LACUNAS NO CONHECIMENTO E IMUNIZAÇÃO CONTRA HEPATITE B ENTRE ESTUDANTES DO PRIMEIRO ANO DE MEDICINA
GAPS IN KNOWLEDGE AND IMMUNIZATION AGAINST HEPATITIS B AMONG FIRST-YEAR MEDICAL STUDENTS
BRECHAS EN EL CONOCIMIENTO E INMUNIZACIÓN CONTRA LA HEPATITIS B ENTRE ESTUDIANTES DE PRIMER AÑO DE MEDICINA
Tipo de artigo: Artigo original
Autores
Diana Carla Gouveia Falcão
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0009-0004-7308-1873
Yasmin Gouveia Pinto Leite
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0009-0007-5768-086X
Yuri Félix Brandão
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0009-0005-6445-5324
Isabella Siqueira Oliveira
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0009-0005-8212-9039
Sônia Leite da Silva
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2732-8543
Silvia Fernandes Ribeiro da Silva
Universidade de Fortaleza, Brasil
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3223-5184
RESUMO
Objetivo: Analisar o conhecimento sobre hepatite B e a cobertura vacinal entre estudantes do primeiro ano de Medicina. Métodos: Estudo transversal, descritivo e quantitativo, realizado com 162 estudantes de uma universidade privada de Fortaleza, Ceará. A amostra foi obtida por conveniência. Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado, elaborado pelos autores, contendo questões sobre conhecimento e situação vacinal. A análise foi realizada por estatística descritiva. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (parecer nº 6.689.258). Resultados: Observou-se bom conhecimento sobre aspectos básicos da doença, porém com lacunas importantes em relação às formas de transmissão e medidas preventivas. A vacinação foi amplamente reconhecida, mas menos da metade dos estudantes apresentou esquema vacinal completo. Verificou-se baixa realização de sorologia anti-HBs e discrepância entre percepção de proteção e condição imunológica. Conclusão: Os estudantes apresentam lacunas relevantes no conhecimento aplicado e na imunização contra hepatite B, evidenciando a necessidade de estratégias educativas precoces e contínuas na formação médica.
DESCRITORES: Hepatite B; Estudantes de Medicina; Educação Médica; Vacinação.
ABSTRACT
Objective: To analyze the level of knowledge about hepatitis B and vaccination coverage among first-year medical students. Methods: This is a cross-sectional, descriptive, and quantitative study conducted with 162 students from a private university in Fortaleza, Ceará, Brazil. The sample was obtained by convenience. Data were collected through a structured questionnaire developed by the authors, including questions on knowledge and vaccination status. Data was analyzed using descriptive statistics. The study was approved by the Research Ethics Committee (approval number 6,689,258). Results: Students demonstrated adequate knowledge of basic aspects of the disease; however, important gaps were identified regarding transmission routes and preventive measures. Vaccination was widely recognized, but fewer than half of the students had completed the full vaccination schedule. There was low adherence to anti-HBs serological testing and a discrepancy between perceived protection and actual immunological status. Conclusion: Students present significant gaps in applied knowledge and immunization against hepatitis B, highlighting the need for early and continuous educational strategies in medical training.
DESCRIPTORS: Hepatitis B; Medical Students; Medical Education; Vaccination.
RESUMEN
Objetivo: Analizar el conocimiento sobre la hepatitis B y la cobertura vacunal entre estudiantes de primer año de Medicina. Métodos: Estudio transversal, descriptivo y cuantitativo, realizado con 162 estudiantes de una universidad privada de Fortaleza, Ceará. La muestra fue obtenida por conveniencia. Los datos fueron recolectados mediante un cuestionario estructurado, elaborado por los autores, que contenía preguntas sobre el conocimiento y el estado vacunal. El análisis se realizó mediante estadística descriptiva. El estudio fue aprobado por el Comité de Ética en Investigación (dictamen nº 6.689.258). Resultados: Se observó un buen conocimiento sobre los aspectos básicos de la enfermedad, aunque con lagunas importantes en relación con las formas de transmisión y las medidas preventivas. La vacunación fue ampliamente reconocida, pero menos de la mitad de los estudiantes presentó un esquema vacunal completo. Se verificó una baja realización de serología anti-HBs y una discrepancia entre la percepción de protección y la condición inmunológica. Conclusión: Los estudiantes presentan lagunas relevantes en el conocimiento aplicado y en la inmunización contra la hepatitis B, lo que evidencia la necesidad de estrategias educativas tempranas y continuas en la formación médica.
DESCRIPTORES: Hepatitis B; Estudiantes de Medicina; Educación Médica; Vacunación.
INTRODUÇÃO
A hepatite B é uma infecção viral de grande relevância para a saúde pública mundial, sendo considerada uma das principais causas de morbimortalidade associada a doenças hepáticas, como cirrose e carcinoma hepatocelular. Estima-se que milhões de pessoas estejam infectadas globalmente, com distribuição universal e variações regionais de endemicidade, o que reforça a necessidade de estratégias eficazes de prevenção e controle(1).
