acesso e fortalecem a adesão vacinal mesmo diante de barreiras sociais e territoriais. A análise demonstra que o êxito da imunização não se limita à completude dos esquemas, mas à capacidade de manter acompanhamento ativo e cuidado humanizado. Conclui-se que o fortalecimento do Consultório na Rua e das políticas intersetoriais é essencial para ampliar as coberturas vacinais, reduzir iniquidades e efetivar o direito à saúde das pessoas em situação de rua.
Palavras-chave: Enfermagem, Pessoas em situação de rua, Vacinação.
Nas fronteiras convivem diferentes sistemas políticos, monetários, de segurança e proteção social, e a intensificação de fluxos decorrentes da integração gera novos desafios para os sistemas de saúde, exigindo políticas específicas direcionadas à garantia do direito à saúde nas regiões4. Esta afirmação, determina que visibilizar recursos e apresentar dados que favoreçam a tomada de decisão pela realização de ações previstas em políticas de saúde intersetoriais são necessárias para conter o avanço de doenças negligenciadas tendo como prioridade a população mais vulnerável.
Referencial Teórico
Práticas de enfermagem na atenção à população em situação de rua.
Para Campos e Orfão5, a Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPSR) evidencia a intersetorialidade como um pilar para a garantia da integralidade do cuidado. Nesse processo, a atuação do enfermeiro e da equipe de enfermagem é crucial, pois são profissionais que operacionalizam essa articulação na prática, facilitando o acesso, construindo vínculos de confiança e assegurando que o cuidado seja um direito efetivo e não apenas um princípio formal.
Os profissionais de enfermagem enfrentam vários desafios ao lidar com PsR, dentre os desafios, encontram-se o enfrentamento de preconceito e discriminação, a falta de sensibilidade e capacitação dos profissionais ao lidarem com indivíduos que enfrentam realidades de vida tão complexas, as quais requerem uma abordagem de cuidado singular. Além disso, destaca-se a necessidade de uma maior coordenação entre os diferentes setores governamentais e da sociedade para melhor atender a essa população vulnerável. Para superar esses desafios, é essencial que os profissionais de enfermagem sejam capacitados de forma adequada, com enfoque na sensibilização para as especificidades da população em situação de rua.
A atuação da enfermagem junto às pessoas em situação de rua (PsR) representa um campo de extrema relevância social e sanitária, marcado por desafios éticos, estruturais e humanos. Segundo Santos et al.6, os profissionais de enfermagem exercem papel fundamental na promoção, manutenção e restauração da saúde dessa população, além de contribuírem para sua reintegração social. O cuidado em saúde, nesse contexto, ultrapassa a dimensão técnica, exigindo sensibilidade, empatia e uma abordagem ampliada das vulnerabilidades sociais.
O estudo conduzido por Santos et al.6 evidencia que as equipes de enfermagem enfrentam limitações associadas à falta de acesso das PsR aos serviços de saúde, à discriminação institucional e à carência de formação específica para lidar com situações de extrema vulnerabilidade. Essas barreiras comprometem a efetividade do cuidado, tornando essencial a adoção de estratégias intersetoriais, articuladas entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e as políticas de assistência social.
Nesse cenário, o Consultório na Rua emerge como um dispositivo estratégico da Atenção Primária, permitindo à enfermagem aproximar-se das realidades territoriais e construir vínculos terapêuticos. A prática do cuidado exige compreender a rua como espaço de permanência e não apenas de transitoriedade, o que demanda do enfermeiro uma postura acolhedora e humanizada, capaz de reconhecer o sujeito em sua integralidade6.
As práticas de enfermagem voltadas às PsR, portanto, são de natureza complexa e exigem constante aperfeiçoamento técnico, político e ético. Como afirmam os autores, a capacitação profissional e o fortalecimento das ações educativas em saúde são fundamentais para promover escolhas conscientes e ampliar o acesso dessa população a direitos básicos. Assim, o cuidado de enfermagem torna-se uma prática transformadora, capaz de reduzir iniquidades e reafirmar o princípio da equidade no SUS.
Ações Extramuros Como Estratégia para o Aumento das Coberturas Vacinais
A estratégia de vacinação extramuros mostra-se particularmente relevante para a população em situação de rua, pois descentraliza a imunização e facilita o acesso aos imunizantes, resultando em cobertura vacinal efetiva e contribuindo para a mitigação de doenças7.
As ações extramuros constituem uma importante estratégia de ampliação das coberturas vacinais e de fortalecimento das políticas públicas de imunização no Brasil. De acordo com Silva et al.7, durante a campanha de vacinação contra a Covid-19, a adoção de estratégias descentralizadas foi determinante para alcançar populações em situação de vulnerabilidade social e geográfica. Essas ações envolveram a vacinação em escolas, igrejas, praças, unidades prisionais e instituições de longa permanência, representando um marco na reorganização da atenção primária e na articulação intersetorial em saúde.
Segundo os autores, a execução das atividades extramuros exigiu da equipe de enfermagem capacidade técnica, planejamento logístico e sensibilidade social para compreender os diferentes contextos de vida da população7. O enfermeiro, como coordenador das salas de vacina e agente de educação em saúde, desempenhou papel essencial na identificação de territórios com baixa cobertura vacinal, no acolhimento das demandas locais e na construção de vínculos com a comunidade.
