Impacto das variáveis ambientais sobre zoonoses e arboviroses no Brasil na perspectiva da Saúde Única: revisão integrativa
Impact of environmental variables on zoonoses and arboviruses in Brazil from a One Health perspective: an integrative review
Impacto de las variables ambientales en las zoonosis y arbovirosis en Brasil desde la perspectiva de Una Salud: revisión integradora
RESUMO
Objetivo: analisar e sintetizar as evidências disponíveis na literatura científica acerca da relação entre as alterações no uso da terra e na cobertura vegetal e a ocorrência de zoonoses e arboviroses. Método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura nas bases de dados PubMed, BVS e SciELO. Foram incluídos 22 estudos nos idiomas inglês e português. Resultados: A maioria dos estudos foram realizados na Amazônia brasileira, as principais doenças foram leishmanioses, malária e arboviroses, associadas a fatores como desmatamento, perda de cobertura vegetal, mudanças no uso da terra, urbanização, expansão agropecuária e mudanças climáticas. As alterações ambientais favorecem a proliferação de vetores, intensificam o contato entre humanos e animais e aumentam o risco de transmissão de zoonoses. Conclusão: todas as alterações ambientais associadas ao aumento da temperatura e da densidade populacional ampliam os riscos epidemiológicos, reforçando a importância de políticas de conservação ambiental, planejamento urbano e manejo sustentável dos recursos naturais para a promoção da Saúde Única.
Descritores: Arboviroses; Conservação dos Recursos Naturais; Mudanças climáticas; Saúde única; Zoonoses.
ABSTRACT
Objective: To analyze and synthesize evidence from the scientific literature regarding the relationship between changes in land use and vegetation cover and the occurrence of zoonoses and arboviral diseases. Method: This is an integrative literature review using the PubMed, BVS, and SciELO databases. Twenty-two studies in English and Portuguese were included. Results: Most studies were conducted in the Brazilian Amazon; the primary diseases identified were leishmaniasis, malaria, and arboviral diseases, associated with factors such as deforestation, loss of vegetation cover, land-use changes, urbanization, agricultural expansion, and climate change. Environmental changes foster vector proliferation, intensify human-animal contact, and increase the risk of zoonosis transmission. Conclusion: Environmental changes associated with rising temperatures and population density heighten epidemiological risks, underscoring the importance of policies for environmental conservation, urban planning, and sustainable natural resource management in promoting One Health.
Descriptors: Arboviral infections; Conservation of natural resources; Climate change; One Health; Zoonoses.
RESUMEN
Objetivo: analizar y sintetizar la evidencia disponible en la literatura científica sobre la relación entre las alteraciones en el uso del suelo y la cobertura vegetal y la aparición de zoonosis y arbovirosis. Método: se trata de una revisión integradora de la literatura en las bases de datos PubMed, BVS y SciELO. Se incluyeron 22 estudios en inglés y portugués. Resultados: la mayoría de los estudios se realizaron en la Amazonia brasileña; las principales enfermedades fueron leishmaniasis, malaria y arbovirosis, asociadas a factores como la deforestación, la pérdida de cobertura vegetal, los cambios en el uso del suelo, la urbanización, la expansión agropecuaria y el cambio climático. Las alteraciones ambientales favorecen la proliferación de vectores, intensifican el contacto entre humanos y animales y aumentan el riesgo de transmisión de zoonosis. Conclusión: todas las alteraciones ambientales asociadas al aumento de la temperatura y de la densidad poblacional incrementan los riesgos epidemiológicos, lo que refuerza la importancia de las políticas de conservación ambiental, la planificación urbana y la gestión sostenible de los recursos naturales para promover el enfoque de "Una Sola Salud" (One Health).
Descriptores: Arbovirosis; Conservación de los recursos naturales; Cambio climático; Una Salud; Zoonosis.
