CONTRIBUIÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL NA FUNCIONALIDADE E QUALIDADE DE VIDA EM ADULTOS COM DOR CRÔNICA

CONTRIBUTIONS OF OCCUPATIONAL THERAPY TO FUNCTIONALITY AND QUALITY OF LIFE IN ADULTS WITH CHRONIC PAIN

CONTRIBUCIONES DE LA TERAPIA OCUPACIONAL EN LA FUNCIONALIDAD Y CALIDAD DE VIDA EN ADULTOS CON DOLOR CRÓNICO

Tipo de artigo: Revisão Integrativa

Autores

Nicole Colin Ramalho
Graduada em Terapia Ocupacional – Universidade Estadual Paulista (UNESP)
ORCID:
 https://orcid.org/0009-0001-3898-9761

Bárbara de Fátima Depole
Doutora em Terapia Ocupacional – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Docente – Universidade Estadual Paulista (UNESP)
ORCID:
 https://orcid.org/0000-0003-4852-7912

RESUMO

Objetivo: Analisar os impactos da dor crônica na qualidade de vida e no desempenho ocupacional de adultos na Atenção Primária à Saúde, bem como as contribuições da Terapia Ocupacional. Método: Revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde, no período de 2020 a 2025, com inclusão de 31 estudos empíricos em português, inglês e espanhol. Excluíram-se relatos de caso, duplicatas e publicações fora do recorte temporal. Resultados: A dor crônica associa-se ao sofrimento psíquico, ansiedade e depressão, com repercussões na ruptura de papéis ocupacionais e restrição da participação social. A Terapia Ocupacional favorece a ressignificação do cotidiano, o gerenciamento da dor, autonomia, participação e adesão terapêutica. Conclusão: A Terapia Ocupacional tem papel fundamental na Atenção Primária à Saúde, ao promover intervenções voltadas à funcionalidade, autonomia e participação, contribuindo para o cuidado integral e a melhoria da qualidade de vida de pessoas com dor crônica.

DESCRITORES:

Dor crônica; Terapia Ocupacional; Qualidade de vida; Atenção Primária à Saúde; Desempenho Funcional.

ABSTRACT

Objective: To analyze the impacts of chronic pain on quality of life and occupational performance in adults in Primary Health Care, as well as the contributions of Occupational Therapy. Method: An integrative literature review was conducted in PubMed, SciELO, and the Virtual Health Library, from 2020 to 2025, including 31 empirical studies published in Portuguese, English, and Spanish. Case reports, duplicates, and studies outside the defined timeframe were excluded. Results: Chronic pain was associated with psychological distress, anxiety, and depression, leading to disruptions in occupational roles and restrictions in social participation. Occupational Therapy supports the re-signification of daily life and effective pain management, promoting autonomy, participation, and treatment adherence in individuals with chronic conditions. Conclusion: Occupational Therapy plays a fundamental role in Primary Health Care by promoting interventions focused on functionality, autonomy, and participation, contributing to comprehensive care and improving the overall quality of life of individuals with chronic pain.

DESCRIPTORS:

RESUMEN

Objetivo: Analizar los impactos del dolor crónico en la calidad de vida y el desempeño ocupacional de adultos en la Atención Primaria de Salud, así como las contribuciones de la Terapia Ocupacional. Método: Revisión integradora realizada en PubMed, SciELO y la Biblioteca Virtual en Salud, entre 2020 y 2025, con inclusión de 31 estudios empíricos en portugués, inglés y español. Se excluyeron informes de caso, duplicados y publicaciones fuera del período establecido. Resultados: El dolor crónico se asoció con sufrimiento psicológico, ansiedad y depresión, afectando los roles ocupacionales y restringiendo la participación social. La Terapia Ocupacional favorece la resignificación de la vida cotidiana, el manejo del dolor, la autonomía y la participación. Conclusión: La Terapia Ocupacional desempeña un papel fundamental en la Atención Primaria de Salud, promoviendo intervenciones centradas en la funcionalidad, la autonomía y la participación, contribuyendo al cuidado integral y a la mejora de la calidad de vida.

