A ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO NA ESCOLA: DESNATURALIZANDO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER ENTRE ADOLESCENTES
THE ROLE OF NURSES IN SCHOOLS: DENATURALIZING VIOLENCE AGAINST WOMEN AMONG ADOLESCENTS
EL PAPEL DE LAS ENFERMERAS EN LAS ESCUELAS: DESNATURALIZANDO LA VIOLENCIA CONTRA LAS MUJERES ADOLESCENTES
franciele.dionato@professores.unimetrocamp.edu.br
Isabelle da Silva Lemos
Graduanda em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, aluna de extensão à comunidade na disciplina de Assistência de Enfermagem na Saúde da Mulher.
ORCID: https://orcid.org/0009-0001-8489-4456
Júlia Rosa Conceição
Graduanda em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, aluna de extensão à comunidade na disciplina de Assistência de Enfermagem na Saúde da Mulher.
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9897-7599
Hellen Maria de Lima Graf Fernandes
Docente da graduação de enfermagem da Faculdade IElUSC, orientadora de trabalhos de conclusão de curso.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0716-0950
Paula Rocco Gomes Lima
Docente da graduação em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, orientadora de projetos de extensão à comunidade e/ou trabalhos de conclusão de curso.
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9601-0999
Maria Andréia da Silva Ribeiro
Docente da graduação em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, orientadora de projetos de extensão à comunidade e/ou trabalhos de conclusão de curso.
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9575-6668
Valéria Aparecida Masson
Docente da graduação em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, orientadora de projetos de extensão à comunidade e/ou trabalhos de conclusão de curso.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5076-635X
Simone Carmargo de Oliveira Rossignolo
Docente da graduação em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, orientadora de projetos de extensão à comunidade e/ou trabalhos de conclusão de curso.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9381-215X
Franciele Aparecida Vecchia Dionato
Docente da graduação em Enfermagem na Unimetrocamp Wyden Campinas, orientadora de projetos de extensão à comunidade, inclusive deste projeto.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0517-6366
Resumo
Objetivo: A intervenção pedagógica realizada em uma escola estadual de Campinas, interior de São Paulo, avaliou o conhecimento de alunos do ensino médio sobre a violência de gênero. Método: A metodologia, mediada por um enfermeiro educador, incluiu diagnóstico, questionários e rodas de conversa. Resultados: Inicialmente, embora todos conhecessem o tema, a compreensão sobre formas específicas de abuso era limitada, e apenas 63% acreditavam na igualdade de direitos, resistência ligada ao machismo estrutural e à dissonância cognitiva. Os resultados pós-intervenção foram expressivos: 88,9% dos estudantes passaram a identificar situações de violência e 96,3% sentiram-se preparados para agir. Relatos colhidos expuseram realidades graves, como assédio por autoridades e controle comportamental. Conclusão: O estudo conclui que a educação é o instrumento vital para romper a naturalização do abuso, transformando percepções e capacitando os jovens para enfrentar a violência moral, psicológica e física, garantindo assim um futuro mais seguro para essas mulheres.
DESCRITORES: Enfermagem; Violência contra a mulher; Educação em saúde; Enfermeiros.
ABSTRACT
Objective: A pedagogical intervention conducted in a state school in Campinas, interior of São Paulo, in 2025 assessed the knowledge of high school students about gender-based violence. Method: The methodology, mediated by a nurse educator, included diagnosis, questionnaires, and group discussions. Results: Initially, although all students were familiar with the topic, their understanding of specific forms of abuse was limited, and only 63% believed in equal rights, a resistance linked to structural sexism and cognitive dissonance. The post-intervention results were significant: 88.9% of the students were able to identify situations of violence, and 96.3% felt prepared to act. Collected accounts revealed serious realities, such as harassment by authority figures and behavioral control. Conclusion: The study concludes that education is the vital instrument to break the normalization of abuse, transforming perceptions and empowering young people to confront moral, psychological, and physical violence, thus ensuring a safer future for these women.
DESCRIPTORS: Nursing; Violence against women; Health education; Nurses.