INTRODUÇÃO
O conceito de "One Medicine" foi formulado no século XX pelo epidemiologista Calvin Schwabe, propondo a integração entre a saúde humana e a saúde animal1-2. Com o avanço das discussões globais, essa abordagem evoluiu para o conceito de Saúde Única (One Health), fortalecido internacionalmente pelo painel OHHLEP e respaldado pela Organização Mundial da Saúde3-4, o qual permite compreender como as dinâmicas do ecossistema impactam diretamente a saúde coletiva.
Evidenciando essa relação ambiental, um estudo conduzido na Nigéria5 — em consonância com discussões sobre microclimas urbanos6 — demonstrou como a cobertura vegetal influencia o clima das cidades, ressaltando que a urbanização desordenada e a substituição da vegetação por superfícies antrópicas causam o aumento da temperatura local e a perda de áreas verdes.
A supressão da vegetação — decorrente do desmatamento e de outras atividades humanas — cria cenários favoráveis para a proliferação de vetores e a emergência de zoonoses, como a leishmaniose visceral7. Essa enfermidade acomete tanto a população humana quanto os animais, a exemplo dos cães pela leishmaniose visceral canina (LVC), ilustrando de que modo o manejo inadequado de resíduos sólidos e do meio ambiente compromete o bem-estar integrado entre seres humanos e animais8-9. Esses e outras questões ambientais como poluição e mudanças climáticas refletem a necessidade de vigilância e cuidado com o meio ambiente, para assim evitarmos o contágio de zoonoses, e contaminação de patógenos na alimentação, reforçando que o conceito de saúde está intimamente interligado com saúde humana, animal e ambiental2 .
Segundo o Ministério da Saúde10, as arboviroses — enfermidades virais transmitidas por artrópodes — consolidam-se a partir da interação entre os vetores e as populações humanas. Esse processo é acentuado em cenários urbanos adensados, nos quais o mosquito Aedes aegypti encontra alta densidade populacional e temperaturas elevadas favoráveis à manutenção do seu ciclo reprodutivo e à expansão da transmissão de zoonoses e arboviroses10-11.
Paralelamente, as intensas mudanças no uso e na cobertura da terra, caracterizadas pela substituição de áreas florestais por pastagens e pela degradação da vegetação ripária, comprometem a qualidade do meio ambiente e o bem-estar humano e animal. Essas alterações antrópicas deflagram processos erosivos e a lixiviação de nutrientes nos recursos hídricos, além de desequilibrar a dinâmica ecológica de reservatórios e vetores12-13.
Diante desse panorama socioambiental e epidemiológico, justifica-se a realização deste estudo, que busca reunir e sintetizar evidências científicas de relevância para a saúde pública.
Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo analisar e sintetizar as evidências disponíveis na literatura científica acerca da relação entre as alterações no uso da terra e na cobertura vegetal e a ocorrência de zoonoses e arboviroses.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. Essa abordagem possibilita a combinação de estudos qualitativos e quantitativos, permitindo a síntese crítica do conhecimento e o aprofundamento acerca do objeto de estudo14-15.
A pesquisa foi desenvolvida rigorosamente em seis fases: 1) identificação do tema e definição da pergunta norteadora; 2) amostragem e busca sistematizada na literatura; 3) categorização e extração das informações; 4) análise crítica dos estudos incluídos; 5) interpretação dos resultados obtidos; e 6) síntese do conhecimento produzido14.
Foram realizadas buscas nas bases de dados PubMed (National Library of Medicine), BVS e Scielo utilizando combinações de descritores em inglês, com o objetivo de identificar estudos relacionados à incidência de zoonoses e arboviroses e variáveis ambientais no Brasil. As buscas incluíram os seguintes termos: ("leishmaniasis" OR "malaria" OR "hantavirus" OR "zoonotic diseases" OR "arboviruses") AND ("deforestation" OR "land use change" OR “climate change”) AND Brazil.
