DESAFIOS DOS SURDOS PARA O AUTOCUIDADO EM SAÚDE BUCAL
CHALLENGES OF THE DEAF FOR SELF-CARE IN ORAL HEALTH
DESAFÍOS PARA LAS PERSONAS SORDAS EN EL AUTOCUIDADO DE LA SALUD BUCAL
Tipo de artigo: Pesquisa
Autores
Marcelo Pereira da Rocha
Doutor em Ciências da Saúde; Professor de Odontologia, Faculdade Independente do Nordeste – FAINOR
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2890-4899
Ingrid Soares Viana
Mestre em Ciências da Saúde, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1034-8102
Caio Fernando dos Santos da Cruz
Graduado em Odontologia, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia– UESB
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2777-8862
Carlos Emanuell Barbosa Viana
Graduado em Odontologia, Faculdade Independente do Nordeste – FAINOR
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-1453-0194
RESUMO
O autocuidado em saúde bucal está relacionado à autonomia e à melhoria da qualidade de vida dos surdos. Objetivo: Este estudo tem como objetivo compreender os desafios da população surda em relação à prática do autocuidado em saúde bucal. Método: Para tanto, foi desenvolvida uma pesquisa com abordagem qualitativa, utilizando dados de entrevistas com participantes de uma comunidade surda de um município brasileiro. Resultados: Os resultados apontam como principais desafios da população surda a dificuldade com o autocuidado com a saúde oral e fragilidades na comunicação com o Cirurgião-Dentista. Conclusão: Portanto, é necessário a melhor capacitação dos profissionais em Língua Brasileira de Sinais, de modo a proporcionar um cuidado mais humanizado e inclusivo.
DESCRITORES: Autocuidado; Línguas de Sinais; Perda Auditiva; Saúde Bucal, Inclusão Social.
ABSTRACT
Self-care in oral health is related to autonomy and the improvement of the quality of life of deaf individuals. Objective: This study aims to understand the challenges faced by the deaf population regarding the practice of oral health self-care. Method: To this end, a qualitative research study was conducted using interview data from participants of a deaf community in a Brazilian municipality. Results: The findings highlight the main challenges faced by the deaf population, including difficulties with oral health self-care and weaknesses in communication with dental surgeons. Conclusion: Therefore, it is necessary to provide better training for professionals in Brazilian Sign Language in order to promote more humanized and inclusive care.
RESUMEN
El autocuidado en la salud bucal está relacionado con la autonomía y la mejora de la calidad de vida de las personas sordas. Objetivo: Este estudio tiene como objetivo comprender los desafíos de la población sorda en relación con la práctica del autocuidado en salud bucal. Método: Para ello, se desarrolló una investigación con enfoque cualitativo, utilizando datos de entrevistas con participantes de una comunidad sorda de un municipio brasileño. Resultados: Los resultados señalan como principales desafíos de la población sorda la dificultad en el autocuidado de la salud oral y las debilidades en la comunicación con el cirujano dentista. Conclusión: Por lo tanto, es necesaria una mejor capacitación de los profesionales en Lengua de Señas Brasileña, con el fin de ofrecer una atención más humanizada e inclusiva.
INTRODUÇÃO
As práticas de cuidado em saúde bucal contribuem para a melhoria da saúde das pessoas, incluindo a população surda(¹). O cuidado em saúde envolve a prevenção de doenças e agravos, bem como a promoção do bem-estar, demonstrando o conhecimento dos indivíduos e familiares para manutenção da vitalidade, enfrentamento de doenças e superação de limitações. Novas formas de acesso à informação e às tecnologias vêm modificando a maneira como as pessoas cuidam de si mesmas e dos outros(²).
A promoção do autocuidado constitui uma ação educativa e emancipadora, que oferece informações adequadas para a tomada de decisão em saúde. Para isso, é essencial a comunicação entre profissionais e pacientes(³). Ressalta-se, portanto, a necessidade de acesso a informações de qualidade, bem como a capacidade de interpretá-las e aplicá-las na rotina(⁴).
No âmbito dos cuidados com a saúde bucal, objeto desta pesquisa, tem-se como formas de manutenção da saúde oral o uso da escova e fio dental, do dentifrício fluoretado, além dos hábitos alimentares e da consulta de rotina com o Cirurgião-Dentista (CD)(5-7). Essas práticas são primordiais ao autocuidado de todos os indivíduos, incluindo os surdos e deficientes auditivos, cujo contingente é de um bilhão e meio de pessoas no mundo e de nove milhões no Brasil(8’9).