DESCRIPTORES:

INTRODUÇÃO

De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor, dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses, ultrapassando o tempo esperado de cicatrização tecidual¹. Trata-se de um problema de saúde pública²,³, resultante da interação entre determinantes biológicos, psicológicos e sociais⁴,⁵. Evidências indicam impactos na funcionalidade, participação ocupacional, qualidade de vida e saúde mental³,⁶,⁷, especialmente em adultos em idade produtiva, configurando causa de incapacidade, afastamento do trabalho e sobrecarga dos sistemas de saúde²,³, com maior impacto em países de média e baixa renda⁸.

Para além da dimensão clínica, a dor crônica afeta o viver cotidiano, a organização das atividades e a participação social, interferindo na autonomia e identidade ocupacional⁹. À luz do modelo biopsicossocial, compreende-se como experiência subjetiva e dinâmica, modulada por fatores emocionais, cognitivos e contextuais⁴,⁵. A literatura aponta associação com ansiedade, depressão, redução da autoeficácia⁷,¹¹, além de processos como catastrofização e medo do movimento, que limitam o engajamento ocupacional e afetam a qualidade de vida¹²,¹³,¹⁴.

Quanto ao desempenho ocupacional, observa-se impacto em atividades básicas e instrumentais da vida diária, lazer e participação social, com repercussões sobre papéis ocupacionais e projetos de vida⁹. Em adultos em idade produtiva, esses efeitos associam-se a prejuízos laborais, instabilidade financeira, pior qualidade de vida e maior vulnerabilidade psicossocial, além de relação com transtornos mentais³,⁷,⁸ e dificuldades de adesão ao tratamento¹⁵.

A Atenção Primária à Saúde constitui espaço estratégico para o cuidado longitudinal desses indivíduos, embora ainda enfrente desafios como fragmentação da assistência e manutenção de modelo centrado na doença⁵,16. Nesse cenário, a Política Nacional de Atenção Básica reforça a APS como coordenadora do cuidado e ordenadora da rede de atenção, destacando a longitudinalidade e integralidade da assistência no Sistema Único de Saúde².

Nesse contexto, a Terapia Ocupacional se destaca na identificação de barreiras ao desempenho ocupacional, reorganização do cotidiano e promoção da participação social, considerando a centralidade da ocupação na construção da saúde e qualidade de vida⁹,¹⁰.

Apesar dos avanços, persistem lacunas na sistematização das evidências sobre a atuação da Terapia Ocupacional no cuidado de adultos com dor crônica na Atenção Primária. Assim, este estudo objetiva analisar os impactos da dor crônica na qualidade de vida e no desempenho ocupacional de adultos nesse nível de atenção, considerando a influência de aspectos da saúde mental e as contribuições da Terapia Ocupacional para o cuidado integral dessa população.

MÉTODO

Trata-se de revisão integrativa da literatura, de abordagem descritiva, conduzida com base no referencial metodológico de Mendes, Silveira e Galvão17, que prevê etapas sistemáticas de síntese do conhecimento, assegurando rigor e reprodutibilidade.

A revisão foi orientada pela questão norteadora: “Como a dor crônica interfere nos papéis ocupacionais e na qualidade de vida de adultos entre 18 e 60 anos na Atenção Primária à Saúde?”. A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde, entre 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol.

Foram utilizados descritores do DeCS combinados pelos operadores booleanos AND e OR: “Dor Crônica”, “Terapia Ocupacional”, “Qualidade de vida”, “Desempenho Ocupacional” e “Atenção Primária à Saúde”.

Os critérios de inclusão contemplaram estudos empíricos e revisões sistemáticas que abordassem a relação entre dor crônica musculoesquelética e reumática, saúde mental e desempenho ocupacional em adultos de 18 a 60 anos, disponíveis na íntegra. Excluíram-se estudos duplicados, sem acesso completo, não indexados em bases científicas e aqueles em que a dor crônica estivesse associada predominantemente a condições neurológicas graves, neoplásicas ou a contextos clínicos específicos de alta complexidade, a fim de evitar vieses relacionados a particularidades fisiopatológicas.

A seleção seguiu as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), adaptadas para revisões integrativas, em duas etapas: leitura de títulos e resumos para identificação de relevância e, posteriormente, análise integral dos textos elegíveis conforme critérios estabelecidos. Ao final, 31 estudos compuseram o corpus da revisão.

A extração de dados foi realizada em planilha estruturada com informações sobre autoria, ano, objetivos, delineamento e principais achados. A análise seguiu a técnica de Análise de Conteúdo¹⁸, permitindo identificar núcleos de sentido e organizar os achados em eixos temáticos.