Após a etapa de busca, foi realizada uma triagem dos estudos com base nos títulos e resumos com o objetivo de identificar os artigos mais relevantes e que respondessem à questão “Qual a correlação do uso da terra e cobertura vegetal com a incidência de zoonoses e arboviroses no Brasil?”. Foram incluídos estudos publicados entre os anos de 2024 e 2026 em inglês ou português, disponível na íntegra. A partir desses critérios, foram selecionados 22 artigos para elaboração de uma revisão integrativa (Quadro 1).
Figura 1. Fluxograma de seleção dos artigos.
Fonte: Autoras, 2026.
A análise dos dados foi realizada por meio da síntese descritiva dos estudos selecionados, o que permitiu organizar, categorizar e examinar criticamente as evidências encontradas. Essa abordagem visa integrar e consolidar o conhecimento produzido acerca do objeto de estudo, fornecendo uma visão panorâmica e estruturada do tema14.
Em relação aos aspectos éticos e limitações, por se tratar de um estudo de revisão com dados secundários de domínio público, o risco de exposição indevida de informações pessoais é mínimo. Contudo, a pesquisa está sujeita a limitações inerentes ao método, tais como o viés de seleção de estudos, a inclusão de dados eventualmente desatualizados e a subjetividade na interpretação dos achados16.
Quadro 1. Artigos selecionados e temas abordados
Número | Título do artigo | Nível de Evidência | Bioma/Região | Agravo Estudado | Variável Ambiental Analisada | Principal Achado |
1 | Risk factors for emerging, re-emerging, and newly recognized arboviruses and zoonotic viruses in Brazilian amazon | Nível V | Amazônia | Arbovírus e vírus zoonóticos emergentes, reemergentes e recém-reconhecidos | Mudanças nos ecossistemas naturais | Distúrbios nos ecossistemas amazônicos resultam no surgimento de novos vírus enzooticos e na reemergência de agentes virais conhecidos que causam doenças epidêmicas em humanos |
2 | Intermediate forest cover and malaria risk in an Amazon deforestation frontier | Nível IV | Amazônia | Malária | Percentual de cobertura florestal | A cobertura florestal intermediária em paisagens amazônicas aumenta as taxas de infecção por anofelinos, casos de malária em humanos e a abundância de vetores Nyssorhynchus |
3 | Responses of vector and non-vector mosquito communities to a gradient of native forest cover loss in the Cerrado hotspot, Brazil | Nível IV | Cerrado | Mosquitos (Vetores) | Perda de vegetação nativa | Espécies vetoras estavam associadas a paisagens que apresentavam perda de cobertura florestal |
4 | The importance of Indigenous Lands and landscape structure in shaping the zoonotic disease risk-Insights from the Brazilian Atlantic Forest | Nível IV | Mata Atlântica | Zoonoses | Estrutura da paisagem e Terras Indígenas | Os resultados mostraram um efeito protetor da cobertura florestal sobre o risco de doenças, que foi exacerbado à medida que a cobertura das terras indígenas aumentou no município |
5 | Deforestation and visceral leishmaniasis: linking landscape change and health in the Amazon | Nível IV | Amazônia | Leishmaniose Visceral | Taxas de desmatamento | Os achados indicam que a incidência da leishmaniose visceral aumentou ao longo do tempo na região amazônica, com padrões que em algumas áreas coincidiram com o desmatamento, particularmente em zonas de intensa mudança no uso da terra |
6 | The impact of weather and extreme events on malaria transmission in the Brazilian Amazon: a case-crossover and population-based study | Nível IV | Amazônia | Malária | Clima + Eventos climáticos extremos | Os resultados sugerem que a mudança climática poderia ter um impacto significativo no risco de transmissão da malária na Amazônia brasileira. |