As pessoas com perda auditiva entre leve a grave são consideradas deficientes auditivos e geralmente utilizam a linguagem falada para se comunicar. Por sua vez, os indivíduos com perda auditiva profunda são considerados surdos e costumam usar a língua de sinais para se expressar. Ainda cabe salientar o desafio para os países subdesenvolvidos na promoção da saúde, dado que 80% das pessoas que possuem perda auditiva incapacitante vivem em países de renda baixa(1).
Nesse contexto, evidencia-se a aprovação da Língua Brasileira de Sinais (Libras), oficializada com a Lei de Libras nº 10.436, de 24 de abril de 2002(10). Cabe destacar que os surdos são uma comunidade linguística diferente e minoritária que apresentam como elementos identificadores a língua de sinais e uma pronunciada cultura visual, com comportamento linguístico e valores culturais que fazem desses sujeitos cidadãos capazes de se desenvolver nas perspectivas social, cognitiva e afetiva(11). Diante disso, salienta-se a importância da Libras para a comunicação, socialização e aprendizagem dos sujeitos(12‘13).
Importa destacar que a surdez não implica perda de habilidades motoras, como andar e segurar objetos, como a escova de dentes e fio dental(14). Portanto, possíveis inadequações em práticas do autocuidado não podem ser explicadas pela impossibilidade na realização física dos hábitos de higiene oral, mas em geral decorrem da forma como essas ações são ensinadas e/ou comunicadas por profissionais, visto que um dos objetivos do autocuidado é criar no indivíduo a autonomia de fazer por si mesmo a manutenção da saúde1.
Parte dos adolescentes surdos não se considera apto ao autocuidado, necessitando muitas vezes do auxílio dos pais, haja vista que geralmente os responsáveis realizam os procedimentos de higiene oral, e algumas vezes os ensinam, mas não explicam o porquê de tais práticas, ou sobre o motivo delas serem importantes. Tais mecanismos desencadeiam insegurança nos indivíduos, pois nem sempre terão o auxílio de responsáveis e necessitarão entender e praticar por si mesmos o autocuidado durante a vida adulta(13).
Foram encontrados na literatura estudos acerca do autocuidado em saúde bucal da população surda(1-13), mas com abordagens distintas desta proposta, ancorada no pressuposto de uma comunidade culturalmente singular, com necessidades específicas e potencialidades para o autocuidado de si e o cuidado do outro, a exemplo de um familiar. Diante do exposto, esta pesquisa objetiva compreender os desafios da população surda em relação à prática do autocuidado em saúde bucal.
MÉTODO
Trata-se de estudo exploratório, qualitativo, realizado entre abril e junho de 2023 em um município da Bahia, Brasil, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 67851822.1.0000.5578). A investigação envolveu uma associação e uma escola de inclusão de pessoas com deficiência, ambas com estrutura adaptada e profissionais capacitados, além da oferta de cursos de Libras.
Participaram 11 indivíduos: oito da associação de surdos e três da escola. Os critérios de inclusão foram: maiores de 18 anos, com perda auditiva parcial ou total e usuários de Libras. Foram excluídas pessoas surdocegas ou com patologias que inviabilizassem a compreensão e resposta às entrevistas.
Para facilitar a interação dos pesquisadores de campo - dois graduandos de Odontologia - com os participantes, foram estabelecidos contatos prévios com o grupo estudado, anteriormente ao início da coleta de dados.
As entrevistas foram realizadas por dois graduandos de Odontologia, previamente apresentados ao grupo estudado, de forma individual, presencial, conduzidas com roteiro semiestruturado e apoio de intérprete de Libras. Realizou-se teste-piloto para ajuste do instrumento. Todas as entrevistas foram gravadas em vídeo apenas para fins de transcrição, com duração média de 30 minutos(15).