RESULTADOS

A análise dos 31 estudos selecionados permitiu traçar um panorama detalhado sobre a realidade dos adultos assistidos na Atenção Primária. Inicialmente, foram compilados dados para caracterizar o perfil da amostra pesquisada. 

A Tabela 1 sintetiza as principais variáveis sociodemográficas e clínicas, evidenciando os fatores que configuram o cenário da dor crônica na saúde pública entre 2020 e 2025.

Tabela 1 – Características sociodemográficas e clínicas de adultos com dor crônica na Atenção Primária à Saúde, 2020–2025.

Variáveis

Características predominantes

Idade média

Aproximadamente 48 anos

Sexo predominante

Feminino

Tempo de dor

Superior a 5 anos

Intensidade da dor

Intensa

Comorbidades

Frequentemente associadas

Fonte: Elaborada pela autora, 2026.

A partir da caracterização da amostra, a análise avançou para impactos subjetivos e coletivos do quadro álgico. A Tabela 2 sintetiza repercussões nas dimensões emocional, cognitiva, social e funcional e seus desdobramentos na saúde mental. Os dados mostram que a dor ultrapassa o limite biológico, comprometendo a integridade psíquica e suporte social.

Tabela 2. Repercussões psicossociais e indicadores de saúde mental associados à dor crônica

Dimensão

Repercussões Identificadas

Indicadores de Saúde Mental

Magnitude / Caracterização

Emocional

Ansiedade, depressão, desesperança

Ansiedade; Depressão; Sofrimento psíquico

Elevada; Moderada a elevada; Frequente

Cognitiva

Catastrofização, hipervigilância

Transtornos de humor; Sofrimento psíquico

Alta prevalência; Frequente

Social

Isolamento, retração social

Sofrimento psíquico

Frequente

Ocupacional

Perda de papéis ocupacionais, redução da produtividade

Impacto funcional

Significativo

Funcional

Fadiga, limitação física

Impacto funcional

Significativo

Fonte: Elaborada pela autora, 2026.

Diante das repercussões, analisou-se a interação entre enfrentamento e desfechos em saúde. A Tabela 3 sintetiza as relações entre resiliência, saúde mental e percepção da dor, associadas à funcionalidade e qualidade de vida. Os achados evidenciam capacidades adaptativas como mediadoras do impacto da dor no cotidiano.

Tabela 3. Relações entre resiliência, dor, saúde mental e funcionalidade em adultos com dor crônica (2020–2025)

Variáveis correlacionadas

Tipo de relação

Resiliência × Depressão

Negativa

Resiliência × Ansiedade

Negativa

Resiliência × Intensidade da dor

Negativa

Resiliência × Funcionalidade

Positiva

Resiliência × Qualidade de vida

Positiva

Fonte: Elaborada pela autora, 2026.

Por fim, foram analisados os determinantes da adesão terapêutica e continuidade do cuidado. A Tabela 4 sintetiza fatores individuais, psicossociais e contextuais que influenciam a adesão na dor crônica. Compreendê-los é essencial para a Terapia Ocupacional formular estratégias eficazes, capazes de reduzir barreiras ao engajamento na reabilitação.

Tabela 4. Fatores relacionados à adesão terapêutica em adultos com dor crônica na Atenção Primária à Saúde (2020–2025)

Dimensão

Barreiras Identificadas

Facilitadores Identificados

Intrínseca

Cinesiofobia e medo do movimento

Estratégias de enfrentamento gradual do movimento

Psicológica

Ansiedade, depressão e baixa motivação

Fortalecimento emocional e suporte psicossocial

Socioeconômica

Baixa renda e limitações de transporte

Apoio social e articulação com recursos comunitários

Ambiental

Ausência de espaços adequados para práticas terapêuticas

Adaptação de ambientes e uso de recursos acessíveis

Organizacional

Dificuldade de acesso aos serviços de saúde

Ampliação do acesso e continuidade do cuidado

Profissional

Práticas pouco centradas no cotidiano

Intervenção centrada no cotidiano e nas ocupações

Educacional

Baixo nível de informação sobre dor e autocuidado

Educação em dor e promoção do autocuidado funcional

Ocupacional

Dificuldade de organização e engajamento em atividades

Planejamento gradual de atividades significativas

Social

Isolamento e baixa rede de apoio

Grupos terapêuticos e fortalecimento do apoio comunitário

Motivacional

Baixa autoeficácia e baixa percepção de capacidade funcional

Promoção da autoeficácia, engajamento ocupacional e senso de capacidade funcional

Fonte: Elaborada pela autora, 2026

A síntese dos achados evidencia estratégias de enfrentamento e reabilitação voltadas à autonomia. A Tabela 5 sistematiza impactos da dor crônica e intervenções da Terapia Ocupacional na funcionalidade e participação social, destacando sua eficácia na redução de barreiras e no fortalecimento do protagonismo.