7 | (Re)Emerging Arboviruses of Public Health Significance in the Brazilian Amazon | Nível V | Amazônia | Arboviroses | Mudanças na paisagem | As mudanças contínuas na paisagem mantidas pelo ser humano em todo o Brasil resultarão no surgimento e ressurgimento de arbovírus adicionais transmitidos por vetores e casos de doenças. |
8 | Spatiotemporal relationship between agriculture, livestock, deforestation, and visceral leishmaniasis in Brazilian legal Amazon | Nível IV | Amazônia | Leishmaniose Visceral | Agricultura, pecuária e desmatamento | Foram identificadas áreas com alta incidência de LV e desmatamento nos estados de Roraima, Pará e Maranhão. |
9 | Factors Associated With the Emergence and Spread of Visceral Leishmaniasis in the State of São Paulo, Brazil | Nível IV | São Paulo | Leishmaniose Visceral | Fatores ambientais, climáticos, socioeconômicos e estruturais | A presença de ferrovias, rodovias e áreas de cultivo de cana-de-açúcar, assim como altas temperaturas anuais e taxas de evapotranspiração, estavam associadas à ocorrência de LV. Por outro lado, taxas mais baixas de LV estavam associadas a maior precipitação, maior altitude e mais dias chuvosos. |
10 | Canine leishmaniasis in the Atlantic Rainforest Biome region of Bahia, Brazil, affected by deforestation: a one health perspective | Nível IV | Mata Atlântica da Bahia | Leishmaniose canina | Desmatamento | Embora a prevalência seja baixa, as condições socioambientais favorecem a manutenção e expansão da transmissão. |
11 | A Contribution towards Sustainable Development in the Amazon Based on a Socioeconomic and Environmental Analysis of Visceral Leishmaniasis in the State of Pará, Brazil | Nível IV | Pará | Leishmaniose Visceral | Análise socioeconomica e ambiental | A doença apresentou um padrão heterogêneo de distribuição de casos, com relação direta entre as áreas com casos e o desmatamento associado a diferentes atividades antrópicas. Há uma produção socioambiental da doença que ultrapassa os limites das mesorregiões, e seu estabelecimento está relacionado ao modelo de desenvolvimento insustentável implementado na região. |
12 | Climate change, urbanisation and transmission potential: Aedes aegypti mosquito projections forecast future arboviral disease hotspots in Brazil | Nível IV | Brasil | Aedes aegypti | Mudanças climáticas, urbanização e potencial de transmissão | Este estudo ilustra a dupla ameaça representada pelas mudanças climáticas: o agravamento dos desafios de saúde pública já existentes e a criação de novas vulnerabilidades no cenário das doenças transmitidas por mosquitos no Brasil. |
13 | Climatic, environmental, and social factors in Visceral Leishmaniasis: A spatio-temporal perspective in Brazilian biomes. | Nível IV | Biomas Brasileiros | Leishmaniose Visceral | Fatores climáticos, ambientais e sociais | Em conclusão, o estudo demonstrou que fatores climáticos, ambientais e sociais influenciam a ocorrência de leishmaniose visceral de forma diferente nos biomas brasileiros e ao longo do tempo. |
14 | Ecological change increases malaria risk in the Brazilian Amazon | Nível IV | Amazônia | Malaria | Mudanças ecológicas | Neste estudo, demonstramos uma clara associação positiva entre o desmatamento e a transmissão da malária a curto prazo. |
15 | Spatial analysis of American cutaneous leishmaniasis in the state of Amazonas. | Nível IV | Amazonas | Leishmaniose Tegumentar Americana | Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e desmatamento | A alta incidência e a persistência dessa doença nesse estado foram associadas ao desmatamento. |
16 | Entre o desconhecido e o emergente: mapeando os vírus Oropouche e Mayaro no Brasil | Nível V | Brasil | Oropouche e Mayaro | Variáveis demográficas, temporais e laboratoriais. | Os casos se concentram no Norte, onde fatores ambientais e sociais favorecem a transmissão, especialmente em populações vulneráveis. Há indícios de relação da incidência com o desmatamento. A febre do Mayaro também apresenta aparente associação com a degradação ambiental. |