RESUMEN
Objetivo: Una intervención pedagógica realizada en una escuela pública de Campinas, interior de São Paulo, evaluó el conocimiento de estudiantes de bachillerato sobre la violencia de género. Método: La metodología, mediada por una enfermera educadora, incluyó diagnóstico, cuestionarios y discusiones grupales. Resultados: Inicialmente, si bien todos los estudiantes estaban familiarizados con el tema, su comprensión de las formas específicas de abuso era limitada, y solo el 63% creía en la igualdad de derechos, una resistencia vinculada al sexismo estructural y la disonancia cognitiva. Los resultados posteriores a la intervención fueron significativos: el 88.9% de los estudiantes pudo identificar situaciones de violencia, y el 96.3% se sintió preparado para actuar. Los testimonios recopilados revelaron realidades graves, como el acoso por parte de figuras de autoridad y el control conductual. Conclusión: El estudio concluye que la educación es el instrumento vital para romper la normalización del abuso, transformando las percepciones y empoderando a los jóvenes para enfrentar la violencia moral, psicológica y física, asegurando así un futuro más seguro para estas mujeres.
DESCRIPTORES: Enfermería; Violencia contra las mujeres; Educación para la salud; Personal de enfermería.
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher configura-se como um fenômeno histórico, sustentado por estruturas patriarcais e machistas que naturalizam desigualdades de gênero e legitimam práticas abusivas em diferentes espaços sociais, inclusive no ambiente escolar (1).
O espaço escolar, por ser um local de socialização e construção de valores, não está isento da reprodução desses comportamentos. Nessas instituições, a violência pode se manifestar de diversas formas – física, psicológica, moral ou sexual – afetando especialmente alunas e professoras (2, 3).
Estudos indicam que essa violência está ligada à construção cultural da sexualidade feminina, marcada pela objetificação e submissão, uma herança da colonização patriarcal no Brasil que se perpetua há séculos (4). Além disso, apesar de avanços legais e políticas protetivas, a violência de gênero persiste, o que reforça a urgência de implementar práticas educativas que promovam a igualdade de gênero e desafiem essas estruturas opressoras (4).
A falta de diretrizes claras sobre gênero, sexualidade e violência em documentos educacionais oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dificulta o enfrentamento crítico dessas questões no cotidiano escolar (5). Vale ressaltar que a violência escolar dirigida a meninas e adolescentes tende a se entrelaçar com a violência de gênero, reforçando estigmas e ampliando vulnerabilidades (5).
Por outro lado, experiências intersetoriais envolvendo escolas, famílias e serviços de saúde têm se mostrado eficazes na promoção de uma cultura de paz e na abordagem de situações de violência por meio de oficinas educativas, mediação de conflitos e fortalecimento comunitário (6).
Discutir a violência contra a mulher no espaço escolar, portanto, revela-se essencial para desnaturalizar práticas discriminatórias, promover relações mais igualitárias e assegurar às meninas e mulheres o direito a uma educação segura. Além disso, trabalhar essa temática com as novas gerações contribui para a mudança de mentalidade e de cultura na sociedade em geral, plantando sementes de transformação social no combate ao machismo.
Diante desse contexto de vulnerabilidade e da lacuna de debates estruturados sobre gênero na escola, surgiu a motivação para a realização de uma atividade de extensão universitária voltada à prevenção da violência contra a mulher no ambiente escolar.
Acreditando no potencial da educação em saúde para catalisar mudanças, a equipe extensionista – composta por graduandas de Enfermagem e docente orientadora – propôs uma intervenção pedagógica em uma escola pública de ensino médio na cidade de Campinas/SP, com enfoque na sensibilização e conscientização dos estudantes sobre a temática. A seguir, descrevemos de forma reflexiva essa experiência, suas etapas, desafios, impressões e os aprendizados decorrentes da vivência prática do projeto.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo e exploratório de relato de experiencia que descreve uma experiência de intervenção pedagógica realizada em uma escola pública estadual de ensino médio, que atende jovens de todas as regiões, na cidade de Campinas interior do estado de São Paulo (SP), no segundo semestre de 2025. O público-alvo foi uma turma de 27 alunos do 2º ano do ensino médio.
O método consistiu em três etapas principais: planejamento e diagnóstico situacional, execução da atividade extensionista e avaliação dos resultados obtidos.
Na etapa do planejamento e diagnóstico situacional foi realizada uma visita a unidade escolar. Por meio de conversas com professores da turma foi levantado a necessidade de abordar o tema. O diagnóstico situacional consiste na análise crítica e sistemática da realidade de uma unidade de saúde ou comunidade, indo além da simples coleta de dados. Seu objetivo é identificar não apenas os problemas e necessidades de saúde, mas também as causas, os nós críticos e as potencialidades locais para fundamentar a tomada de decisão (7).