Ainda conforme Silva et al.7, a atuação fora dos limites físicos das unidades de saúde possibilitou o fortalecimento das ações educativas e o enfrentamento das fake news sobre vacinas, contribuindo para a adesão e para a confiança da população nos imunobiológicos. O estudo reforça que a mobilização social e o trabalho em rede foram fatores determinantes para o sucesso das campanhas, demonstrando que o compromisso ético e político da enfermagem é fundamental para a consolidação do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Dessa forma, as ações extramuros não apenas ampliam o acesso, mas reafirmam os princípios da universalidade e da equidade do Sistema Único de Saúde (SUS). A experiência relatada por Silva et al.7 evidencia que o fortalecimento das práticas de campo é essencial para enfrentar os desafios contemporâneos da vacinação, garantindo que nenhum grupo populacional fique excluído das políticas públicas de saúde.
Dados do painel vacinômetro do Ministério Da Saúde indicam que 181 pessoas em situação de rua receberam ao menos uma dose da vacina contra Influenza. O quantitativo corresponde a 46% da população estimada desse público, que é de 580 pessoas na cidade de Foz do Iguaçu segundo o senso da pop rua realizado em 2025 pelo município .
Vacina | Esquema Completo / Acompanhamento ativo (n) | Esquema Completo / Acompanhamento ativo(%) | Esquema Incompleto (n) | Esquema Incompleto (%) |
Febre Amarela | 129 | 49,4% | 132 | 50,6% |
Hepatite B | 134 | 51,3% | 127 | 48,7% |
dT (Dupla Adulto) | 144 | 55,2% | 117 | 44,8% |
Tríplice Viral | 109 | 41,8% | 152 | 58,2% |
Influenza 2025 | 110 | 42,1% | 151 | 57,9% |
COVID-19 | 70 | 26,8% | 191 | 73,2% |
Os resultados sob esta nova ótica revelam a efetividade do Consultório na Rua como Estratégia de vinculação e cuidado longitudinal. Diferente da análise tradicional que focaria apenas na completude dos esquemas, esta perspectiva valoriza o processo de cuidado e a manutenção do vínculo - elementos fundamentais para o trabalho com populações em situação de rua3.
As taxas superiores a 50% de acompanhamento para dT e Hepatite B refletem a rotina estabelecida pela equipe com vacinas de esquemas multi-dose, demonstrando a capacidade de manter os usuários engajados em processos de médio e longo prazo. Isso é particularmente relevante considerando a alta mobilidade geográfica e as condições de vida precárias que caracterizam esta população.
A expressiva taxa de acompanhamento da Febre Amarela (49,4%) pode estar relacionada à oferta constante desta vacina em regiões endêmicas e à percepção de risco pela população, além do trabalho ativo da equipe na oferta desta imunização.
O dado da COVID-19 (26,8%), ainda que menor que os demais, ganha nova dimensão quando entendido como um indicador de vínculo. Considerando a saturação pós-pandemia e a hesitação vacinal específica para esta doença, manter mais de um quarto da população cadastrada em acompanhamento ativo representa uma conquista importante da estratégia de saúde.
Durante a pandemia da Covid-19, o trabalho das equipes dos Consultórios na Rua tornou-se essencial para garantir o acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde e à imunização. Em São Paulo, a ampliação de 70% do número de profissionais de saúde, com metade das equipes atuando diretamente nas ruas e a outra metade nos equipamentos sociais, foi uma estratégia fundamental para o monitoramento de sintomas e o encaminhamento de casos suspeitos e confirmados de Covid-19. Essa ação refletiu a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de se adaptar e responder a grupos em maior vulnerabilidade social, assegurando o direito à saúde mesmo em condições adversas8.
Estes resultados reforçam que o sucesso na vacinação desta população deve ser medido não apenas pela meta final de cobertura, mas pelo processo contínuo de engajamento. O Consultório na Rua mostra-se como dispositivo fundamental para operacionalizar as diretrizes do PNI2 nesta população específica, criando as condições para que, mantido o vínculo, a completude dos esquemas vacinais possa ser alcançada de forma progressiva e sustentada.
O estudo evidencia avanços parciais na cobertura vacinal entre a população em situação de rua, mas revela lacunas significativas na imunização, especialmente contra a Covid-19. Nenhuma das vacinas analisadas atingiu índices considerados satisfatórios, sendo a maior cobertura observada de apenas 33,0% (Hepatite B). Tal cenário reforça a importância de que pessoas adultas mantenham o calendário vacinal atualizado, uma vez que a imunização, além de proteger o indivíduo, contribui para a redução da transmissão de doenças e para a proteção indireta de grupos vulneráveis, como crianças e pessoas imunossuprimidas.
Esses resultados reafirmam a necessidade de políticas públicas específicas que garantam não apenas o acesso inicial à vacina, mas também o acompanhamento sistemático dos esquemas vacinais. Medidas como a ampliação dos horários de vacinação, a busca ativa nos territórios onde essa população pernoita e o desenvolvimento de ações educativas contínuas mostram-se essenciais para a efetividade da imunização.
O fortalecimento do Consultório na Rua, aliado a estratégias intersetoriais e campanhas direcionadas às populações em maior vulnerabilidade, é fundamental para ampliar a cobertura vacinal, promover a equidade e reduzir as desigualdades em saúde. Com base nas implicações apresentadas, recomenda-se o aprimoramento dessa política pública por meio da integração entre as redes de atenção básica, vigilância em saúde e assistência social, garantindo um cuidado continuado, humanizado e territorialidade às pessoas em situação de rua8.