17 | Aspectos epidemiológicos da febre maculosa no Rio de Janeiro: abordagem Uma Só Saúde / Epidemiological aspects of spotted fever in Rio de Janeiro: a One Health approach | Nível IV | Rio de Janeiro | Vetores de febre maculosa | Presença de vetores, evolução clínica e características ambientais das áreas de ocorrência | A febre maculosa no Rio de Janeiro apresenta padrão epidemiológico complexo, influenciado pela fragmentação da Mata Atlântica, urbanização e mudanças climáticas. |
18 | Land use and cover changes and sand fly (Diptera: Psychodidae) assemblages in an emerging focus of leishmaniasis. | Nível IV | Codó, Maranhão | Flebotomíneos | Uso de terra e mudanças na cobertura | As mudanças no uso da terra causadas por atividades humanas criam novos habitats para os flebotomíneos, alterando a cadeia de transmissão da leishmaniose. |
19 | Epidemiological aspects of leptospirosis in Rio Grande do Sul during the 2024 Flood | Nível IV | Rio Grande do Sul | Leptospirose | Enchentes de 2024 | As inundações de 2024 causaram um aumento significativo nos casos de leptospirose. |
20 | Biodiversity assessment of Phlebotomine (Diptera: Psychodidae) in an environmental impacted area in Rio de Janeiro State, Brazil | Nível IV | Rio de Janeiro | Flebotomíneos | Impactos ambientais | Apesar de quase 20 anos separarem os dois estudos no município de Mangaratiba, não houve alteração no perfil da fauna de flebotomíneos em geral; no entanto, observou-se maior densidade de espécies de importância médica em áreas que sofreram impactos ambientais. |
21 | Impacto das mudanças climáticas sobre a leishmaniose no Brasil | Nível V | Brasil | Leishmaniose | Mudanças climáticas | No geral, verifica-se que a leishmaniose aumentará sua incidência no país com a mudança climática. |
22 | Ecoepidemiological aspects of american cutaneous leishmaniasis in the state of São Paulo, Brazil | Nível IV | São Paulo | Leishmaniose Tegumentar Americana | Atividade humanas e destruição florestal | As atividades humanas também favoreceram a Lutzomyia intermedia, uma espécie de flebotomíneo que claramente consegue prosperar em ambientes alterados. L. (V.) braziliensis continua sendo transmitido, mesmo após décadas de destruição florestal em São Paulo. |
Fonte: Autoras, 2026.
RESULTADOS
Através da busca nas bases de dados PubMed, BVS e SciELO foram incluídos 22 artigos que atenderam aos critérios de elegibilidade. Dentre esses 22 estudos selecionados, observou-se a predominância de estudos realizados na Amazônia brasileira (1, 2, 5, 6, 7, 8, 14), refletindo a relevância epidemiológica e ambiental dessa região para a ocorrência de zoonoses e arboviroses. Enquanto, entre os agravos estudados, destacam-se as pesquisas envolvendo diferentes tipos de leishmanioses (5, 8, 9, 10, 11, 13, 15, 21, 22), em seguida a malária e outras arboviroses (1, 2, 6, 7, 14, 17). Além disso, as principais variáveis ambientais abordadas pelos estudos incluíram perda de vegetação e desmatamento, mudanças climáticas e eventos associados, alterações no uso da terra, atividades humanas, percentual de cobertura vegetal. Esses fatores foram analisados quanto a sua atuação como determinante em relação com a ocorrência de doenças zoonóticas.
Figura 2. Distribuição dos principais agravos abordados nos estudos selecionados
Fonte: Autoras, 2026
Dentre os principais agravos identificados nos estudos selecionados, podemos destacar a Leishmanioses, Malária e Arboviroses. (1,2,5,6,7,8,9,10,11,13,14,15,21,22) A Leishmanioses representa o grupo de doenças mais abordado nos artigos estudados, (5, 8, 9, 10, 11, 13, 15, 21, 22), incluindo diferentes formas, como a visceral, tegumentar e canina. Nos estudos analisados, observou-se relação entre a ocorrência da leishmaniose e fatores climáticos, vulnerabilidade social e adaptação de vetores em áreas degradadas (9, 13, 21, 22).