A execução envolveu a implementação de um encontro com o tema violência contra a mulher, nesse encontro contemplou-se questionário pré-teste, apresentação do tema, diálogo aberto, roda de conversas e questionário pós teste; e, avaliação, que utilizou os resultados dos questionários para validar as concepções sobre a temática, antes e depois da aplicação da aula e dinâmica em grupo, tudo isso preservando até mesmo a coleta de qualquer dado sensível.
Por se tratar de um relato de experiência, o estudo dispensa apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, foi-se respeitado os princípios da Resolução CNS nº 466/2012 e nº 510/2016 (8, 9).
RESULTADOS
A escola é um local de socialização e construção de valores. Partindo disto, os enfermeiros, como educadores em saúde, podem contribuir não apenas para a prevenção da violência, mas também para a implantação de uma cultura de respeito, cidadania e igualdade.
A problemática identificada por meio do diagnóstico situacional foi que o tema da violência contra a mulher ainda é encoberto e suas subdivisões ainda não foram totalmente difundidas.
Dos dados apreciados, observou-se que os alunos responderam às perguntas que lhes foram feitas, sem titubear. Quanto ao sexo, mais da metade referiram ser do sexo feminino.
Das perguntas, todos participantes afirmaram já ter ouvido falar sobre violência contra a mulher e reconheceram que esse tipo de violência também pode ocorrer no ambiente escolar. Essas duas respostas trouxeram a reflexões importantes sobre o reconhecimento da violência de gênero.
O reconhecimento da violência de gênero, bem como a identificação de suas múltiplas formas (física, psicológica, moral, sexual e patrimonial) é o primeiro e mais importante passo para a interrupção do ciclo da violência, pois desnaturaliza o abuso e permite o acesso aos mecanismos de proteção e apoio estabelecidos pela legislação (10).
Além de reconhecer a violência de gênero, faz-se necessário nomear e identificar a violência para a reconstrução da autonomia e autoestima da vítima, permitindo que ela se liberte do isolamento e da culpa, e atue de forma ativa na busca por justiça e garantia de seus direitos humanos (11).
Nas respostas foi observado que a nomeação dos tipos de violência ainda era deficiente. Portanto, aqui já houve uma abordagem, em apresentar os tipos de violência mais conhecido. A violência patrimonial foi uma surpresa geral, ou seja, poucos participantes sabiam que ela existia.
A violência patrimonial é desconhecida não só pelos estudantes, mas também pela população no geral. No atlas da violência de 2025, são citadas as seguintes notificações de violência contra as mulheres: física, psicológica, sexual, negligência, múltipla e outra (12). A violência patrimonial é informada como um obstáculo silencioso (12).
Na sequência do questionário, em relação à igualdade de gênero, observou-se que pouco mais da metade acreditavam, no momento, que homens e mulheres possuem os mesmos direitos.
Este fato por estar ligado a múltiplos fatores. Um dele é ao funcionamento da mente humana que processa novas informações com base no que já está estabelecido. Se uma nova ideia colide com a estrutura de crenças existente, a tendência é rejeitá-la para manter a coerência interna (13, 14, 15).
Não acreditar na igualdade de gênero, além de tudo, pode estar relacionado ao machismo estrutural, no qual as pessoas não querem acreditar em fatos que ameacem sua identidade social, por exemplo a mulher como cuidadora ou a dona de casa; ou, para manter a coesão do grupo ao qual pertencem (político, religioso, profissional) é mais fácil não acreditar. A descrença serve como uma defesa psicológica contra a ameaça (16).
Ainda, não acreditar em direitos iguais é o resultado de que mulher está desprotegida há séculos, por que este seria o momento de proteção? Em virtude disso, obtém-se uma resposta adaptativa e racional a um histórico de discriminação e exploração por parte das instituições que deveriam servir para protegê-las"(17). Essa descrença é frequentemente justificada pela experiência direta de barreiras, negligência ou microagressões em ambientes institucionais (18).
A descrença na igualdade de gênero também pode fazer jus ao citado por Freire, para indivíduos que enfrentam violência diária, a urgência de um problema de longo prazo ou uma ameaça distante pode ser despriorizada em relação às necessidades de sobrevivência imediatas, a descrença aqui é uma questão de prioridade contextual (19).