O vírus da hepatite B apresenta alta transmissibilidade, sendo encontrado principalmente no sangue e em outros fluidos corporais, podendo ser transmitido por via sexual, contato com materiais contaminados, transfusão sanguínea e transmissão vertical. Devido à sua elevada infectividade e resistência ambiental, representa importante risco, especialmente em contextos de exposição ocupacional(2).
Entre os grupos mais vulneráveis, destacam-se os estudantes da área da saúde, que, mesmo em fases iniciais da formação, podem estar expostos a materiais biológicos e procedimentos com risco de contaminação. A inexperiência prática, associada a lacunas no conhecimento sobre biossegurança, contribui para o aumento desse risco(3). Estudos demonstram que, embora a maioria dos estudantes relate conhecimento sobre a doença, esse conhecimento frequentemente é incompleto, especialmente no que se refere às formas de transmissão e à imunização(4).
A vacinação contra hepatite B é a principal medida preventiva, com elevada eficácia na indução de imunidade. Entretanto, evidências mostram que a adesão ao esquema vacinal completo e a verificação da imunidade por meio do exame anti-HBs ainda são insuficientes entre estudantes e profissionais da saúde(5). Além disso, observa-se discrepância entre cobertura vacinal autorreferida e conhecimento sobre proteção efetiva(6).
Além disso, evidências mostram que, embora muitos estudantes apresentem conhecimento básico sobre a hepatite B, existem lacunas importantes em aspectos específicos, como formas de transmissão, medidas preventivas e condutas relacionadas à imunização, o que pode impactar negativamente as práticas de saúde(7).
Diante desse contexto, torna-se fundamental avaliar o nível de conhecimento e a situação vacinal de estudantes de medicina desde os primeiros anos da graduação, a fim de identificar fragilidades na formação e subsidiar estratégias educativas. Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo analisar o grau de conhecimento sobre hepatite B e a cobertura vacinal entre estudantes do primeiro ano do curso de Medicina de uma universidade particular de Fortaleza.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal, descritivo e de abordagem quantitativa, realizado com estudantes do primeiro ano do curso de Medicina de uma universidade particular localizada em Fortaleza, Ceará, Brasil.
A amostra foi obtida por conveniência, incluindo estudantes regularmente matriculados no primeiro ano do curso. A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado pelos autores especificamente para esta pesquisa e aplicado de forma online.
O instrumento foi composto por perguntas objetivas divididas em dois blocos: (1) dados sociodemográficos, incluindo sexo e idade; e (2) questões relacionadas ao conhecimento sobre hepatite B, abordando aspectos como agente etiológico, órgão acometido, formas de transmissão, medidas de prevenção e esquema vacinal, além de informações sobre situação vacinal e realização de exame sorológico (anti-HBs).
O questionário foi disponibilizado por meio da plataforma Google Forms®, sendo o convite para participação compartilhado entre os estudantes regularmente matriculados no primeiro ano do curso. A participação foi voluntária e condicionada à concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Os dados coletados foram organizados em planilha eletrônica e analisados por meio de estatística descritiva, sendo expressos em frequências absolutas e relativas, além de medidas de tendência central quando aplicável.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), sob o parecer nº 6.689.258, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS
Participaram do estudo 162 estudantes do primeiro ano do curso de Medicina. Observou-se predominância do sexo feminino (68,5%). A idade dos participantes variou entre 16 e 45 anos, com média de 20,1 anos e mediana de 19 anos.
Conhecimento sobre aspectos gerais da hepatite B: A maioria dos estudantes demonstrou conhecimento adequado sobre os aspectos básicos da doença. Em relação ao agente etiológico, 75,3% identificaram corretamente o vírus como causador da hepatite B, enquanto 7,4% assinalaram o vírus associado a alternativas incorretas, 16,7% erraram a questão e 0,6% não responderam. Quanto ao órgão acometido, 87,7% indicaram corretamente o fígado. As demais respostas incluíram baço (8,0%), estômago (1,9%), pâncreas (1,2%) e coração (0,6%).
Conhecimento sobre formas de transmissão: O conhecimento mostrou-se heterogêneo e incompleto. Apenas 29,0% dos estudantes identificaram corretamente todas as principais vias de transmissão (sexual, sanguínea e vertical). Uma parcela significativa dos participantes apresentou conhecimento parcial (42,6%) identificaram apenas uma ou duas vias corretas sem inclusão de alternativas incorretas, sendo 15,4% com apenas uma via correta e 27,2% com duas vias corretas. Além disso, 17,3% combinaram respostas corretas e incorretas, enquanto 4,3% assinalaram exclusivamente alternativas erradas e 1,2% não responderam.
Conhecimento sobre medidas de prevenção: A vacinação foi amplamente reconhecida (93,2%), enquanto o uso de preservativos foi mencionado por 42,6% e 1,9% relataram medidas relacionadas à prevenção de exposição a sangue ou materiais contaminados. Observou-se ainda a presença de equívocos, como a indicação do uso de máscara (3,7%).
Conhecimento sobre vacinação: Apenas 45,7% responderam corretamente que a imunização pode ser realizada em qualquer faixa etária. No entanto, 42,6% restringiram a vacinação à infância, enquanto pequenas proporções indicaram adolescência (7,4%), fase adulta (1,9%) ou após os 60 anos (1,2%).