Após a entrevista, o material coletado foi transcrito na íntegra no editor de texto bloco de notas, de modo a facilitar a fase analítica. A análise dos dados foi realizada no Software Iramuteq (versão 0.7 alpha 2), por meio da análise lexical clássica. Assim, as unidades de texto foram identificadas e reformatadas, alterando as Unidades de Contexto Iniciais (UCI) em Unidades de Contexto Elementares (UCE). Posteriormente, foi executada na pesquisa o vocabulário e a lematização das palavras, com o objetivo de criar o dicionário reduzido, definindo as formas ativas e suplementares do conteúdo(16). A análise lexicométrica foi associada a técnica de análise de conteúdo, preconizada por Bardin (2016)15, com as seguintes etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
RESULTADOS
Foram entrevistados 11 participantes, dos quais 73% são do sexo feminino e 27% do masculino. A idade média dos entrevistados foi de 27 anos, e composta majoritariamente por solteiros (90%). O grau de deficiência auditiva prevalente foi profundo (54%), seguido de moderado (27%), leve (9%) e severo também com 9%.
Todos os entrevistados relataram que adquiriram a surdez em média com um ano de idade e são provenientes de famílias ouvintes. A respeito da relação familiar, 27% dos entrevistados comunicam por meio de Libras e 73% com outras formas de comunicação.
Abaixo se apresenta a Figura 1 com a nuvem de palavras, na qual se expõem o agrupamento e organização gráfica das palavras em função da frequência que aparecem no textos(17).
Percebe-se, com maior destaque palavras que expressam a necessidade de melhoria na comunicação com o CD e no cuidado com a saúde, incluindo a prevenção. Ainda evidenciam as dificuldades desse profissional ao lidar com os surdos e a barreira linguística.
Por sua vez, a Figura 2 apresenta a análise de similitude ou de semelhanças, cuja base é a teoria dos grafos, e trata das relações entre os objetos em um conjunto, e ainda possibilita identificar as ocorrências entre palavras(15-16). As associações mais evidentes foram entre as palavras: cuidado- escovação-surdos-informações-dentista-interpretar
O gráfico de similitude revelou que o conteúdo das entrevistas está focado nas experiências do cuidado em saúde bucal dos surdos, especialmente ao visitarem o consultório odontológico, pois o maior desafio está relacionado a comunicação durante o atendimento. Assim, destaca-se a importância de compreender as demandas específicas desse público, como a necessidade de intérpretes e a compreensão da Libras por parte dos profissionais de saúde bucal. Essas informações são essenciais para promover um atendimento adequado e inclusivo, garantindo aos surdos os cuidados bucais necessários, de forma humanizada(19).
DISCUSSÃO
Para se ter uma assistência odontológica bem-sucedida é necessária uma comunicação eficaz entre o paciente e o profissional, a fim de compreender as queixas principais, o histórico médico, bem como para elaborar e explicar o plano de tratamento adequado para o caso em questão. Portanto, o diálogo é imprescindível para estabelecer conexão e promover harmonia ao processo de tratamento. Por isso, é fundamental a utilização de meios facilitadores dessa comunicação(19).
Nesse sentido, o CD deve ser flexível para se ajustar às diferentes situações, ser capaz de construir um vínculo de confiança e promover segurança durante o tratamento, além de proporcionar autonomia ao paciente em relação aos cuidados com a saúde bucal, independente das circunstâncias em que eles se encontram(20-21).
Ademais, a análise de conteúdo proporcionou a definição das seguintes categorias de análise:
Os participantes perceberam a sua saúde bucal como boa (36%), mais ou menos (54%) e normal (10%). Por sua vez (37%) relataram sentir odor desagradável e dor.
Em sua totalidade os participantes constataram a importância da saúde bucal no controle da doença cárie e do cálculo dentário, assim como na prevenção do “mau hálito” e da inflamação gengival.
Foi ressaltada a importância do cuidado com a saúde bucal, sendo mais frequente entre os entrevistados a escovação dentária (100%), entre duas a três vezes ao dia. O estudo de Silva et al. 2020(20) com deficientes auditivos também constatou a mesma frequência de hábito de escovação, embora tenha sido notado que essa não estava sendo feita de forma eficaz, o que está relacionado ao nível de conhecimento do paciente sobre os procedimentos adequados para a higiene oral. Isso demonstra a necessidade de melhoria da comunicação sobre os cuidados preventivos entre o paciente e a equipe de saúde(20).
Com relação às facilidades no cuidado da saúde bucal, destacam-se o acesso aos instrumentos de prevenção como escova, dentifrício e fio dental, além da disponibilidade de vídeos na internet com intérprete de Libras, o que facilita o entendimento sobre as instruções de higiene oral.