A Malária também se destaca como um dos principais agravos, principalmente em regiões amazônicas (2, 6, 14). Os estudos evidenciam a relação entre a transmissão da Malária com alterações ambientais, mudanças climáticas, eventos extremos e cobertura florestal intermediária. Neste contexto, o desmatamento foi considerado o principal evento associado ao aumento do índice de transmissão da doença, favorecendo a presença de vetores e a ocorrência de casos humanos. (2, 6, 14).
As Arboviroses mostraram uma maior incidência principalmente com mudanças climáticas e modificações das paisagens naturais. Os artigos reforçam a ideia de que alterações em ecossistemas, urbanização e mudanças climáticas favorecem o surgimento de doenças transmitidas por vetores, ampliando os riscos epidemiológicos (1, 7, 16).
Em conjunto, os estudos analisados demonstraram que o aumento dessas doenças está associado a fatores ambientais como desmatamento, uso da terra, expansão do agronegócio, mudanças climáticas e aumento descontrolado da urbanização. (5, 8, 9, 10, 11, 13, 15, 21, 22).
A Amazônia Brasileira concentrou grande parte dos estudos (1, 2, 5, 6, 7, 8, 14). Esse bioma concentra grande biodiversidade e mudanças no seu equilíbrio podem ocasionar no surgimento de novas doenças com potencial epidêmico e na reemergência de zoonoses e arboviroses já conhecidas, como a malária, doença causada por protozoário do gênero Plasmodium através da picada da fêmea do mosquito Anopheles (mosquito-prego) (1,6,7).
Além da malária, outras patologias estão associadas a mudanças na paisagem. A incidência de leishmaniose em humanos e cães foi associada ao desmatamento e condições socioambientais em diferentes regiões do Brasil, sendo o principal foco da maior parte dos estudos a Amazônia (5, 8, 10, 11, 15).
A concentração de estudos na Amazônia, além de refletir a importância epidemiológica desta região, sugere a vulnerabilidade desse bioma quanto às mudanças ocasionadas pela ação humana. A mudança do uso do solo, urbanização, expansão agropecuária, criam ambientes propícios para o contato humano‑animal, facilitando a transmissão das doenças zoonóticas.
A análises nos artigos selecionados mostraram que mudanças climáticas influenciam diretamente no aumento da transmissão de doenças zoonóticas e vetoriais (6, 12, 13, 17, 19, 21). Dentre as mudanças climáticas, destacam-se o aumento da temperatura, alterações de precipitação, eventos climáticos graves como enchentes e mudanças ambientais associadas a ações antrópicas. (6, 12, 17, 19).
Eventos extremos, como enchentes, secas e alterações nos padrões de precipitação, também foram apontados como fatores importantes para o aumento dos problemas ambientais e vulnerabilidade sanitária das populações (17, 19).
Em conjunto, os estudos evidenciaram que a expansão de vetores em áreas urbanas ambientalmente degradadas foi diretamente associada às alterações ambientais e climáticas, visto que essas mudanças favorecem a adaptação e reprodução de organismos transmissores de doenças. (6, 12, 13, 17, 19, 21).
Zoonoses vetoriais e não vetoriais
A maior parte dos estudos incluídos abordou zoonoses vetoriais, ou seja, aquelas cuja transmissão depende da presença de um vetor biológico. Entre os vetores mais investigados destacaram-se os flebotomíneos, responsáveis pela transmissão de leishmanioses. Entretanto, os resultados também evidenciaram que outras espécies de mosquitos, além de carrapatos e diferentes insetos hematófagos, podem participar da cadeia de transmissão, ampliando a complexidade epidemiológica dessas doenças (3, 7, 18, 20, 22).