Tabela 5. Impactos da dor crônica e intervenções em Terapia Ocupacional nos diferentes domínios do desempenho ocupacional (2020–2025)

Dimensão

Principais Impactos

Intervenções em Terapia Ocupacional

Dor

Dor persistente e fadiga

Educação em dor e estratégias de manejo de energia

Saúde mental

Ansiedade e depressão

Intervenções psicossociais e ressignificação ocupacional

Funcionalidade

Redução da independência

Treino de AVD/AIVD e adaptação funcional

Papéis ocupacionais

Perda de papéis produtivos e sociais

Reorganização da rotina e reinserção ocupacional

Participação social

Isolamento e restrição da participação

Intervenções grupais e comunitárias

Qualidade de vida

Alterações na percepção de qualidade de vida

Promoção do engajamento em atividades significativas e bem-estar

Atenção Primária

Barreiras estruturais no acesso e continuidade do cuidado

Cuidado interdisciplinar centrado na ocupação

Fonte: Elaborada pela autora,2026.

DISCUSSÃO

A integração analítica dos achados permite compreender a dor crônica na Atenção Primária à Saúde (APS) como fenômeno que transcende a nocicepção, configurando-se como experiência que desestrutura a identidade ocupacional do sujeito⁴,⁵. Ao confrontar os dados das Tabelas 1 a 5, observa-se que a dor atua como agente de ruptura em papéis significativos (trabalho, lazer e autocuidado). Essa complexidade corrobora o modelo biopsicossocial, exigindo que o cuidado na APS acolha subjetividade e contexto sociocultural do adulto em idade produtiva.

Os dados da Tabela 1 corroboram que a dor crônica, ao acometer indivíduos em idade produtiva, transcende o diagnóstico clínico e se impõe como barreira ao engajamento ocupacional. Na Atenção Primária, essa caracterização sociodemográfica é fundamental para compreender que as demandas desse ciclo de vida sofrem ruptura. A predominância feminina e a associação com comorbidades refletem padrões descritos na literatura, incluindo maior vulnerabilidade e desigualdades sociais⁹,¹⁹. Esse cenário contribui para cronificação da dor e sua naturalização no cotidiano, sustentada por impactos psicossociais associados à condição¹,³,⁶.

Os achados da Tabela 2 evidenciam que as repercussões da dor crônica extrapolam o domínio nociceptivo, operando desestruturação multidimensional que alcança esferas emocional, cognitiva e social do sujeito. Sob a lente da Ciência Ocupacional, essa realidade traduz-se como ruptura nos papéis ocupacionais e no engajamento em atividades significativas⁹,¹⁰,²⁰. Essa ruptura pode ser compreendida, à luz da Terapia Ocupacional, como desequilíbrio entre o "ser", o "fazer" e o "tornar-se", elementos centrais do engajamento humano em ocupações¹⁰,¹⁴. A dor torna-se elemento intrusivo que fragmenta o cotidiano, resultando em sofrimento psíquico que retroalimenta a incapacidade funcional e restringe a participação social⁵,²²,⁶.

A presença de ansiedade e depressão confirma o sofrimento psíquico como componente central da experiência dolorosa, com relação bidirecional com a dor. Fatores como catastrofização e medo do movimento associam-se à pior funcionalidade e maior incapacidade¹²–¹⁴, impactando qualidade de vida e engajamento nas atividades cotidianas⁷,¹¹.

Ao analisarmos a interdependência das variáveis da Tabela 3, depreende-se que a resiliência não deve ser compreendida como atributo inato, mas como recurso dinâmico de enfrentamento que modula a experiência subjetiva da dor. Assim, a resiliência destaca-se como fator protetor associado à menor intensidade da dor, melhor regulação emocional e maior funcionalidade²³,²⁴. Sua relação com autoeficácia reforça o papel de recursos psicológicos na adesão e no engajamento ocupacional⁹,¹².