Em relação às propagandas de produtos odontológicos disponíveis, como as veiculadas na televisão, foi ressaltada que a quantidade de informações visuais como fotos e vídeos é por vezes exagerada, o que dificulta a atuação do intérprete que não consegue comunicar todo o contexto, limitando a aprendizagem do surdo.
Por sua vez, em relação às dificuldades, foi ressaltada a barreira de comunicação entre o profissional e o surdo. Sobre essa questão, Gupta(21) destaca a necessidade de transpor os bloqueios de comunicação para permitir um acesso mais amplo ao atendimento odontológico.
Dentre os fatores que dificultam a interação profissional-paciente evidenciou-se a falta de domínio da Libras por parte do CD, o uso de máscaras pelo profissional que impede a leitura labial de muitos surdos e a necessidade do acompanhamento durante as consultas por um intérprete.
Desse modo, muitos surdos declararam possuir medo e ansiedade no atendimento odontológico, fato também apontado por Alkadhi(19) em seu estudo, no qual ressaltou a comunicação entre paciente e profissional que afeta negativamente a visita ao dentista. No que diz respeito à anestesia, muitas vezes o CD não informa o que está acontecendo e o paciente é surpreendido durante esse ato. Além disso, ressaltaram a ausência de explicações e detalhes sobre o diagnóstico e prescrição, bem como a rapidez do atendimento. Dentre as causas das falhas de comunicação do CD com os surdos está o pouco entendimento desses profissionais sobre Libras(25).
Ademais, foi pontuada a maneira simplista e muitas vezes infantil de como muitos profissionais se comunicam com os surdos o que dificulta um compartilhamento adequado das informações.
Os entrevistados sugeriram a melhora da comunicação, principalmente com a universalização da Libras pelos profissionais da área da saúde ou a contratação de interpretes em ambientes públicos. Naseribooriabadi et al(23) enfatizaram que a má comunicação entre a maioria dos profissionais de saúde e os surdos contribui para o desconhecimento da população sobre os processos de saúde e doença.
Neste sentido, a qualidade de vida desses pacientes é mais facilmente comprometida pela falta de autonomia durante as consultas e pela sensação de dependência de um colega intérprete de língua de sinais. Santos25 e colaboradores corroboram essa informação ao afirmar que as dificuldades de comunicação entre CD e pacientes surdos são o maior impedimento para o atendimento digno do paciente.
Sendo os surdos uma comunidade culturalmente singular, com necessidades e potencialidades para o cuidado de si e o cuidado do outro, enfatiza-se a importância da autonomia para promover de fato a equidade, o empoderamento e a autossuficiência dessa população, não apenas na área da saúde, mas de todos os aspectos da vida(23-24).
CONCLUSÃO
Este estudo apontou como o maior desafio dos surdos em relação ao autocuidado com a saúde bucal a comunicação com o Cirurgião-Dentista. As dificuldades de conduzir o atendimento odontológico interferem na compreensão das orientações ao paciente surdo e consequentemente na qualidade da assistência prestada.
Neste contexto, embora a pessoa surda detenha a capacidade física e motora para realizar os cuidados diários de higiene buccal, as consultas e orientações odontológicas são imprescindíveis para a manutenção da saúde e esse aspecto fica prejudicado devido às dificuldades comunicacionais.
Além disso, evidencia-se a necessidade de melhoria da capacitação dos CD sobre o domínio de Libras, sobretudo, os atuantes no Sistema Único de Saúde, de forma a garantir o atendimento das necessidades particulares desse público e assegurar a equidade na atenção em saúde.
Em acréscimo, cabe ressaltar a relevância da atuação do profissional intérprete no ambiente de saúde, uma vez que ele facilita uma melhor interação profissional-paciente, contornando as barreiras da comunicação e possibilitando que as orientações sejam compreendidas.
REFERÊNCIAS
nacional. Pesquisa Oral Brasileira. 18 de dezembro de 2017;31(0).
L. PRÁTICAS DE AUTOCUIDADO EM SAÚDE BUCAL DE USUÁRIOS DO PROGRAMA SAÚDE
DA FAMÍLIA. Revista Baiana de Saúde Pública. 2018 Aug 14;42(1).
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2021;10(8):2928.
Ciências da Saúde [Internet]. 2021 Aug 3 [cited 2023 Jun 11];40–50. Available from: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/rcisaude/article/view/16839
22. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30127189/
Endereço para correspondência:
Marcelo Pereira da Rocha
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ORCID: (https://orcid.org/0000-0003-2890-4899)