Por outro lado, a leptospirose, zoonose também analisada, não depende de vetores para sua transmissão. Essa é causada pelo contato direto com a urina de animais infectados, especialmente roedores. O estudo realizado no Rio Grande do Sul mostrou que as enchentes de 2024 resultaram em um aumento expressivo nos casos da doença, evidenciando dessa forma como eventos climáticos extremos podem atuar como determinantes ambientais da ocorrência de zoonoses (19).
DISCUSSÃO
Os dados sintetizados nesta revisão integrativa evidenciam uma relação consistente e multifatorial entre a cobertura vegetal, o uso do solo e a incidência de zoonoses e arboviroses no Brasil, ratificando os preceitos da abordagem de Saúde Única1-2. A partir dos estudos analisados (Quadro 1), observa-se que tanto a supressão quanto as alterações na cobertura vegetal influenciam diretamente a dinâmica de transmissão de patógenos, sobretudo em ecossistemas tropicais e em regiões sob intensa pressão antrópica12-13.
O desmatamento e as modificações no uso da terra emergem como condicionantes centrais para o aumento da morbidade por diversas enfermidades, com sobressalente impacto na região amazônica. Os trabalhos incluídos nesta revisão demonstram que a redução das áreas florestais está fortemente associada à elevação nos casos de malária, leishmaniose visceral e leishmaniose tegumentar, bem como ao surgimento de zoonoses virais emergentes7,17-18. Esse panorama decorre da fragmentação dos habitats naturais e do efeito de borda, os quais favorecem a aproximação entre vetores, reservatórios silvestres e populações humanas, estabelecendo cenários propícios para a circulação e o transbordamento (spillover) de patógenos2.
No contexto específico da malária, as evidências apontam que tanto o desmatamento quanto níveis intermediários de cobertura florestal e fragmentação do solo elevam o risco de transmissão da doença12,19. Esse padrão indica que paisagens parcialmente fragmentadas e de borda florestal proporcionam microclimas favoráveis e criadouros ideais para a proliferação de vetores do subgênero Nyssorhynchus — notadamente o Anopheles (Nyssorhynchus) darlingi —, evidenciando que a perda de continuidade e a degradação da cobertura vegetal desempenham papel determinante na manutenção do ciclo epidemiológico em áreas endêmicas20.
Desse modo, a leishmaniose visceral apresentou forte associação com alterações ambientais, incluindo o desmatamento, a expansão agrícola, a pecuária e o avanço da infraestrutura urbana7-8. A degradação e a urbanização dessas áreas favorecem a adaptação de flebotomíneos a novos nichos, ampliando o risco de transmissão tanto em ambientes rurais quanto periurbanos8. Ademais, variáveis climáticas (como temperatura e precipitação) e condicionantes socioeconômicos potencializam essa dinâmica, ratificando a natureza complexa e multicausal da enfermidade7.
Outro aspecto relevante refere-se ao impacto da perda de biodiversidade e da simplificação dos ecossistemas. Estudos conduzidos na Mata Atlântica demonstraram que fragmentos com maior cobertura florestal e a presença de Terras Indígenas exercem efeito protetor contra zoonoses8. Esse achado corrobora a hipótese do efeito de diluição (dilution effect), segundo a qual ecossistemas mais biodiversos tendem a atenuar a circulação de patógenos ao limitar a abundância e o domínio de hospedeiros amplamente competentes2.
No Cerrado e em outras regiões impactadas, a supressão da vegetação nativa esteve associada ao aumento na abundância de insetos vetores. Isso evidencia que a alteração da paisagem modifica a estrutura das comunidades biológicas, favorecendo espécies de maior relevância epidemiológica12. Tal processo impulsiona a intensificação de arboviroses como dengue, chikungunya e zika, especialmente em cenários de urbanização desordenada21.