Quanto ao número de doses necessárias para o esquema vacinal completo, apenas 47,5% responderam corretamente (três doses). Um total de 34,0% afirmou não saber, enquanto 14,2% indicaram duas doses, 1,9% uma dose e 1,2% quatro doses.
Percepção de risco após vacinação: Quando questionados sobre a possibilidade de contrair hepatite B mesmo após esquema vacinal completo, 65,4% responderam afirmativamente, 25,9% declararam não saber e 5,6% responderam negativamente.
Situação vacinal e confirmação de imunidade: A maioria dos estudantes relatou ter recebido vacinação contra hepatite B (91,4%), enquanto 8,6% afirmaram não ter sido vacinados. Entre os vacinados, apenas 39,9% relataram ter completado o esquema de três doses, enquanto 36,5% receberam duas doses, 19,6% uma dose e 2,0% quatro ou mais doses. Quanto à percepção de proteção, 59,3% consideraram-se protegidos contra a doença, 16,7% não souberam responder e 6,8% não se consideraram protegidos. A realização do exame sorológico para verificação da imunidade (anti-HBs) foi baixa, sendo relatada por apenas 11,1% dos participantes. A maioria (69,8%) nunca realizou o exame, enquanto 19,1% não souberam informar.
DISCUSSÃO
O presente estudo evidenciou que, apesar do conhecimento adequado sobre aspectos básicos da hepatite B, persistem lacunas estruturais no conhecimento aplicado e na imunização entre estudantes do primeiro ano de Medicina.
Os estudantes demonstraram bom desempenho em conteúdos conceituais, como agente etiológico e órgão acometido, o que está de acordo com a literatura(8). No entanto, observou-se que esse conhecimento não se traduz em compreensão adequada de aspectos práticos, como formas de transmissão e medidas preventivas, indicando fragilidade na consolidação do aprendizado(7). Resultados semelhantes foram descritos em estudos que evidenciam limitações no conhecimento aplicado e na imunização(4).
O conhecimento sobre transmissão mostrou-se fragmentado, com baixa proporção de estudantes capazes de identificar corretamente todas as vias de contágio. Esse achado é consistente com estudos que demonstram lacunas no entendimento das vias de transmissão entre estudantes da área da saúde(2). Considerando a alta transmissibilidade do vírus, esse déficit representa fator de risco relevante para exposição ocupacional(1). Resultados semelhantes foram descritos em outras populações acadêmicas, evidenciando persistência dessas lacunas ao longo da formação(6).
Em relação às medidas preventivas, verificou-se uma abordagem centrada predominantemente na vacinação, com menor valorização de estratégias complementares. Esse padrão também foi identificado na literatura, que destaca compreensão limitada das práticas de prevenção(9).
Embora a cobertura vacinal autorreferida tenha sido elevada, observou-se baixa completude do esquema vacinal, corroborando estudos prévios que apontam falhas na adesão e na verificação da imunidade(10). Além disso, o desconhecimento sobre o número de doses evidencia lacunas cognitivas relacionadas ao processo de imunização. Estudos recentes também demonstram discrepância entre vacinação e proteção efetiva(6).
A discrepância entre a percepção de proteção e a confirmação imunológica é um achado relevante, pois pode gerar falsa sensação de segurança. A baixa realização do exame anti-HBs é amplamente descrita entre estudantes e profissionais de saúde(5). Além disso, estudantes da área da saúde são particularmente vulneráveis devido à exposição precoce e à inexperiência prática(3), o que reforça a importância de intervenções educativas precoces.
De forma geral, os achados evidenciam lacunas críticas na formação inicial, reforçando a necessidade de integração entre teoria, prática preventiva e segurança ocupacional. Esses resultados têm implicações diretas para o currículo médico, indicando a necessidade de abordagens pedagógicas mais integradas.
Limitações do estudo
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas. Por se tratar de uma pesquisa transversal, não é possível estabelecer relações de causalidade entre as variáveis analisadas. Além disso, os dados foram obtidos por meio de questionário autoaplicável, o que pode estar sujeito a viés de resposta, incluindo superestimação do conhecimento ou da situação vacinal. Outro aspecto relevante é que o estudo foi realizado em uma única instituição de ensino, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras realidades acadêmicas. Apesar dessas limitações, os achados fornecem informações relevantes sobre lacunas no conhecimento e na imunização entre estudantes de medicina, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias educativas direcionadas.
CONCLUSÃO
Os estudantes do primeiro ano de Medicina apresentam conhecimento adequado sobre aspectos básicos da hepatite B, porém com lacunas importantes em relação às formas de transmissão, medidas preventivas e esquema vacinal.
A baixa adesão ao esquema completo e à verificação sorológica, associada à discrepância entre percepção e proteção real, evidencia vulnerabilidade à infecção.
Diante disso, torna-se necessária a implementação de estratégias educativas precoces e contínuas, com ênfase na integração entre conhecimento teórico, prática preventiva e segurança ocupacional, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados e seguros.
REFERÊNCIAS