No desenrolar do questionário, logo após a apresentação e o diálogo, a maioria dos alunos responderam que conseguem identificar situações de violência de gênero dentro da escola. Por mais que seja um aprendizado duro, ver a violência e identificá-la como algo errado é sinal de que houve um aprendizado, ou seja, uma métrica do sucesso pedagógico (20).
Posteriormente, a maioria dos alunos se sentem mais preparados para agir diante de uma situação de violência, informaram também que a conversa ajudou na reflexão sobre atitudes desrespeitosas do dia a dia.
Por fim, nas respostas das duas questões abertas sobre a reflexão sobre a violência contra a mulher que pode ocorrer no ambiente escolar, os alunos puderam adicionar suas vivências, conhecimentos, críticas, elogios ou sugestões. Os exemplos mais marcantes foram:
“Quando uma menina "recusa" o flerte de um homem e ele xinga ela para todo mundo "puta, piranha, rodada".
“Moral, vejo muitos meninos após terminarem espalharem diversas coisas que afetam a confiança e a integridade da menina.”
Tais atos buscam descredibilizar, humilhar e isolar socialmente a mulher, atacando sua honra e imagem. No primeiro caso, é uma reação punitiva à recusa (desejo de controle sobre o corpo e a sexualidade feminina); no segundo, é uma forma de perpetuar o controle e o poder sobre a ex-parceira. A violência psicológica, muitas vezes subestimada, é o tipo mais frequente e é o primeiro passo para a escalada de agressões (21).
“Já presenciei um namorado de uma colega proibindo ela de usar um short.”
Esta proibição reflete a naturalização da posse e a crença de que o parceiro tem o direito de ditar as normas de conduta e aparência da mulher. Isso restringe a liberdade individual e a autonomia da mulher sobre o próprio corpo e suas escolhas. É uma tática de controle que precede, muitas vezes, o isolamento social e outras formas mais graves de violência, como a patrimonial, onde a pessoa começa a controlar a vida, o dinheiro e as amizades da parceira (22).
“Quando um professor “esbarra” a mão em alguma aluna.”
A violência sexual não se limita ao estupro, incluindo qualquer ato que constranja a mulher a práticas sexuais ou a contato físico não desejado, como o assédio sexual. A conduta do professor é uma exploração da vulnerabilidade da aluna e uma grave quebra de confiança institucional. A violência de gênero, neste contexto, é facilitada pela posição de poder do agressor (professor) sobre a vítima (aluna), que dificulta a denúncia por medo de represália acadêmica ou descredibilização (23).
A análise dos resultados demonstra que a intervenção pedagógica cumpriu um papel catalisador na quebra de silêncios históricos dentro do ambiente escolar. Embora a violência contra a mulher fosse um tema conhecido de forma genérica, a dificuldade inicial dos alunos em nomear formas específicas de abuso — como a violência patrimonial e moral — evidencia o quanto o machismo estrutural opera por meio da invisibilidade. A resistência de uma parcela dos estudantes em aceitar a igualdade de direitos reforça que o ambiente escolar não é uma bolha isolada, mas um reflexo das barreiras psicológicas e sociais que protegem o status quo patriarcal.
Contudo, houve um aumento na capacidade de identificação de situações abusivas pós-intervenção e a prontidão para agir, referidas pelos estudantes, confirmam que o aprendizado crítico é o principal antídoto contra a naturalização do abuso. Os relatos compartilhados pelos alunos sobre controle de vestimentas, difamação pós-término e assédio por figuras de autoridade mostram que a violência de gênero nas escolas é cotidiana e multifacetada. Ao nomear esses atos como "errados", os estudantes deixam de ser espectadores passivos e iniciam um processo de internalização ética indispensável para a cidadania.
CONCLUSÃO
O estudo conclui que a escola é um território estratégico para o enfrentamento da violência de gênero. A atuação de profissionais, como enfermeiros e educadores, é vital para desnaturalizar abusos, nomear as diversas formas de violência e reconstruir a autonomia das vítimas. A educação das novas gerações surge, portanto, como o caminho indispensável para uma mudança profunda na cultura da população.
REFERÊNCIAS
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ANEXOS
Anexo 1 – Figura para acrescentar no artigo
Imagem 1 – Ao fundo slide apresentado durante as perguntas e respostas para intervenção imediata, e, a frente um exemplar do mimo de participação.