As arboviroses, por sua vez, mantêm estreita relação com fatores urbanos e microclimáticos. O incremento térmico, aliado ao adensamento populacional e à precariedade do saneamento básico, estimula a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Projeções indicam que a interação entre mudanças climáticas e expansão urbana tenderá a alargar as zonas de risco no Brasil, gerando novos pontos críticos (hotspots) de transmissão18. Eventos meteorológicos extremos igualmente desempenham papel determinante: enchentes e inundações resultam no aumento expressivo de casos de leptospirose, ilustrando de que forma alterações ambientais abruptas afetam a saúde pública12 e evidenciando a vulnerabilidade das populações residentes em territórios desprovidos de infraestrutura adequada2.
Outro aspecto recorrente diz respeito ao papel das atividades humanas no surgimento de novos nichos ecológicos para vetores. Mudanças no uso do solo, motivadas pela expansão agrícola e pecuária, associam-se à formação de habitats favoráveis ao desenvolvimento de flebotomíneos e outros vetores epidemiologicamente relevantes7. Esse processo não apenas altera a dinâmica ecológica local, mas também reconfigura as cadeias de transmissão de patógenos, elevando o risco de surtos endêmicos e epidêmicos12.
Ademais, destaca-se que a distribuição espacial dessas enfermidades ocorre de forma heterogênea, sob forte influência de determinantes regionais, socioeconômicos e ambientais. A Amazônia concentra expressiva parcela dos estudos e casos, refletindo sua elevada vulnerabilidade frente à intensa pressão antrópica7. Por outro lado, regiões como o Sudeste e o Nordeste também apresentam padrões epidemiológicos preocupantes, associados sobretudo à urbanização desordenada e à fragmentação dos habitats12,22.
Dessa forma, os achados evidenciam que a relação entre a cobertura vegetal e a saúde coletiva não é linear, mas sim complexa e dependente de múltiplos fatores inter-relacionados2,23. Portanto, a conservação de ecossistemas preservados, o ordenamento do uso do solo e a integração de políticas públicas mostram-se fundamentais para mitigar o risco de transmissão de zoonoses e arboviroses21.
Em síntese, esta revisão reforça a imperatividade de abordagens interdisciplinares fundamentadas no conceito de Saúde Única, as quais contemplem simultaneamente a saúde humana, animal e ambiental1-2. A adoção de estratégias sustentáveis de manejo da paisagem, aliada ao fortalecimento da vigilância epidemiológica e de políticas socioambientais, é indispensável para prevenir e mitigar os impactos das mudanças ambientais sobre a saúde pública no Brasil7,13.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo demonstram como as alterações na vegetação, como o desmatamento e as mudanças no uso da terra, influenciam negativamente a qualidade de vida humana e animal, afetando o habitat através da degradação, provocando a maior incidência de doenças como leishmaniose, malária e arboviroses.
As mudanças antrópicas realizadas na Amazônia tornam o bioma vulnerável por meio da urbanização crescente e desenfreada, das práticas ilegais, da substituição e a conversão de áreas verdes em terras agrícolas permite o estreitamento do espaço entre humanos e os diferentes tipos de animais, ocasionando o aumento de zoonoses.
Esses efeitos somados a elevação da densidade populacional e temperatura ampliam os riscos epidemiológicos e o surgimento de novos surtos de doenças, demonstrando que a relação do bem-estar público, animal e ambiental requer ações multifatoriais e fortalecimento das políticas socioambientais.
Dessa forma, o estudo esclarece os mecanismos que influenciam e impactam diretamente a saúde coletiva e como o manejo responsável dos recursos naturais e a forma adequada do planejamento urbano afetam a qualidade de vida dos seres vivos. Os resultados obtidos abrem caminhos para futuras investigações que abordem sobre como o as variações no meio ambiente influenciam na saúde e na incidência de zoonoses.
REFERÊNCIAS