A adesão terapêutica, evidenciada na Tabela 4, é influenciada por múltiplos determinantes. Barreiras como dor persistente e sofrimento psíquico são descritas⁶,¹⁵,²⁵. Em contrapartida, educação em dor, suporte social e intervenções centradas no cotidiano favorecem engajamento e desfechos clínicos²⁰,²⁶,²⁷, indicando que a adesão é processo ativo e contextual.

A Tabela 5 evidencia a centralidade do desempenho ocupacional como desfecho terapêutico. Intervenções voltadas ao engajamento em ocupações significativas, adaptação de atividades e reorganização do cotidiano contribuem para funcionalidade e qualidade de vida¹⁰,¹⁹,²¹. Nesse cenário, a Terapia Ocupacional integra dimensões físicas, emocionais e sociais, promovendo autonomia e participação ocupacional e favorecendo a qualidade de vida, ao considerar a interação entre dor crônica, estado de humor e bem-estar psicológico¹⁰,¹⁹,²¹,²⁸.

Por fim, a síntese apresentada materializa o cerne da intervenção terapêutico-ocupacional: a transposição da barreira clínica para conquista da participação social. As evidências demonstram que, quando o foco do cuidado se desloca da redução do limiar álgico para a recuperação da funcionalidade, o sujeito resgata sua agência no mundo¹⁰,²¹. As intervenções em Terapia Ocupacional, ao operarem sobre o cotidiano e o ambiente, funcionam como dispositivos de emancipação, permitindo reorganização do projeto de vida²⁰. Assim, a atuação na Atenção Primária reafirma-se como compromisso com autonomia e qualidade de vida²,¹⁹.

De forma integrada, os achados mostram que a dor crônica produz desorganização progressiva do cotidiano, com retroalimentação entre sofrimento psíquico, limitações funcionais e restrições sociais. Esse processo reduz a participação ocupacional e compromete a qualidade de vida, enquanto resiliência e suporte social atuam como fatores protetores²³,²⁶.

Assim, reforça-se a necessidade de abordagens integradas na Atenção Primária à Saúde, articulando cuidado clínico, suporte psicossocial e intervenções ocupacionais com ações de equipes multidisciplinares²⁹. Também se destaca a necessidade de ampliar estudos sobre intervenções ocupacionais e estratégias de fortalecimento da resiliência, adesão terapêutica e enfrentamento da dor³⁰,³¹.

Em síntese, compreender a dor crônica sob perspectiva ampliada exige reconhecer que seu enfrentamento transcende a remissão do sintoma físico, demandando reconstrução do viver cotidiano e resgate do sentido das ocupações. Nesse cenário, a Terapia Ocupacional consolida-se como saber estratégico na Atenção Primária, pois atua na interface entre subjetividade e participação social. Ao viabilizar o engajamento em atividades significativas, o terapeuta ocupacional promove funcionalidade e reabilitação da vida, assegurando que dignidade e autonomia permaneçam como eixos centrais no cuidado integral à saúde do adulto.

CONCLUSÃO

A presente revisão evidenciou que a dor crônica na Atenção Primária à Saúde configura-se como fenômeno de vulnerabilidade ocupacional, cujas repercussões extrapolam a dimensão biológica e comprometem saúde mental e projeto de vida de adultos. Trata-se de condição multifatorial, em que a interação entre sofrimento psíquico, fragilidade da resiliência e barreiras funcionais resulta em ruptura de papéis ocupacionais e restrição da participação social.

Observou-se que a adesão terapêutica não se restringe à esfera individual, sendo influenciada por determinantes psicossociais e contextuais que demandam escuta qualificada. Nesse cenário, a Terapia Ocupacional destaca-se no cuidado integral ao promover a ressignificação do fazer cotidiano, deslocando o foco da patologia para potencialidades do sujeito e favorecendo autonomia e dignidade ocupacional, embora ainda careça de maior sistematização.

Por fim, ressalta-se a necessidade de fortalecer investigações que abordem a dor sob a perspectiva da Ciência Ocupacional, bem como ampliar práticas interdisciplinares centradas na pessoa. A consolidação de uma clínica ampliada e orientada pela integralidade é fundamental para superar o manejo sintomático e promover melhoria na qualidade de vida dessa população.

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